A Figura Histórica de Jesus Cristo

Introdução

“Jesus Cristo foi apenas uma entidade ideal, criada para fazer cumprir as escrituras, visando dar sequência ao judaísmo em face da diáspora, destruição do templo e de Jerusalém. Teria sido um arranjo feito em defesa do judaísmo que então morria, surgindo uma nova crença” – La Sagesse – Jesus Cristo Nunca Existiu, pp.7 (http://pt.scribd.com/doc/17694243/La-Sagesse-Jesus-Cristo-Nunca-Existiu).

A pergunta sobre a existência de Cristo tem sido novamente colocada em pauta: Ela não é nova, mas apresenta-se como definitiva. Não são poucos os artigos, livros e revistas que tem investido nesse assunto nos últimos anos.

A razão para esse questionamento vindo dos críticos acontece por duas razões basicamente: (1) Segundo eles, não existem evidências históricas de Cristo fora dos livros do Novo Testamento e (2) não consideram o NT como fonte confiável por ter sido escrito por motivações religiosas e não históricas. Nossa intenção é de apresentar cada uma dessas questões e responde-las de acordo com os fatos que dispomos.

A. Fontes não cristãs sobre a historicidade de Cristo

“A igreja faz suas declarações com base, principalmente, nos ensinos de um judeu jovem e obscuro com pretensões messiânicas e que, a bem da verdade, não causou uma impressão muito significativa durante a vida. Não há uma palavra sequer a seu respeito na história secular. Nenhuma. Os romanos não o mencionam. Josefo apenas o cita, nada mais” – TEMPLETON, Charles, Acts of God, Bantam, 1979, p.152 IN: STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo,  Vida, 1998, 100)

A primeira questão que devemos abordar é: Existem fontes não cristãs que falam a respeito de Jesus Cristo? A resposta a essa pergunta é sim. Isso, de certo modo, nada acrescenta a fé que já temos em Cristo, mas nos ajuda a compreender a visão crítica a respeito da historicidade de Cristo.

Por isso nessa seção pretendemos demonstrar os registros históricos não provenientes das escrituras nem de cristãos do passado, afim de ressaltar que características centrais da pessoa de Cristo, tal como anunciada pelos evangelho, foi reconhecida por aqueles que estavam historicamente próximos dos eventos que atestam.

1. Talo (~52 dC)

Talo é normalmente reconhecido como um antigo historicista samaritano que escreveu em grego koinê, possivelmente entre 50 e 55dC. Sabemos isso em função da menção de Julio Africano (Fragments, XII), Lactantius (Divine Institutes, XIII), Teófilo (To Autolycous, III, XXIX), Tertuliano (Apology, X), Justino Mártir (Horatory to address to the greeks, IX; todos alistados em: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers) e Flávio Josefo (JOSEFO, Flávio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.424), pouco depois de sua controversa citação de Jesus Cristo.

Talo escreveu sobre a história do mundo mediterrâneo, muito embora nenhum dos seus escritos realmente tenha sobrevivido, ou seja, tudo o que sabemos sobre ele e sua obra provêm de outros escritores. Um desses autores que o menciona é Júlio Africano quando menciona a escuridão que cobriu a terra durante a crucificação de Cristo. Segundo Africano, Talo teria registrado esse fato como um evento cósmico, observe:

“Talo, no terceiro dos seus livros que escreveu sobre a história, explica essa escuridão como um eclipse do sol – o que me parece ilógico” – (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.107)

É interessante a proposição desse diálogo de Júlio Africano com Talo, afinal parece que Talo refuta o que Júlio acredita piamente. É fato que a defesa de Júlio não parece a mais adequada, até porque, hoje poucos achariam a proposta de um eclipse solar no período da morte de Cristo algo tão ilógico, como Júlio acredita. Entretanto, parece interessante que ainda que um fenômeno natural tenha sido atribuído como a causa dessa escuridão mencionada por Marcos e Lucas nos evangelhos canônicos, um dos fatos bem intrigantes da história de Cristo parece ter sido aludida até mesmo por aqueles que se recusavam a acreditar

Yamauchi também nos lembra de uma citação interessante feita por Paul Maier sobre esse período de escuridão, em uma nota de rodapé do seu livro sobre Pôncio Pilatos (1968):

“Esse fenômeno, evidentemente, foi visível em Roma, Atenas e outras cidades do Mediterrâneo. Segundo Tertuliano foi um evento cósmico ou mundial. Flegão, um outro grego da Cária, escreveu uma cronologia pouco depois de 137 dC em que narra como no quarto ano das Olimpíadas de 202 (ou sejam 33dC), houve um grande eclipse solar, e que anoiteceu na sexta hora do dia, de tal forma que até as estrelas apareceram no céu. Houve um grande terremoto na Bitínia, e muitas coisas saíram fora de lugar em Nicéia” – (MAIER, Paul, Pontius Pilate, p.366; IN: STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo,  Vida, 1998, 111)

Com essas declarações de Talo, corroboradas pela opinião de Flegão, podemos auferir pelo menos três conclusões interessantes: (1) Na ocasião da morte de Cristo, houve um evento cósmico que foi conhecido em diferentes partes do mundo antigo de modo impressionantemente similar ao registro das escrituras; (2) O evangelho, ou pelo menos a história da crucificação de Cristo, já era conhecida na região do Mediterrâneo por volta do ano 50dC; (3) Aqueles que não acreditavam na história cristã já ofereciam diferentes explicações para as informações que tinham acesso.

2. Mara Bar-Serapião (~73)

Mara Bar-Serapião era um filósofo estoico da província romana da Síria que tornou-se amplamente conhecido em função de uma carta que teria escrito a seu filho, também chamado Serapião, que segundo Robert E. Voorstpor fora escrita volta do ano 73 dC (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.53). Em função dessa carta tornou-se uma das primeiras referências não judaica e não cristã a se referir a Jesus Cristo. Ela foi publicada pela primeira vez no século XIX por Willian Cureton, que acreditava que Mara Bar-Serpaião era cristão sofrendo perseguição, opinião que os mais recentes acadêmicos rejeitam veementemente. Sobre essa carta, F.F. Bruce atesta:

“É uma carta enviada por um cidadão sírio, chamado Mara Bar-Serapião, ao filho de nome Serapião. Mara Bar-Serapiaão achava-se encarcerado por essa época, mas escrevia com o propósito de estimular ao filho na aquisição da sabedoria e ressaltava que aqueles que se davam à perseguição dos sábios eram fatalmente vítimas de infortúnios” – (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento, Vida Nova, 1965, pp.148)

Para demonstrar o fato de que a perseguição de sábios leva a infortúnios, Mara Bar-Serapião afirma:

“Que proveito os atenienses abtiveram em condenar Sócrates à morte? Fome e peste lhe sobrevieram como castigo pelo crime que cometeram. Que vantagem os habitantes de Samos obtiveram ao pôr em fogo em Pitágoras? Logo depois sua terra ficou coberta de areia. Que vantagem os judeus obtiveram com a execução do seu sábio rei? Foi logo após esse acontecimento que o reino dos judeus foi aniquilado. Com justiça Deus vingou a morte desses três sábios: os atenienses morreram de fome; os habitantes de Samos foram surpreendidos pelo mar; os judeus arruinados e expulsos de sua terra, vivem completamente dispersos. Mas Sócrates não está morto, ele sobrevive aos ensinos de Platão. Pitágoras não está morto; ele sobrevive na estátua de Hera, Nem o sábio rei está morto; ele sobrevive nos ensinos que deixou” – (IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, 2003, pp.451)

A declaração de Mara Bar-Serapião, e interessantíssima, e igualmente controversa. A primeira controvérsia refere-se à data, fato que até mesmo Bruce já havia atestado: “É verdade que há no museu Britânico interessante manuscrito que preserva o texto de uma carta escrita algum tempo depois no ano 73 da era cristã; quando depois, entretanto, não há certeza” (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento, Vida Nova, 1965, pp.148). Geisler parece mais inespecífico quando fala da ocasião da carta, pois em sua opinião, foi uma carta escrita entre o primeiro e o terceiro século (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, 2003, pp.451), do mesmo modo que Habermas (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.207). Entretanto, a questão da data da carta, apesar do caloroso debate sobre ela, nada infere sobre o testemunho que esta carta apresenta, se é o caso de que o sábio rei dos judeus fosse de fato uma referência a Jesus Cristo.

