A Rússia e os Sinais dos Tempos

Com os eventos na Ucrânia e a agitação geopolítica em torno das disputas entre os ideais russos e os ideais americanos, tem surgido nos meios religiosos muitos debates sobre o papel da Rússia na escatologia mundial e nos caminhos futuros do Cristianismo. Segundo as profecias de Nossa Senhora em Fátima, a Rússia seria a responsável por propagar “seus erros” pelo mundo – erros que, segundo os intérpretes, são os erros do comunismo. De fato, a Rússia foi palco da revolução comunista e também colaborou com o crescimento das ideias ateístas, irreligiosas e comunistas pelo mundo. A segunda parte da profecia fala sobre uma consagração da Rússia ao Sagrado Coração de Maria, que ocasionaria a conversão da Rússia e o arrependimento de seus pecados. Obviamente, por católicos romanos isso é visto como uma conversão do povo russo ao catolicismo ou a união da Igreja Ortodoxa Russa com o Vaticano. Pelos ortodoxos, obviamente, essa visão é tida como uma afronta e escárnio. Entre os ortodoxos, não há consentimento sobre a aparição de Fátima. Muitos não acreditam – mas alguns sim, como o Bispo Alexander (Mileant), de eterna memória. Portanto, é importante esclarecer alguns pontos relacionados aos antigos erros da Rússia, seu arrependimento e qual o papel da Rússia hoje.

A Revolução e as Profecias

Legítima ou não, a profecia de Nossa Senhora em Fátima não foi a primeira a falar sobre o comunismo na Rússia. Muitos santos e startsi ortodoxos russos falaram sobre a ascensão de um poder tirano na Rússia, como forma de castigo ao povo, que já não era mais digno de um governante ortodoxo. São João de Kronstadt, após uma visão, relatou o seguinte:

… a moral de todas as classes da sociedade russa está tremendamente fraca hoje em dia. A vida cotidiana está putrefata com todos os tipos de pecados – abandono da fé, ignorância das coisas de Deus, sacrilégio e, especialmente entre a elite educada, tudo está generalizado e banal, a depravação tornou-se um costume diário, a imprensa e a literatura estão repletas de sedução. Todos traíram ou estão traindo a Deus de uma forma ou de outra. Todos abandonaram o Senhor e Sua justa ira foi inflamada. Desastres Universais nos oprimem por nossos pesados pecados e pela iniquidade de todo o povo…

Portanto, muito antes de Fátima, São João já alertava sobre os perigos que a Rússia corria. Mais de quais pecados o santo falava? São João falava tanto dos pecados pessoais, aqueles cometidos por cada cristão ortodoxo, como também dos pecados coletivos, aqueles pecados que receberam o beneplácito do povo e assim plantaram as sementes da revolução. Isso pode ser visto não só de forma espiritual, mas também no caminhar da história. Quando a Rússia do Czar Pedro começou a abandonar os antigos costumes e a se afastar da mentalidade ortodoxa, o povo russo começou a se transformar – a fé diminuiu, a Rússia não era mais aquela Santa Rússia religiosa que assombrava até mesmo monges árabes e gregos que visitavam suas igrejas e mosteiros[1].

Mas o grande pecado que tem sua consequência saltando aos olhos daqueles que analisam a história e, fica cristalino quando analisamos o contexto da revolução, foi a abolição do Patriarcado, trocado por um Santo Sínodo liderado por um procurador geral, apontado pelo Czar. A ideia inicial de Pedro era ainda mais monstruosa: Pedro gostaria de ter criado a figura do Czar como o “bispo supremo”, mas só foi possível estabelecer o kollegia, o colégio de bispos para governar a Igreja. Aqui, a palavra kollegia, importada do sueco, demonstra o ideal de Pedro em copiar para a Rússia o modelo protestante de governo. Felizmente o kollegia foi logo substituído pelo Santo Sínodo, algo que ainda estava ligado ao ideal ortodoxo. Foi também na época de Pedro o Grande que a formação sacerdotal do clero passou a ser ocidentalizada, incluindo o idioma latino nos Seminários de Teologia[2]. Isso ocasionou a diminuição da vida monástica na Rússia, que decaiu ainda mais durante o reinado de Catarina II. Como o verdadeiro Cristianismo depende da vida monástica, conforme podemos ver no próprio Ocidente, com a Europa construída em torno dos ideais e trabalhos de São Bento, a Rússia começou a declinar espiritualmente.

Além do mais, foi a instituição do Santo Sínodo que jogou a hierarquia da Igreja contra o governo dos czares. Muitos hierarcas da Igreja Ortodoxa Russa na época da Revolução, como os mártires Metropolita Vladimir, Arcebispo André de Ufa e Arcebispo Serafim (Chichagov), felicitaram a revolução e a derrubada do Czar, pois não viam mais na figura do Czar a figura do autocrata ortodoxo, mas sim a figura de um tirano nos moldes do césaro-papismo ocidental. Os revolucionários se aproveitaram dessa divisão e souberam manipular a situação – graças ao choque causado pelas reformas de Pedro, a Rússia foi dividida.

