A guerra antes da Civilização

Atualmente estou lendo The Barbarous Years (Os anos bárbaros) do historiador Bernard Bailyn. Ele pinta um quadro muito sombrio da vida no século XVII na América do Norte. Embora nossas fontes históricas estejam principalmente preocupadas com massacres e atrocidades envolvendo europeus, quem desempenhou o papel de vítimas tão frequentemente quanto autores, cruéis e impiedosos, são justamente os membros das sociedades nativo-americanas em seus conflitos inter-tribais.

Os homens eram emboscados e mortos quando afastados em viagens de caça, enquanto mulheres eram postas em risco quando partiam dos assentamentos para colher frutas e castanhas. Ocasionalmente, grandes grupos de guerra invadiam aldeias inteiras, mesmo aquelas que eram bem protegidos por muralhas defensivas (como muitas eram).

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Cidade nativa na Flórida mostrando uma paliçada e casas com telhados de sapê. Esta é uma gravura de Theodore de Bry feita em 1591 baseada em pinturas que Jacques le Moyne de Morgues tinha terminado logo depois de sua chegada ao Novo Mundo em 1564 (de Lorant 1946:95). Fonte

Os vencedores saqueavam estoques de alimentos, destruíam plantações e queimavam casas, despachavam os feridos e levavam os sobreviventes. Embora mulheres e crianças fossem com frequência adotadas para dentro da nova tribo, os guerreiros derrotados eram geralmente torturados até a morte.

os prisioneiros eram muitas vezes mutilados – os dedos picados ou mordidos para incapacitá-los para futuras guerras; as costas e ombros eram rasgados. Nessa tortura sistemática, seus corpos eram cortados por mulheres, enquanto crianças escaldavam as partes mais sensíveis dos corpos com carvão em brasa. [No final], eles eram mais provavelmente queimados até a morte após estripação, algumas partes dos seus corpos eram comidos, e seu sangue bebidos em comemoração dos seus captores.

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Jacques Le Moyne de Morgues. Cena do Canibalismo. Fonte

Insegurança e guerra, com ameaça constante de súbita (ou, pior, dolorida e degradante) morte, era a condição típica das sociedades humanas antes da “civilização” – antes dos Estados em larga-escala com seus governos e burocratas, forças policiais, juízes e tribunais, economias complexas e uma intricada divisão do trabalho.

Parte dos antropólogos usam como objeto a conhecida história das sociedades ameríndias como um espelho da vida em pequena escala. Eles discutiam que a chegada dos europeus nas Américas com seus germes, ferramentas metálicas, armas, e um insaciável apetite por um certo bom comércio (tal como peles) destabilizaram as sociedades nativas e levantaram a intensidade e letalidade da guerra inter-tribal. Existe muito mérito nesse argumento. Mais geralmente, a intensidade da guerra têm variado muito entre diferentes regiões e, dentro das regiões, ao longo do tempo. Contudo, a vida em pequena-escala nas sociedades tribais são muito mais precárias e violentas do que a maioria das pessoas creem.

Sabemos que é verdade porque a arqueologia pode-nos dizer muito mais hoje, se comparado com algumas décadas atrás, sobre a vida em sociedades antes da história. Considere, por exemplo, uma aldeia de índios Oneota, que viveram ao longo do rio Illinois 700 anos atrás (200 anos antes de Colombo). Arqueólogos localizaram o cemitério da aldeia (cujo local é conhecido como “the Norris Farms #36”) e estudaram os restos mortais de 264 pessoas que foram enterradas ali. No mínimo, 43 deles – 16 por cento – morreram por morte violenta. Segundo George Milner,

Muitos deles foram atingidos em suas frentes, lados, e costas com armas pesadas, tal como celtas [machados de pedra], ou foram acertados com flechas. Algumas pessoas aparentemente estavam enfrentando seus agressores. Supõe-se que estes últimos foram feridos enquanto tentavam fugir. As vítimas foram, ocasionalmente, feridas mais vezes que o necessário para causar a morte; talvez vários guerreiros dirigiam golpes – participando, assim, das execuções. Os corpos com frequência eram mutilados pela remoção do couro cabeludo, cabeças e membros.

O padrão das mortes sugere um estado constante de guerra, com homens e mulheres sendo emboscados individualmente ou em pequenos grupos. Em outras palavras, a aldeia Oneota foi bastante similar a muitas outras aldeias indígenas observadas por europeus, embora, como eu disse anteriormente, um aumento geral da violência é perceptível na era pós-Colombo.

A proporção estimada que morreu em decorrência de morte violenta, 16 por cento, situa-se na linha média de estimativas para as populações pré-históricas. Isto não quer dizer, contudo, que a vida era uniformemente desalentadora. Ás vezes as pessoas dessas sociedades em pequena-escala viviam longos períodos de paz e prosperidade. Em outras ocasiões, a guerra era até mesmo insuportável para os moradores de Oneota. Aproximadamente, ao mesmo tempo, mas a centenas de quilômetros do noroeste de Oneota, em Crow Creek, Dakota do Sul, houve uma aldeia dos oradores de Caddoan. Crow Creek é um dos mais famosos sítios de massacre pré-históricos. Era uma aldeia substancial protegida por um fosso defensivo, mas foi invadida e completamente destruída por inimigos.

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Jacques Le Moyne de Morgues. Ataque a aldeia indígena com flechas em chamas. Fonte

Esqueletos de cerca de 500 corpos, pilhados em vala comum, mostram evidências de mortes violentas seguidas de extensivas mutilações. Essencialmente todos os corpos estavam sem o couro cabeludo; muitos corpos decapitados ou com membros cortados. Algumas tiveram suas línguas cortadas.

Como os índios tratados os cadáveres de seus inimigos, "de Narratio Brevis ..", gravado por Theodore de Bry (1528-1598), publicado em Frankfurt, 1591 (gravura colorida)

Jacques Le Moyne de Morgues. Como os índios tratavam os corpos dos seus inimigos. Fonte

Escrito por Peter Turchin. Tradução de John Ford Braüner.

Título original: War Before Civilization (31/10/13)

Fonte: Social Evolution Forum

Fonte: Portal Conservador

Comentários

1 Comentário

  1. Narciso disse:

    E os facínoras dos professores brasileiros continuam com essa história de ”bom selvagem”.

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