A mais importante controvérsia, entretanto, refere-se a identidade do Sábio Rei: O sábio Rei é de fato Jesus Cristo? Por exemplo, Farrel Till defende que o Sábio Rei seja Jesus Cristo, pelo simples fato de que “pretensos messias eram encontrados às dúzias na Judéia” (TILL, Farrell, “The ‘Testimony’ of Mara Bar-Serapion“, The Skeptical Review 1995; IN: http://www.theskepticalreview.com/tsrmag/4mara95.html; em 03/05/2011). Jeffery Jay Lowder, seguindo Farrel defende ainda que também é possível que o Professor da Justiça, mencionado nos manuscritos de Quran também pudesse ser a referência a quem Mara Bar-Serapião endereça (LOWDER, Jeffery, J., Josh McDowell’s “Evidence” for Jesus: Is It Reliable?; IN: http://www.infidels.org/library/modern/jeff_lowder/jury/chap5.html#mara; em 03/05/2011).

Essa questão é importante, e era de se esperar que céticos questionassem sua veracidade comoreferência a Jesus Cristo, entretanto, devemos lembrar que existem ao menos sete declarações feitas por Mara Bar-Serapião que nos auxiliam a identificar o Sábio Rei: (1) Ele foi executado; (2) ele era sábio; (3) Foi executado pouco antes da destruição de Jerusalém; (4) Sua execução foi anterior à dispersão dos judeus; (5) os judeus foram responsáveis por sua morte; (6) ainda sobrevive por meio dos ensinos que deixou; (7) foi referido como rei.

Diante disso, devemos indagar qual personagem dentre das dúzias de candidatos a messias poderiam se enquadrar em todas as características do Sábio Rei de Mara. A primeira observação que fazemos é que a proposta de Lowder não pode se enquadrar na citação de Mara pelo simples fato de que o Professor da Justiça, citado nos manuscritos do mar morto, não é apresentado no mesmo documento como tenho sido executado, apesar de ter sido perseguido.

Outra observação que podemos fazer é que todas as mais famosas sugestões para o Rei Sábio, como Onias III e Judas o Essênio também não podem ser referidos, pelo simples fato de que o Rei Sábio de Mara foi executado pouco antes da queda de Jerusalém e da dispersão dos judeus. Se Onias fosse a referência, a dispersão dos judeus teria acontecido nada menos do que 240 anos mais tarde do que realmente aconteceu. Já com Judas o Essênio, seriam apenas 170 anos. Apesar da carta de Mara Bar-Serapião conter algumas dificuldades históricas relacionadas a Atenas e a Samos, um equívoco de tantos anos seria ainda improvável.

Por fim, a última controvérsia levantada por céticos refere-se ao fato de que Mara Bar-Serapião atribui a morte de Cristo aos judeus, o que se sabe que tecnicamente não é a informação mais correta, afinal, a morte de Cristo aconteceu nas mãos do romanos. É impressionante que esse seja de fato um argumento plausível para contestar a referência a Jesus Cristo nessa carta. O Novo Testamento está repleto de citações que atribuem a culpa aos judeus, como a primeira pregação de Pedro, por exemplo. Outro detalhe que se levanta quando se fala do antissemitismo na igreja primitiva, atenta-se a exatamente esse fato. Aliás, essa é uma das evidências que se tem para um carta mais antiga, afinal é bem provável que Mara Bar-Serapião tinha conhecimento da mensagem cristã da morte de Cristo como encomendada por judeus.

Ou seja, ainda que seja controvertida, essa carta oferece uma descrição interessante sobre Jesus Cristo, como Habermas sugere:

“Dessa passagem aprendemos: (1) que Jesus era considerado um homem virtuoso; (2) Ele é apresentado duas vezes como um Rei Judeu, possivelmente em referência aos próprios ensinos de Cristo sobre si mesmo,  ao qual os seguidores mencionavam, ou ainda da frase escrita sobre sua cabeça na cruficicação; (3) Jesus foi executado injustamente pelo judeus que pagaram por seus atos errados sofrendo brevemente o julgamento posteriormente, provavelmente uma referência a queda de Jerusalém para o exército romano; (4) Jesus vive nos ensinamentos dos cristãos primitivos, que é um indicativo de que Mara Bar Serapião não era  cristao” – (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.208)

3. Flávio Josefo (37–100dC)

Flávio Josefo é considerado como um dos maiores historiadores judeus de sua época, e além de escrever sobre a História dos Judeus e suas guerras, também escreveu sua autobiografia, na qual se descreve como filho de Matias o sacerdote judaico, nascido em Jerusalém, instruído pela torá e adepto do farisaísmo (JOSEFO, Flávio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.476-495). O seu testemunho é importante, pois é provavelmente o único relato sobrevivente de uma testemunha ocular da destruição de Jerusalém.

Josefo é considerado como um revolucionário judeu que rendeu-se à supremacia romana trocando o suicídio pela lealdade a Roma. Por sua demonstração de lealdade, Vespasiano não apenas o recebeu como cidadão romano, mas o patrocinou como historiador.

No seu livro Antiguidade dos Judeus, que é normalmente datado na década de 90dC tem duas citações interessantes. A primeira faz clara referência a Tiago “irmão de Jesus chamado Cristo” (GEISLER, Norman, Não tenho fé suficiente para ser ateu – Vida, 2006, pp.227), veja:

“Anano, um dos que nós falamos agora, era homem ousado e empreender, da seita dos saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos os judeus e os mais rigorosos no julgamento. Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não havia chegado, para reunir um conselho diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verdadeiro amor pela observância das nossas leis” – (JOSEFO, Flavio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.465)

Dois fatos são interessantes nessa citação: (1) Confirma uma clara declaração das escrituras: Jesus tinha um irmão chamado Tiago (Gl.1.19); (2) Ele era reconhecido como Cristo, outra afirmação clara das escrituras (Mt.16.16).

A segunda declaração de Josefo a respeito de Jesus é ainda mais explícita e por isso, muito controversa. Pouco antes da declaração supracitada, ele também afirma:

“Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considera-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Ele era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome” – (JOSEFO, Flávio, História dos Judeus – CPAD, 2000, pp.418)

Essa citação tem sido criticada como sendo impossível de ter sido proferida por um judeu-romano escrevendo sobre a história dos judeus. Normalmente apela-se par ao fato de que o texto acima é fruto de uma corrupção cristão tardia, especialmente pelo fato de que Orígenes (185-253dC) atesta que Josefo não aceitava a Messianidade de Jesus. Entretanto, essa declaração não é inteiramente verdadeira, observe a declaração de Orígenes:

“Tamanha era a reputação de Tiago entre as pessoas consideradas justas, que Flávio Josefo, que escreveu Antiguidade dos Judeus em vinte livros, quando ansiava por apresentar a causa pela qual o povo teria sofrido grandes infortúnios que até mesmo o tempo fora destruído, afirma que essas coisas aconteceram com eles de acordo com a Ira de Deus em consequência das coisas que eles se atreveram a fazer contra Tiago o irmão de Jesus que é chamado Cristo. E o que é fantástico nisso é que, apesar de não aceitar Jesus como Cristo, ele deu testemunho da justiça de Tiago” – (Orígenes, Origen’s Commentarary on Matthew, IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 9, pp.424)

Considerando o fato de que Orígenes atesta que Josefo o chama de Cristo (como vimos que o faz quando fala sobre Tiago), embora não o considerasse como tal, não é impossível que a citação seja de fato verdadeira. Porém, devemos reconhecer que algumas das declarações desse texto atribuído a Josefo parecem por demais cristãs para serem de um fariseu, e entendemos que não é à toa que tenha sido considerada uma interpolação.

Edwin Yamauchi, professor emérito de história na Universidade de Miami, comenta essa citação de Josefo e explica que é possível perceber onde estão as interpolações, ou supostas alterações cristãs tardias. Ele argumenta que era incomum para um cristão referir-se a Jesus Cristo apenas como um homem sábio, o que sugere que o texto nesse caso é de Josefo. Por outro lado, parece improvável que um judeu sugeriria que ele não era simplesmente um homem. Nesse caso, Yamauchi atesta que esse é um possível caso de interpolação cristã tardia. Sobre a expressão “Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios”, Yamauchi defende que está em conformidade com o estilo e vocabulário de Josefo, mas a conclusão “Ele era o Cristo” parece direta demais para um judeu (STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo,  Vida, 1998, 104).