Depois dessa reviravolta na mentalidade russa, diversas mudanças ocorreram na vida espiritual do povo: um novo estilo de iconografia, mais parecido com o realismo das representações ocidentais, foi iniciado no país; começaram a surgir movimentos em torno de renovações na vida eclesiástica que lançaram as sementes do futuro movimento renovacionaista, que chegou a ser a Igreja reconhecida pela URSS, uma falsa igreja que pregava a abolição total do monasticismo e a criação de um episcopado casado[3]; a diminuição da literatura espiritual, baseada em obras mais simples, práticas e ascéticas e o aumento da literatura mais acadêmica, principalmente em obras de criticismo histórico das Escrituras e da vida dos santos.

Czar-Nicolau-II-Portal-Conservador

Quando o Czar-Mártir Nicolau II subiu ao trono, sua preocupação não era apenas restaurar o Patriarcado, mas sim reviver a antiga espiritualidade russa. Sob seu financiamento e tutela, as antigas escolas paroquiais voltaram a existir, ocorreu a substituição dos ícones no novo estilo por novos ícones segundo o estilo ortodoxo, várias obras espirituais como “O Peregrino” ganharam novas edições[4]. O Czar-Mártir, tido como sanguinário, atrasado e incompetente, na verdade tentou recolocar a Rússia em seu caminho. Mas por qual razão este esforço acabou em catástrofe? A resposta é simples: o povo não estava preparado. Os startsi afirmavam que a Rússia só seria capaz de se arrepender após o grande castigo. São João de Kronstadt disse na mesma profecia:

O mal cresceu na Rússia em proporções monstruosas e é praticamente impossível corrigi-lo”[5].

Segundo o ideal de governo ortodoxo, o autocrata ortodoxo não tem origem no desejo do povo, mas sim em seu merecimento em ser governado por um autocrata ortodoxo. Como na antiga Jerusalém, a Nova Jerusalém precisa ser digna de reis e sábios. O Abençoado Monge Serafim Rose dizia que nossa época é carente de startsi pois não merecemos mais os grandes startsi como o povo do passado. Como é dito em Oséias: “Não temos rei, porque não tememos ao Senhor”(Oséias 2:10). A piedade do Czar-Mártir não foi suficiente para salvar a Rússia. Foi preciso o sacrifício do Czar-Mártir pela Rússia para que a Rússia pudesse ser salva. O Czar teve na abdicação sua Gólgota e seu sacrifício foi necessário para salvar a Rússia. Como um novo Cristo, o Czar-Mártir se ofereceu como sacrifício, para que a Rússia não fosse totalmente destruída – vemos novamente o destino da Rússia ligado ao simbolismo da Aliança e da parúsia final. O sacrífico redentor do Czar feito pela Rússia é o começo, o renascimento da Rússia, que será marcado pela ressurreição de São Serafim de Sarov, que por sinal era profundamente ligado ao Czar-Mártir, marcará a ressurreição da Rússia. O Staretz Alexis do Eremitério de Zósima disse, em uma profecia: “O povo russo deve ser purificado do pecado através de grandes provas”[6]. Santo Anatólio de Optina também profetizou: “E o navio russo será estraçalhado em pedaços. Mas as pessoas poderão ser salvas até mesmo nos cacos e fragmentos. E nem tudo perecerá. Devemos orar, todos devemos nos arrepender e orar com fervor”[7].

Entretanto, qual o significado desse arrependimento? O Metropolita João (Snichev) escreveu em sua obra Как подготовиться и провести Великий пост (Como se preparar e passar a Grande Quaresma): “Ai de nós, buscamos por desculpas, buscamos razões pelos acontecimentos em todo canto, nas condições históricas desfavoráveis, nos líderes das traições, nas falhas dos nossos próximos, nas influências externas – mas não em nós mesmos! A verdade é totalmente zombada – de Deus não se zomba! Com nossos vícios e paixões, como o desejo de poder e vaidade, inveja e hipocrisia, arrogância, insolência e falta de fé – causamos todos estes problemas! Sim, a maléfica sede de poder é a nossa destruição e tem no mundo moderno grande poder e autoridade. Sim, ela foi criada com séculos de experiência na destruição, na arte diabólica do engano. Mas isso não é desculpa! Quem não sente o pecado é fatal e imensamente enganado. Todos somos culpados… Lembre-se disso: sem arrependimento não há purificação – não há renascimento da alma, não há! Ela perece.”[8]

Portanto, os santos russos estavam conscientes dos pecados da Rússia e também de seu caminho para o arrependimento. Além do mais, o sangue dos Novos Mártires e Confessores da Rússia, que correu por todo o território russo como testemunho do Cristianismo contra a autoridade soviética, serve não só de exemplo cristão como também demonstra que o Cristianismo na Rússia nunca morreu. Ele foi para as catacumbas, foi para a prisão, para o gulag, para a tortura – mas não deixou de existir e de testemunhar. Há nos dias de hoje, principalmente em círculos católicos ligados à aparição de Fátima, a ideia de que o comunismo só floresceu na Rússia pela falência completa da Igreja Ortodoxa Russa. Em momento algum, na profecia de Fátima, é dito que a Rússia está morta espiritualmente. É dito, como nas profecias dos startsi, um alerta sobre os erros da Rússia.