Contudo, ainda que tal citação de Josefo possa ser tomada com algumas ressalvas, é importante lembrar que uma versão árabe do texto de Josefo no mesmo trecho, que embora tenha as partes mais criticadas ausentes, apresenta aspectos interessantes sobre Cristo, observe:

“Nessa época havia um homem sábio chamado Jesus. Seu comportamento era bom, e sabe-se que era uma pessoa de virtudes. Muitos dentre os judeus e de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos condenou-o à cruficicação e à morte. E aqueles que haviam sido seus discípulos não deixaram de seguí-lo. Eles relataram que ele lhes havia aparecido três dias depois da crucificação e que ele estava vivo […] talvez ele fosse o Messias, sobre o qual os profetas relatavam maravilhas” – (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.449)

Após apresentar essa versão do texto de Josefo, em outro livro Geisler explica sua preferência por essa leitura:

“Existe uma versão dessa citação na qual Josefo afirma que Jesus era o Messias, mas a maioria dos estudiosos acredita que os cristãos mudaram a citação para que fosse lida dessa maneira. De acordo com Orígenes, em dos pais da igreja nascido no século II, Josefo não era cristãos. Desse modo, é improvável que ele pudesse afirmar que Jesus era o Messias. A versão que citamos aqui vem de um texto árabe que, acredita-se, não foi corrompido” – (GEISLER, Norman, Não tenho fé suficiente para ser ateu – Vida, 2006, pp.227)

Diante dessas informações, devemos ainda lembrar os leitores que a credibilidade de Josefo como historiador já foi colocada a prova diversas vezes. Em um provocativo livro chamado Jesus e Javé, o judeu ateu Harold Bloom logo de início apresenta sua visão acerca de Cristo e Josefo:

“Não há fatos comprovados acerca de Jesus de Nazaré. Os poucos fatos que constam na obra de Flávio Josefo, fonte da qual todos os estudiosos dependem, são suspeitos, pois o historiador era José bem Matias, um dos líderes da Rebelião Judaica, que salvou a própria pele por ter bajulado os imperadores da Dinastia Flaviana: Vespasiano, Tito e Domício. Depois que um indivíduo proclama Vespasiano como Messias, ninguém deve mais acreditar no que tal pessoa escreve a respeito do seu povo. Josefo, mentiroso inveterado, assistiu, tranquilamente à captura de Jerusalém, à destruição do Templo e à matança dos habitantes” – (BLOOM, Harold, Jesus e Javé, os nomes divinos – Objetiva, 2006, pp.31)

Nesse momento temos que fazer uma importante pergunta: “O que ganharia esse judeu traidor nacional em mencionar a figura de Jesus?”. Considerando o fato de que era financiado por Roma, era de se esperar que sua visão pudesse ter sido comprada pelos romanos e sua história tenha cedido em alguns lugares à tentação de ser conscientemente impreciso o que o levou a ganhar a fama de mentiroso inveterado.

Contudo, aos olhos de Roma, essa nova “religião” tinha claras tendências de ser facciosa ao Império em função do seu estranho conjunto de doutrinas e sua objetiva recusa de adorar ou a César ou aos deuses romanos. Com isso, era de se esperar que ele suprimisse qualquer evento, fato ou personagem que pudesse o colocar em oposição com seus patrocinadores.

Portanto, é evidente que não haveria qualquer ganho para Josefo em apresentar a pessoa de Jesus, e talvez, por essa mesma razão, é que ele tenha escrito tão pouco a seu respeito. Mas, ainda assim, com o testemunho de Josefo, nós podemos reconhecer algumas das características de Cristo e sua história, tal como contada pelos evangelistas: (1) Jesus foi um homem considerado sábio; (2) de bom comportamento e virtudes; (3) tinha um irmão chamado Tiago (4) teve muitos seguidores de diferentes nacionalidades; (5) foi crucificado por Pilatos; (6) por crucificação; (7) nem por isso seus discípulos o abandonaram; (8) eles relataram a ressurreição de Cristo após três dias; (9) além de uma possível relação com o Messias anunciado pelas escrituras hebraicas.

4. Cornélio Tácito (56–120dC)

Cornélio Tácito é reconhecido pela história como governador da Ásia e historiador. Robert E. Van Voorst o considera como o maior historiador Romano, embora não se saiba muito sobre sua família, cidade de nascimento e ocasião da morte. (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.39). Ele escreveu um livro chamado Histórias no qual trata dos eventos e acontecimentos romanos entre 69-96dC, e é fonte de muitos dos acontecimentos de Galba, Otho, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciniano. Esse livro teria sido escrito em 20 diferentes volumes dos quais apenas os quatro primeiros sobreviveram juntamente com fragmentos do quinto volume.

Seu trabalho que nos chama a atenção é chamado Anais, seu último e incompleto trabalho de registro histórico. Originalmente esse livro foi escrito em trinta diferentes livros, e embora tenha sido escrito após o livro Histórias, trata de assuntos históricos anteriores a ele. Pouquíssimas cópias desse livro subsistiram até nossos dias, sendo que uma cópia encontra-se no monastério beneditino da Abadia de Corvey e uma segunda cópia encontra-se em outro mosteiro beneditino em Monte Cassino.

Nesse mesmo livro encontramos uma citação interessante de Tácito sobre os cristãos:

“Mas nem todo o socorro que um pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiram que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à extrema punição [i.e crucificação] por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda a cidade de Roma” – (TACITUS, Cornelius, Annales ab excesso div August. Charles Dennis Fisher, Clarendon Press, Oxford, 1906)

Dois detalhes são importantes de serem reconhecidos: (1) o termo que Tácito usa para se referir aos cristãos, provavelmente foi mal escrito, pois em latim o texto traz a expressão “chrestianos” e que posteriormente tenha sido alterado para “cristianos”, ou seja cristãos. (2) O nome Christus é foi vertido em latim apenas para demonstrar que Tácito tinha uma informação clara sobre o grupo de cristãos, sobre quem escrevia.

Como acontece com todas as referências históricas diretas a respeito de Cristo, os críticos questionam a autenticidade dessa citação, afinal, é por demais similar as informações que encontramos nos evangelho canônicos. Voorst atesta alguns trabalhos críticos sobre o texto de Tácito, que questionam a veracidade dessa expressão: P. Corneli Tacit, Annalim Libri de F. Romer; Cornelios Tacitus, Annales de K. Wellesley e Tacite, Annales livres de P Wuilleumier. Entre as declarações encontramos a afirmação de que existe um problema textual na descrição da morte que Jesus sofreu, se foi apenas uma condenação, ou se foi crucificação. O texto de Charles Dennis Fisher que usamos aqui, expressa apenas a punição extrema, o que sugere a condenação à morte romana, que normalmente seria por crucificação, entretanto, é possível que o próprio termo não tenha sido empregado por Tácito, como procuramos demonstrar acima.

Entretanto, independente desse problema textual, o conceito claro da morte de Cristo por Pilatos no período de Tibério ainda é compatível com a descrição das escrituras. Vale a pena ainda ser lembrado que ele se refere a Cristo como um nome pessoal, o que confirma a tendência iniciada no Novo Testamento de referir-se a Jesus Cristo, por Cristo.

É ainda importante demonstrar que na visão de Tácito, Cristo é o originador de um grupo de pessoas chamadas cristãos, ou seja, Ele é o fundador do movimento religiosos que leva o seu nome. Mais uma declaração compatível com aquilo que conhecemos nas escrituras.

Porém, precisamos fazer uma pergunta interessante nesse ponto: Não seria essa descrição de Tácito, uma alteração textual tardia promovida por cristãos, como aconteceu com Flávio Josefo? Essa é uma pergunta feita pelos críticos das fontes históricas de Jesus Cristo e merece nossa atenção.

A resposta que damos a essa pergunta é não, por dois motivos: (1) Se um cristão fosse adulterar um texto, certamente suprimiria as expressões sobre o ódio romano contra eles, ou o fato de que são considerados como um superstição perniciosa; (2) Os pais da igreja não fizeram uso desse material de Tácito em nenhum lugar, o que sugere que não era um material de interesse cristão, especialmente nos primeiro séculos do cristianismo, que não enfrentavam dificuldades com o tema da historicidade de Cristo. Ou seja, é bem provável que o conteúdo dessa citação fornecida por Tácito não fazia parte da agenda apologética dos cristãos primitivos e portanto, não estaria a sua disposição para adulteração.

Falando da importância dessa citação Yamouchi atesta:

“Trata-se de um depoimento importante da parte de uma testemunha que não simpatiza com o sucesso e com a difusão do cristianismo, baseado em uma personagem histórica, Jesus, cruficicado por ordem de Pôncio Pilatos” – (STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo,  Vida, 1998, 108)

5. Suetônio (69-122dC)

Gaio Suetônio Tranquilo foi um historiador romano que também deve ser lembrado na pesquisa sobre a historicidade de Cristo. Gary Habermas em seu livro The Historical Jesus, afirma que “pouco se sabe sobre ele, exceto que ele era o secretário chefe do Imperador Adriano (117-138 dC) e que tinha acesso aos registros imperiais” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.190).

Um dado interessante sobre Suetônio é que ele desenvolveu uma amizade com Plínio o Jovem, que o descreve como um homem “quieto e estudioso, um homem dedicado a seus estudos”. Provavelmente em função desse relacionamento, que Suetônio recebeu favor de Trajano, de quem recebeu uma propriedade na Itália, e de Adriano, a quem serviu como secretário chefe.

Suetônio ocupa um lugar importante na história dos historiadores em função de suas biografias sobre doze Imperadores Romanos, de Júlio César a Domiciano, obra denominada De Vita Caesarum, escrito provavelmente durante o período de Adriano. Nessa mesma obra encontramos ao menos duas citações que nos interessam:

“Como os judeus, por instigação de Chrestus, estivessem constantemente provocando distúrbios, ele [Claudio] os expulsou de Roma” – (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106)

Nessa citação encontramos a expressão “Chrestus”, o que MacDowell notifica como uma “outra forma de escrever Christus”, a versão latina do nome grego para Cristo, do mesmo modo que quase todos os comentaristas dessa expressão (cf. Habermas, Voorst, Geisler). Essa explicação é provavelmente proveniente do trabalho de Paulus Osorius em History against pagans 7.6, que apresenta uma variante textual para o mesmo trecho, substituindo o termo “Chrestus” por “Christus”. Entretanto, Voorst nos lembra que a leitura mais difícil, que nesse caso é aquela primeiramente apresentada, é provavelmente a verdadeira (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.30).

A autenticidade da citação é plausível, se realmente faz referência a Cristo, em função de dois detalhes importantes: (1) Dificilmente um cristão não colocaria Cristo em Roma por volta do ano 49; e (2) certamente não ousaria chama-lo de causador de distúrbios. Também é importante notar que a fonte de Suetônio não é um cristão, pois seria difícil pensar que um cristão soletrasse equivocadamente o nome do seu Salvador.

Entretanto, a pergunta é mais importante é: Suetônio realmente fala de Cristo? A pergunta nasce no reconhecimento que o nome usado por Suetônio também era conhecido como um nome greco-romano, além do fato que parece estranho que Cristo estivesse em Roma, por volta do ano 49 dC. Entretanto, a maioria dos historicistas parece concordar que nessa citação encontra-se uma referência a Cristo, como o próprio ateu Andrew Norman Wilson atestou: “Apenas o mais perversos dos acadêmicos duvidaria que Chrestus é Cristo” (WILSON, A.N, Paul: The mind of the Apostle, Norton, 1997, pp.104; IN: VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.32). Contudo, essa convicção de Wilson tem fundamento? Acreditamos que sim.

Primeiro, a sentença latina que de onde se traduz essa frase é significativa: “Iudaeos (Os judeus) impulsore (instigação) Chresto assidue (sobre) tumultuantis (causam distúrbios) Roma expulit (foram expulsos)”. O termo latino “impulsore” não deve ser traduzido como instigação, como vemos na tradução de MacDowell, mas como instigador, em função de sua relação apositiva com o substantivo Chresto com o qual concorda em gênero, número e caso. Portanto, a descrição não parece se referir a uma pessoa em si, mas a um título, que provavelmente Suetônio teria ouvido sem realmente conhecer Outro detalhe que merece nossa atenção é que a grafia aqui é muito parecida com a de Tácito, outro escritor latino.

Segundo, não era incomum que o nome tanto dos cristãos como de Cristo fosse escrito de maneira equivocada no segundo século. Quem nos informa isso é Tertuliano quando discursa sobre o ódio contra os cristãos, que chega a ser considerado um nome criminoso. Feita essa declaração, Tertuliano afiram:

“Mas, cristãos, até onde se refere ao significado do termo, é derivado do ungido. Isso mesmo, e mesmo quando é erroneamente pronunciado por você como ‘Chrestianus’ (por que você nem mesmo sabe exatamente o nome que odeia), ele vem cheio de ternura e bondade. Portanto, você odeia inocentes, com um nome sem culpa” (Tertuliano, Apology, Cap. III; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 3, pp.20).

Considerando que era historicamente comum entre os falantes de latim que se confundisse a pronúncia do nome dos cristãos, não é estranho pensar que o mesmo equívoco tenha sido cometido por Suetônio. Entretanto, Tertuliano não é o único a lembra esse fato, Lactantius também afirma:

“Mas, apesar de Seu nome, que o supremo Pai deu a Ele desde o princípio, não seja conhecido senão por Ele mesmo, ainda assim ele tem um nome entre os anjos e outro entre os homens, desde que é chamado de Jesus. Mas, Cristo não é um nome próprio, mas um título de Seu poder e domínio; pois assim é que os judeus estavam acostumados a chamar seus reis. Mas o significado desse nome deve ser declarado, em função do erro de ignorantes, que ao mudar uma letra, estão acostumados a chama-lo de Chrestus” (Lactantius, The Divine Institutes, Cap. VIII; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 7, pp.106).

Portanto, fica evidente que o equívoco encontrado em Suetônio não era incomum e incomodava os cristãos primitivos.

Terceiro, embora o nome Chrestus pudesse ser comum na cultura greco-romana, não é encontrada entre os judeus em Roma naquele período, de acordo com o que se conhece das inscrições das catacumbas e outros documentos. Sobre isso, D. Noy atesta que essa ausência é baseada no fato de que tal nome era aplicado normalmente a escravos, o que teria causado certa repulsa nos judeus (NOY, D, Jewish Inscriptions of Western Europe, Vol.2 The City of Rome, Cambridge University Press, 1995).

Por fim, devemos considera ainda uma questão: Se Suetônio se refere a Cristo, não seria estranho pensar que Cristo estivesse pessoalmente em Roma, incitando uma rebelião contra Roma? A resposta a essa pergunta é na verdade não. Se a referência é realmente feita a Cristo, como um título e não como uma pessoa, não era necessário que Ele estivesse por lá, além do mais, essa declaração pode corroborar a declaração de Lucas de que “Claudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma” (At.18.2). Sobre isso, Geisler atesta:

“Suetônio ao escrever muitos anos mais tarde, não estava na posição de saber se os tumultos eram provocados por Chrestus ou pelos judeus contra seus seguidores. De qualquer forma, Cláudio ficou aborrecido o suficiente para expulsar todos os judeus da cidade (inclusive os companheiros de Paulo, Áquila e Priscila) em 49” (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.449).

Já a segunda declaração de Suetônio é menos controversa: “Nero infligiu castigo aos cristãos, um grupo de pessoas dadas a uma superstição nova e maléfica” (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106). É provável que essa nova superstição maléfica seja a pregação primitiva a respeito da ressurreição de Cristo.

E o que aprendemos com Suetônio a respeito da historicidade de Cristo? Primeiro, ele relaciona a expulsão dos judeus de Roma, e que também atesta de que Cristo é que incitou os judeus a causar distúrbios em Roma, além de concordar com Tácito com relação ao conceito que a fé cristã tinha em face aos romanos e além do uso normal do termo cristão para se referir a essa fé.