O Renascimento da Rússia

Qual o significado do renascimento da Rússia? Qual Rússia deverá renascer? O que é a Rússia, afinal? Conforme já compreendemos nas profecias dos startsi, a Rússia que deverá renascer não é a Rússia enquanto uma grande potência militar e contraponto da civilização ocidental. A Rússia vista pelos startsi é semelhante ao renascimento espiritual que começava a ocorrer na época das reformas do Czar-Mártir Nicolau II mas, dessa vez, não haverá falha no renascimento. Se na época do Czar o povo ainda estava carregado pelo pecado e precisava do sacrifício do Czar pelos seus pecados, a futura Rússia renascida terá um ambiente favorável, estará pronta espiritualmente para um renascimento pleno e, no lugar do chicote da ditadura soviética, enviada como um castigo, receberá um Czar piedoso e da dinastia Romanov. Alguém pode perguntar como isso é possível, devido ao fato da Rússia ainda estar impregnada de erros advindos da URSS, como o ateísmo, o aborto e tantos outros problemas. Mas a resposta fica clara quando analisamos a história da Igreja: arianismo e iconoclasmo quase tomaram a Igreja de assalto, mas no final foram derrotados. A Igreja nasceu em meio às perseguições e resistiu – logo no começo do Apocalipse vemos o que a heresia dos nicolaítas fazia entre os cristãos do I século, por exemplo.

De fato, o governo russo atualmente toma algumas medidas conservadoras e favoráveis à Igreja Ortodoxa, mas ainda não contribui nem participa do arrependimento do povo russo. O arrependimento ocorrerá através do povo, pela sua reforma em piedade, qualquer confusão disso com o renascimento da Rússia enquanto potência no cenário da política externa é mera má intenção da politicagem.

Há ainda outros fatores mais assombrosos quanto às profecias do renascimento da Rússia, como a ressurreição de São Serafim de Sarov, conforme mencionamos acima, profetizada pelo próprio santo staretz – algo que confirma a Rússia como um ponto chave no cenário escatológico. Uma terra que foi capaz de espalhar grandes erros, também é capaz de grande arrependimento. Assim como a história do povo da primeira aliança, o povo judeu, marcada por grandes pecados e grandes arrependimentos, até a destruição final do tempo, a Rússia, que já foi chamada de Nova Jerusalém, Terceira Roma e Santa Rússia, também possui seu papel na nova escatologia. Assim como cada aspecto do Velho Testamento era uma prefiguração para a Nova Aliança, o fim do Templo e a diáspora do povo eleito também foram prefigurações da futura Nova Aliança, a da Rússia. Isso fica ainda mais evidente quando notamos que, nas profecias dos startsi, a Rússia renascida logo será destruída, como um dos últimos passos do mundo terreno – novamente notamos uma semelhança com a encarnação de Cristo, que veio primeiro para o povo eleito e arrebanhou alguns deles para a salvação e foi sacrificado por este mesmo povo e assim o Templo foi destruído pela última vez.

A curiosidade em torno do renascimento da Rússia é algo assustador, mas é muito claro que tal agitação gira em torno exclusivamente quanto aos resultados dos conflitos militares atuais; coisas distantes das preocupações dos realmente interessados no renascimento espiritual da Rússia. O aspecto simbólico dos acontecimentos é simplesmente esquecido, em troca de uma torcida fanática, como se a conquista de um território fosse um grande sinal espiritual.

A batalha espiritual não se dá no campo político. O campo político é apenas um reflexo da tensão presente na batalha miguélica contra o exército luciferianos e, conforme notamos no desenrolar de todos os eventos, muitas vezes os reflexos desta batalha no campo políticos são meras artimanhas do exército do maligno, enquanto as forças miguélicas ficam de fora deste embate terreno.

Escrito por Rafael Daher. Blog pessoal.

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Notas

[1] cf. Travels of Macarius, Patriarch of Antioch, Vol. VII. Archdeacon Paul of Aleppo. London, The Oriental Translation Fund, 1836.
[2] cf. История Русской Церкви. 1700–1917 гг. Игорь Корнильевич, Ed. Издательство Спасо-Преображенского Валаамского монастыря. Ed. 1997
[3] cf. Современное обновленчество – протестантизм “Восточного обряда”, Сборник. / Сост. Н. Каверин. Ed. ОДИГИТРIЯ. 1996.
[4] cf. The New Martyrs of Russia, Archpriest Michael Polsky. Ed. Monastery Press. 2000.
[5] cf. Иерею Божию. Из трудов Святого Праведного Иоанна Кронштадтского. Ed. Отчий дом, 2011.
[6] Em The Orthodox Word, 1981, No. 100
[7] Em Orthodox Russia, 1970, No. 1
[8] Disponível online em http://lib.pravmir.ru/library/book/1456

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