6. Plínio, o jovem (61-114dC)

Gaio Cecílio era filho de Lúcio Cecílio Cilo e  nasceu em Novum Comum por volta do ano 61 dC. Sua mãe, Plínia Marcella era irmã de escritor e famoso enciclopedista Plínio, o Velho, a quem e Gaio a tal ponto admirava que sobre ele escreveu no livro conhecido como Naturalis Historia. Como seu pai morreu quando era jovem, Gaio possivelmente tenha vivido boa parte de sua infância e juventude com sua mãe.

A princípio fora educado em casa, mas posteriormente foi a Roma onde dedicou-se à retorica. Nesse período, aproximou-se de seu tio Plínio, que veio a falecer em função da erupção do vulcão Vesúvio.  Com isso, descobriu que seu tio havia deixado suas posses com ele e que teria sido adotado pelo mesmo, o que fez com que mudasse seu nome para Gaio Plínio Cecílio Segundo, nome que deu origem à referência histórica que normalmente se atribui a ele: Plínio o Jovem.

Plínio é reconhecido como governador da Bitínia, na Ásia Menor (112 dC) no período do Imperador Trajano, embora tenha sido senador e proeminente advogado em Roma (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.23). Sua fama foi assegurada por sua relação com o Imperador Trajano, a quem escreveu diversas cartas, das quais muitas sobrevivem até os dias de hoje. Sua escrita, muito precisa e elogiável, fez com que, segundo Voorst, Plínio carregasse a fama de ter inventado o estilo literário da carta. Habermas, por sua vez, cita F.F. Bruce o apresenta como “o maior escritor de cartas do mundo” e que suas cartas “ganharam o status de literatura clássica” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.198).

Dos dez livros de cartas que se conhecem de Plínio, é apenas no décimo livro, mais precisamente na carta 96 é que encontramos algo sobre o cristianismo primitivo e Cristo. Como supõe-se que essas cartas tenha sido organizadas cronologicamente, essa declaração é normalmente definida por volta de 112 dC.

Nessa carta ele fala sobre o rápido crescimento do Cristianismo na província da Bitínia, seja nas regiões urbanas ou rurais. Ele descreve a situação com templos romanos (pagãos) abandonados de tal forma que o “negócio daqueles que vendiam forragens para os animais sacrificiais fora afetado” (BARNETT, Paul, Finding the historical Jesus, Eedermans, 2009, pp.60). Ele também afirma ter interrogado aqueles que haviam sido acusado de serem cristãos e sentenciados a morte por isso, para verificar se insistiam em sua afirmação de serem de fato cristãos, como ele mesmo afirma, observe:

“Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma” – (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.426)

Plínio também fala de pessoas que haviam sido acusadas de serem cristãs, mas que assumiam que na verdade não eram, e a prova era adorar a imagem do Imperador bem como os deuses imperiais. Também exigia que esses acusados amaldiçoassem a Cristo, coisa que um cristão genuíno não seria capaz de fazer. Sobre esses “supostos” cristãos, Plínio atesta:

“Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427)

Plínio também fala sobre sobre duas escravas que eram consideradas “ministras”, nas quais não encontrou “nada além de uma superstição irracional e sem medida”. E em função disso suspendeu o inquérito pois precisava de um parecer específico de Trajano, como ele mesmo confessa:

“O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427-8)

Nas colocações de Plínio sobre o cristianismo primitivo em termos muito parecidos com os encontrados nos escritos de Tácito e Suetônio: para ele o cristianismo também era uma “superstição” “contagiante” que tinha condições de corromper o proceder romano. A autenticidade das cartas de Plínio não são contestadas, e portanto nelas encontramos mais um relato histórico sobre a historicidade de Cristo, e sobre ela Habermas conclui:

“(1) Cristo era adorado como Deus pelos antigos cristãos; (2) Plínio se refere posteriormente em sua cara que os ensinos de Cristo e seus seguidores eram excessivamente supersticiosos e contagiosos, como termo reminiscência de ambos, Tácito e Suetônio; (3) Os ensinos éticos de Cristo eram refletidos nos juramentos dos cristãos jamais seriam culpados pelos pecados mencionados nessa carta; (4) Provavelmente encontramos uma referência a instituição de Cristo da comunhão cristã celebrada na festa do amor, nas declarações de Plínio sobre a reunião deles para compartilhar comida. A referência aqui alude a acusação por parte dos não cristãos que os cristãos eram suspeitos de um ritual assassino e beber o sangue durante esses encontros, o que confirma nosso ponto de vista que a comunhão é o assunto a que Plínio se refere; (5) Há também uma possível referência ao Domingo na declaração de Plínio que os cristãos se encontravam em um dia específico” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.199-200)

7. Luciano de Samosata (120 – 180dC)

Luciano de Samosata foi um escrito sírio que escrevia em grego ático e em suas obras aproveita para tratar com escárnios e sátiras o cristianismo e o seu fundador, Jesus Cristo. Poucos detalhes da sua vida são facilmente verificáveis, inclusive, suas próprias palavras em relação a si mesmo são aparentemente controversas: Ele se denomina sírio, assírio e bárbaro, o que Keith Sidwell entende com uma evidência de que Luciano seria um daqueles moradores de Samosata provenientes da população genuinamente síria, e não grega (SIDWELL, Keith, Introduction to Lucian, Penguin Classics, 2005 p.xii).

Em uma obra intitulada The Death of Peregrinus, na qual trata de satirizar a vida de Peregrinus Proteus, Luciano apresenta uma informação interessante a respeito de Cristo e dos cristãos:

“Os cristãos, como sabes, adoram um homem até hoje – o personagem distinto que introduziu seus rituais insólitos e foi crucificado por isso (…) Essas criaturas mal orientadas começam com a convicção geral de que são imortais o que explica o desdém pela morte e a devoção voluntária que são tão comuns entre ele; e ainda foi incutido neles pelo seu legislador original que são todos irmãos, desde o momento que se convertem, e vivem segundo as suas leis. Tudo isso adotam como fé, e como resultado desprezam todos os bens mundanos considerando-os simplesmente como propriedade comum” (Death of Pelegrine 11-3; IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.450)

Robert Voorst atesta que nessa sentença não existem dúvidas de autenticidade e é consistente com o que se conhece de Luciano (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.60), o que já nos induz a considerar as implicações dessa citação. Nesse caso, mais uma vez seguimos Habermas:

“(1) Somos informados de que Jesus era adorado pelos cristãos; (2) Também nos informa que Jesus iniciou novos ensinos na Palestina (sendo que o local é oferecido em outra parte não mencionada da seção II); (3) que Ele foi crucificado por causa dos seus ensinamentos. Jesus ensinou seus seguidores certas doutrinas, como (4) que os cristãos são irmãos; (5) a partir do momento da conversão e (6) depois que os falsos deuses são negados (tais quais os da Grécia). Adicionalmente, esses ensinos incluíam (7) adorar a Jesus e (8) viver de acordo com suas leis; (9) Luciano também se refere a Jesus como sábio” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.206-7)

8. Celso (~178 dC)

Celso foi um filósofo grego neoplatonista opositor do Cristianismo do segundo século que escreveu seu principal ataque pouco depois de Luciano ter escrito The death of Pelegrinus. O seu trabalho ficou conhecido como o primeiro escrito, dentre os que conhecemos hoje, que ataca o cristianismo: The True Word. Sua principal tese é demonstrar que Jesus Cristo não era de Deus, mas em nenhum momento Celso atacou a historicidade de Cristo.

Seu trabalho foi preservado pelo trabalho de Orígenes o teólogo alexandrino que dedicou-se à exaustão a responder as indagações de Celso, o anti-cristão. O livro é chamado Contra Celsum e é a única referência que temos sobre sua pessoa, e além disso quase nada sabe-se sobre sua vida pessoal. O que se infere de sua obra é que Celso era bem informado sobre o cristianismo do segundo século que florescia em Alexandria e Roma, que era interessado em antigas religiões do Egito e parecia familiar com a doutrina judaica do Logos, o que sugere que sua obra tenha sido escrito em Alexandria.

Antes de aprofundarmos nas declarações de Celso, que são numerosas e variadas, é importante que apresentar dois fatos relacionados a esse personagem:

  1. Em quase todos os casos apresentados até aqui os críticos apresentem ocasiões em que sugerem uma interpolação cristão tardia, isso não acontece (nem poderia) acontecer com as afirmações de Celso. O nível de ataque e de hostilidade para com Cristo e os cristãos impossibilita que se trate de um material adulterado por um cristão.
  2. Outra situação que parece recorrente é a ideia de que autores antigos tenham cristãos como fontes, mas esse não é o caso com Celso também, até por que seu escrito supõe um diálogo com um judeu crítico, o que nos sugere que suas fontes não seriam cristãos, mas possivelmente judaicas.

Vale a pena lembrar que o texto de Celso foi preservado em Orígenes um autor cristão, e parece absurdo supor que Orígenes tenha se dado ao trabalho de adulterar o livro que pretende responder. Robert Voorst, de modo geral, apresenta o modo como Celso apresenta a Jesus Cristo no seu livro do seguinte modo:

“Celso monta um amplo ataque a Jesus como o fundado da fé. Ele ignora ou melhor, denigre os ancestrais de Cristo, sua concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressurreição e sua influência continuada. De acordo com Celso, os ancestrais de Jesus vinham de uma vila judaica (Against Celsos, 1.28), e sua mãe era uma pobre menina do campo que ganhava a vida como costureira (1.28). Ele realizou seus milagres por magia (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Ele era fisicamente feio e pequeno (6.75). Até onde tinha conhecimento, Jesus guardava todos os costumes judaicos, incluindo o sacrifício no tempo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e os ensinou seus terríveis hábitos, incluindo mendigar e roubar (1.62; 2.44). Esses seguidores, formados por dez marinheiros e coletores de impostos, foram os únicos que ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convenceram multidões (2.46). A notícia de sua ressurreição veio de uma mulher histérica, e a crença na ressurreição de Cristo proveio da magia de Jesus, do pensamento positivo dos seus seguidores, ou alucinação em massa, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar a chance de que outros se tornem pedintes (2.55)” (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: na introduction to the anciente evidence, Eedermnans, 2000, pp.66)

O resumo apresentado por Voorst provém de diversas citações diretas de Celso preservadas por Orígenes, e como pode notar-se, parece tolo que alguém se dedicasse tanto para provar a tolice do ensino de outrem se este mesmo não existisse. Como nossa intenção não é reescrever uma crítica às proposições de Celso, mas de apresentar a historicidade de Cristo atestada por seu criticismo, vamos apenas citar algumas de suas acusações.

Sobre o nascimento, vida e milagres de Cristo:

“Ele [Celso] o [Jesus] acusa de ‘inventar seu nascimento de uma virgem’ e o censura como sendo ‘nascido em uma determinada vila judaica, de uma mulher pobre de seu país, que ganhava a vida como costureira, e que foi expulsa de casa por seu marido, um carpinteiro por profissão, por que ela fora condenada por adultério; após ter sido expulsa por seu marido, e vagueando por uns tempos, ela desgraçadamente deu a luz a Jesus, um filho ilegítimo, que fora empregado como serviçal no Egito em função de sua pobreza, e tendo aí adquirido alguns poderes mágicos, nos quais os egípcios tanto se orgulham, e [então] retornou ao seu país, sendo exaltado por conta deles, e por meio deles se proclamou como um deus” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.408)

O retrato que Celso apresenta de Cristo está longe de ser fictício, opção que ele poderia apresentar, entretanto, o que ele faz é apresentar sua versão sobre a situação do nascimento de Cristo por rejeição do conceito do nascimento virginal. A proposta alternativa para o nascimento de Cristo, como um caso extraconjugal de Maria, parece-se muito com um relato já conhecido no Talmud Judeu, como veremos a frente. Essa indicação favorece a ideia de que não apenas suas fontes eram não cristãs, como sua preferência para explicar aquilo que odiava era cínica, crítica e desprezível, do ponto de vista da história do evangelho. Entretanto, isso prova a existência de Cristo como figura histórica e não mitológica.

Sobre a encarnação de Cristo:

“’E mais uma vez’ diz ele [Celso] ‘vamos retomar o assunto desde o início, com uma gama maior de provas. Eu não faço nenhuma afirmação nova, mas digo o que já está definido a muito tempo. Deus é bom, belo, abençoado, e isso no melhor e mais belo patamar. Mas, sele desceu entre os homens, ele deve ter sofrido uma mudança, e uma mudança de bom para o mal, de virtude para o vício, da felicidade para à miséria, de melhor para pior. Quem, então, faria a escolha de tal mudança? É da natureza mortal, de fato, sofrer alteração e transformação, mas a natureza de um imortal permanece a mesma, inalterada. Deus, não pode admitir uma mudança como essa” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.502)

Celso manifesta um conhecimento, ainda que elementar da doutrina cristã da encarnação, e apresenta, o que na sua visão, é um absurdo. A ideia de ocorrer mudança em Deus é tão deplorável para ele que parece impossível acontecer. De fato, não é isso que se defende na encarnação de Cristo, mas a pergunta que ele levanta merece nossa atenção: “Quem, então, faria a escolha de tal mudança?”.

De fato, o que se propunha a Cristo na encarnação não era a mudança em si, mas as implicações de abrir mão de seu estado de Graça e exaltação com o Pai, bem como do uso irrestrito de seus infinitos recursos e atributos, e ser encontrado na figura de um ser humano servo para sofrer em sua morte sacrificial, tornando-se pecado pelos pecados de cada indivíduo de todas as épocas e lugares. Quem faria isso? Somente um Deus amoroso e preocupado com sua criação faria isso, e Jesus Cristo o fez.

Sobre Cristo e seus discípulos:

“Jesus reuniu próximo a si mesmo dez ou onze pessoas de caráter notório, o mais doentio dos cobradores de impostos, marinheiros, e com eles fugiu de lugar em lugar, e obteve sua sobrevivência de um modo vergonhoso e inoportuno” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)

Nessa declaração, Celso confirma o fato de que Cristo investiu no discipulado de cerca de onze homens, e também é assertivo no que se refere a profissão que eles tinham. O desdém com que ele apresenta esse fato sugere que ele realmente acreditava no que conhecia sobre Cristo e os cristãos. É interessante que ao fazer isso, torna-se um testemunho antigo a respeito de afirmações que as escrituras fazem sobre Jesus Cristo. Em outra citação, ele faz outras declarações sobre Cristo e seus discípulos, que também confirmam detalhes interessantes apresentados pelas escrituras, observe:

“[Ele foi] abandonado e entregue por esses mesmo com quem tinha se associado, que o tinham como professor, e que acreditavam que ele era o salvador, o filho do Altíssimo Deus (…) Esses com quem se associou enquanto estava vivo, que ouviram sua voz, que apreciaram suas instruções como seus professor, ao o verem sujeito a punição e morte, nem mesmo morreram por ele (…) mas negaram que foram seus discípulos” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)

Mais uma vez Celso demonstra seu criticismo contra a figura de Cristo como alguém digno de respeito, afinal os únicos homens que o seguiam e acreditavam em seu ensino são os mesmos que o entregam a morte e o abandonam nesse sofrimento. Ele também critica a postura dos cristãos que são martirizados por Cristo, coisa que seus primeiros seguidores não foram capazes de fazer quando seu Professor foi punido e morto. Essa declaração, ainda que repleta de cinismo, confirma mais uma vez o fato apresentado pelas escrituras: Cristo foi entregue à morte por um dos seus discípulos, foi abandonado por todos em sua morte, a quem tinha se dedicado como Instrutor e que haviam manifestado apreço por Seu ensino e havia sido considerado como Filho de Deus.

Sobre a morte de Cristo

“Em sua próxima declaração, Celso afirma com indescritível tolice: ‘Se, depois de inventar defesa para o que é absurdo, e por isso deduz ridiculamente, ou melhor, imagina que realmente fez uma boa defesa, o que o inibe a respeito daqueles outros indivíduos que foram condenados, e morreram uma morte miserável, e foram maiores e mais divinos no seu papel de mensageiros dos céus que Jesus?” (Origens, Contra Celsum, 2.44; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.448)

Nessa citação Celso contra argumenta o que os cristãos primitivos falavam sobre Cristo e sua morte como uma boa defesa para a divindade do Filho de Deus, por afirmar que Cristo não foi o único que morreu uma morte miserável e até mesmo considerado um mensageiro dos céus. O ponto de Celso é: Se Cristo não é o único nesses quesitos, o que dizer dos outros que por isso passaram? O questionamento de Celso, por mais anticristão que seja, apresenta detalhes sobre a morte de Cristo, tal como apresentada pelas escrituras: Cristo de fato morreu uma morte miserável. Celso não descreve que tipo de morte seria essa nessa citação, mas ele o afirma pouco à frente:

“Jesus se apresentou após sua morte apenas com a aparência das feridas recebidas na cruz, e na verdade ele não estava tão ferido como ele é descrito como tendo sido” (Origens, Contra Celsum, 2.44; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.448)

Nesta declaração, Celso confirma morte de Jesus por crucificação, embora alegue que as feridas que Jesus recebeu só foram as inflingidas pela crucificação (negando assim qualquer tortura anterior tinha ocorrido). Mas a história ainda não oferece a Celso o benefício da dúvida, afinal as flagelações eram a forma padrão de tortura dado às vítimas antes da
crucificação. Entretanto, é importante dizer que Celso se contradiz novamente mais tarde quando ele afirma Jesus provavelmente não sequer foi crucificado, mas sim um impostor morreu no seu lugar. Mais uma vez, Celso parece ter acesso a versões diferentes sobre a morte de Cristo, provavelmente vindas de fontes judaicas.

Sobre os cristãos:

“Após estes pontos, Celso cita algumas objeções contra os ensinos de Jesus, feita por muito poucos indivíduos que são considerados cristãos, não dos mais inteligentes, como ele supõe, mas da classe mais ignorante, e afirma que ‘são as seguintes as regras estabelecidas por eles. Que ninguém instruído venha a nós, ou que seja prudente ou sábio (por que essas qualificações são consideradas maléficas para nós), mas se há alguém ignorante, ou não inteligente, ou não instruído, ou tolo, que venham com confiança. Com essas palavras, reconhecendo que tais indivíduos são dignas de seu deus, eles mostram claramente que eles desejam e são capazes de sobrepujar os tolos, os medíocres e os estúpidos, com mulheres e crianças’” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.481-2)

Ainda que o ensinamento de Cristo e dos cristãos apareça distorcido aqui, é evidente que Celso estava cercado de pessoas que professavam uma fé que ele mesmo não se agradava e tinha prazer em criticar. É bem provável que a primeira bem-aventurança do sermão da montanha seja a mensagem que possivelmente Celso satiriza. Em uma nota de rodapé, entretanto, o editor do texto de Orígenes nos lembra que não apenas o ensino de Cristo e dos cristãos é satirizado, mas que o cenário cristão também é apresentado de modo propositadamente pejorativo, pois o cristianismo primitivo era formado por pessoas de todas as classes sociais, como vimos em Tácito.

O que podemos dizer sobre as declarações de Celso? Em primeiro lugar, devemos notar o caráter crítico de sua obra e a grande quantidade de cinismo e desprezo com que ele apresenta a Cristo e os cristãos. Em segundo lugar, devemos perceber que ainda que tal criticismo seja ferrenho, ele apresenta alguns detalhes sobre Cristo em conformidade com o que se conhece dele nos evangelhos. Diante disso, entendemos que Celso, com todo seu fervor anti-cristão, ironicamente, tornou-se boa fonte para demonstrar a historicidade de Cristo, afinal, não o imaginamos escrevendo um livro como esse sobre alguém que jamais teria existido.

9. Talmude (70-200dC)

Talmude é a transliteração da palavra hebraica que significa “instrução, aprendizado”, proveniente da raiz do termo que significa “ensinar” ou “aprender”. O Talmude é composto por dois diferentes compêndios: (1) com a produção de citações anteriores ao ano 200dC., e provavelmente posteriores a 70dC., é conhecida como Mishná; (2) com a produção possivelmente posterior ao ano 500dC, que é conhecida como Gemará, que nada mais é do que o comentário à Mishná.

Segundo Habermas, a Mishná é resultado de uma tradição oral judaica transmitida de geração a geração e que foi “organizado por temas pelo Rabi Akiba antes de sua morte em 135 dC. Seu trabalho foi revisado pelo Rabi Meier. O projeto ficou pronto por volta de 200 dC pelo Rabi Judá” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.202).  Sobre a produção do Talmud, F.F. Bruce, com mais detalhes, afirma:

“O vultoso corpo de casuística legal, ‘a tradição dos anciãos’ referida no Novo Testamento, havia sido legado oralmente de geração a geração, avolumando-se mais e mais com o correr dos anos. O primeiro passo no sentido da codificação de todo esse material foi dado agora [pouco após a queda de Jerusalém]. O segundo deu-o o grande Rabino Akiba, o primeiro a sistematiza-lo consoante com os assuntos. Após a morte heroic de Akiba, por ocasião do fracasso da revolta de Bar Cocbá contra Roma, em 135 dC, procedeu a revisão e lhe continou a obra seu siscípulo, Rabino Meier. A obra de codificação chegou ao termo final por volta do ano 200, mercê do Rabino Judá, presidente do sinédrio de 170 a 217, Esse código completo de jurisprudência religiosa assim compilado é conhecido pelo designativo de Mishná” (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento. Vida Nova, 1965, pp.131)

Em função do caráter da Mishná, um compêndio jurídico judaico feito por fariseus, não é de se esperar que muitas citações fossem feitas a Jesus ou a seus seguidores, afinal, esse não é o tipo de literatura para apresentação de histórias. Entretanto, em pouquíssimas citações que se faz, ou a Cristo ou aos cristãos, encontramos comentários hostis, porém, servem para atestar a historicidade de Cristo. Na Mishná, na 43ª seção do Sanhedrin, encontramos a seguinte declaração a respeito de Jesus Cristo:

“Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu e antes disso, durante quarenta dias o arauto proclamou que [ele] seria apedrejado ‘por prática de magia e por enganar a Israel e fazê-lo desviar-se. Quem quer que saiba algo em sua defesa venha e interceda por ele’. Mas ninguém veio em sua defesa e eles o penduraram na véspera da páscoa” (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, VIDA, 2001, pp.450)

A primeira pergunta que deveríamos fazer é quem é Yeshu? Seria ele uma referência a Jesus Cristo? Na versão judaica de Jacob Shachter, H. Freedman debaixo da supervisão do Rabi I. Epstein, logo na introdução encontramos uma declaração interessante sobre o papel desse documento histórico para os cristãos:

“Aos olhos dos estudantes cristãos, o Sanhedrin sempre ocupou um lugar de predileção entre os tratados do Talmude em função da luz que ele é capaz de apresentar sobre o julgamento de Jesus de Nazaré. Não é sem significância que quando Reuchlin, o cristão campeão do aprendizado judaico, procurou em toda a Europa para encontrar uma cópia do Talmude, o único tesouro que conseguiu encontrar foi o Sanhedrin” (SHACHTER, Jacob, FREEDMAN, H., EPSTEIN, I., Sanhedrin, Translated into english with notes, glossary and índices, pp.xii)

Segundo os tradutores e editores desse material para o inglês, não parece haver dúvidas de que Yeshu apresentado no Sanhedrin é de fato Jesus Cristo, fato que não ousam discordar ou apresentar dúvidas sobre a referência que se faz a ele. Outra declaração, vinda do mesmo material, é sobre um interessante problema textual na declaração do Sanhedrin: esse problema textual segue exatamente o nome Yeshu, que segundo os autores, vários manuscritos acrescentam a expressão de Nazaré (SHACHTER, Jacob, FREEDMAN, H., EPSTEIN, I., Sanhedrin, Translated into english with notes, glossary and índices, pp.281-2).

Agora, somadas todas as declarações do Sanhedrin, sobre um Yeshu conhecido como sendo de Nazaré que teria sido pendurado na véspera da páscoa, em uma declaração proveniente de um período muito próximo à morte de Cristo, nos faz pensar que tal declaração deve ser a respeito de Cristo. Se isso não pode ser inferido, teríamos que considerar que em um período muito próximo de Jesus, outro Jesus teria sido pendurado e morto na véspera da Páscoa, o que pareceria uma coincidência assustadoramente impressionante.

Sobre o Talmud e sua alusão à figura histórica de Jesus Cristo, Wilcox afirma:

“A literatura tradicional judaica, embora mencione Jesus só muito raramente (e, seja como for, tem de ser usada com muita cautela), respalda a alegação do evangelho de que ele curava e fazia milagres, embora atribua tais atividades à magia. Além disso, ela preserva a lembrança de Jesus como professor, diz que ele tinha discípulos (cinco) e que, ao menos no período rabínico primitivo, nem todos os sábios haviam concluído que ele era ‘herege’ou ‘enganador’.” (WILCOX, M., Jesus in the light of his Jewish environment, n25.1, 1982, pp.133; IN: STROBEL, Lee, Em Defesa de Cristo, pp.112)

10. O que se pode concluir dessas evidências?

Muitas evidências foram apresentadas acima, e embora todas elas possam conter algum elemento de discussão, dos mais simples aos mais complexos, é evidente que não se pode desconsiderá-las todas ao mesmo tempo. Isso sugere que a existência de Cristo não é assunto da mitologia filosófica, ou até mesmo, um capricho religiosos: É possível afirmar com toda clareza que Jesus Cristo é uma figura histórica. Essa conclusão a partir dessas evidências, entretanto, não significa que Jesus é quem afirma ser, mas que é impossível descarta-lo com figura histórica.

Nessa seção, evitamos propositalmente usar a evidência bíblica para demonstrar a existência de Jesus, porque isso seria, aos olhos de céticos, “usar a Bíblia para provar a Bíblia“. Como estamos respondendo a pessoas que descartam as escrituras como relato histórico, as fontes não cristãs oferecem a estes um motivo claro para que estes repensem suas conclusões sobre a inexistência de Cristo, como a Enciclopédia Britânica mesmo atesta:

“Esses relatos seculares independentes comprovam que nos tempos antigos até mesmo os adversários do Cristianismo jamais duvidaram da historicidade de Jesus, a qual, pela primeira vez e em bases inadequadas, veio a ser questionada por vários autores do fim do século dezoito, do século dezenove e do início do século vinte” – (ENCYCLOPADEIA Britannica, 15, ed 1974; IN: MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.110)

Mas, o que podemos dizer sobre as recorrentes acusações da inexistência de Cristo, especialmente encontradas na Internet? Ao invés de incitarmos uma nova argumentação aqui, apresentamos alguns acadêmicos e suas opiniões:

Michael Grant, Jesus: An Historian`s Review of the Gospels (Historiador ateu responsável pela tradução para o inglês do livro Anais de Tácito, em 1956):

“Esse modo cético de pensar [sobre a rejeição a Cristo] alcançou seu cume na argumentação de que Jesus como um humano jamais teria existido e no fim das contas é apenas um mito (…) Mas antes de tudo, se aplicarmos ao Novo Testamento, como deveríamos, o mesmo critério que aplicamos a outras obras antigas contendo material histórico, não poderemos mais rejeitar a existência de Cristo, do mesmo modo que não rejeitaremos a existência de uma grande quantidade de personagens pagãos, mesmo aqueles cuja figura histórica nunca foi questionada (…) Para resumir, o método moderno de crítica falha ao suportar a teoria de Jesus Cristo como mito (…) Nos últimos anos, nenhum acadêmico sério se aventurou a postular a não historicidade de Jesus, ou alguns poucos o fizeram, e eles não tiveram sucesso ao dispor de evidências muito fortes e abundantes do contrário” – (Macmillian Pub, 1977, pp.200-1)

Graham Stanton, The Gospels and Jesus (Professor de Novo Testamento na Universidade de Cambridge):

Hoje, quase todos os historiadores, sejam cristãos ou não, aceitam que Jesus existiu e que os evangelhos contém várias evidências confiáveis que precisam ser pesadas e avaliadas criticamente. Existe o consenso que, com a possível exceção de Paulo, nós conhecemos mais sobre Jesus de Nazaré do que qualquer outra figura judaica, ou professor pagão do primeiro ou segundo século” – (Oxford University Press, 2002, pp.139)

Bart Ehrman, A verdade e ficção em o Código DaVince (Agnóstico anti-cristão, Professor de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo em Chapel Hill):

“As mais antigas e melhores fontes de que dispomos para tomar conhecimento dos fatos da vida de Jesus (…) são os quatro evangelho do Novo Testamento, legados por Mateus, Marcos, Lucas e João. Não se trata apenas de um ponto de vista de historiadores cristãos que tem em alta conta o Novo Testamento e seu valor histórico; é o pondo de vista de todos os historiadores sérios da Antiguidade, dos cristãos evangélicos aos ateus mais empedernidos” – (Record, 2005, pp.139)

I. Howard Marshal, I Believe in Historical Jesus (Professor Emérito de Exegese do Novo Testamento da Universidade de Aberdeen, Escócia):

“Os historiadores não levarão a sério essa declaração desde que não são oferecidas nenhuma evidência para suportá-la, e a mera declaração não pode sobreviver contra uma investigação histórica (…) Antigas apresentações de visões similares na virada do século falharam em criar a impressão sobre a opinião acadêmica, e também é certo que as mais recentes apresentações desse caso não farão nada melhor” – (Cambridge, 2004, pp.15-6)

Norman Geisler, Eu não tenho fé suficiente para ser Ateu:

“Quantas fontes não cristãs fazem menção de Jesus? Incluindo Josefo, existem dez outros escritores não cristãos conhecidos que mencionam Jesus num período de até 150 anos depois de sua morte (Josefo, Tácito, Plínio, Flegão, Talo, Suetônio, Luciano, Celso, Mara bar-Serapião e o Talmude). Por outro lado, existem nove fontes não cristãs que mencionam Tibério César, o imperador romano nos tempos de Jesus. Assim, descontando todas as fontes cristãs, em relação ao imperador, existe uma fonte a mais que menciona Jesus. (…) À luz dessas referências não cristãs, a teoria de que Jesus nunca existiu é claramente injustificável” – (Vida, 2006, pp.228-9)

Robert Van Voorst,Jesus outside the New Testament:

Os acadêmicos contemporâneos especializados em Novo Testamento tem tipicamente observado os argumentos deles [aqueles que negam a existência de Cristo] como muito fracos ou bizarros que os relegam a notas de rodapé, ou frequentemente os ignoram completamente (…) A teoria da não existência de Cristo é atualmente efetivamente morta como uma questão acadêmica” – (Eedermnans, 2000)

B. Fontes Cristãs

Após observar brevemente as declarações de não cristãos sobre a historicidade de Cristo, devemos atentar para o fato d que não são apenas essas fontes que atestam sua historicidade, também encontramos fora das Escrituras, declarações de cristãos que favorecem a existência pessoal de Jesus Cristo.

Por isso, nessa seção, iremos observar o que outros cristãos antigos falaram a respeito de Jesus Cristo e considerar o que podemos conhecer dele a partir dessas fontes. Evidentemente, grande parte do material coletado fará explícitas declarações de caráter religioso, especialmente do ponto de vista dos céticos. Entretanto, essas declarações nos auxiliam a compreender fatos históricos sobre a propagação da mensagem e pessoa de Cristo. Por isso, nossa análise dará mais atenção à citações de eventos históricos em si, e não tanto a mensagem apresentada por eles, afinal, nosso tópico é demonstrar a existência de Cristo, e não aspectos específicos da teologia cristã na voz dos antigos cristãos.

Também nos dedicaremos a apresentar uma breve defesa da confiabilidade dos relatos do Novo Testamento como evidência de que as escrituras não devem ser retiradas da nossa aproximação sobre a figura histórica de Jesus Cristo, como muitos dos historiadores acima já demonstraram. Tendo feito isso, abrimos as portas para a investigação da pessoa de Cristo tal como apresentada pelas escrituras, tal como faremos no próximo capítulo. Todas as citações dos pais apostólicos usados aqui provém da obra que Alexander Roberts e James Donaldson organizam sobre os Pais da Igreja antes de Nicéia (Ante-Nicene Fathers).

1. Clemente de Roma (96dC)

O primeiro Pai Apostólico a ser observado é Clemente, considerado pela Igreja Católica como o primeiro dos sucessores de Pedro (The Catholic Enciclopedia). É também conhecido pela história da igreja por ter sido discípulo de Pedro e por ter escrito uma grande carta a igreja em Corinto, conhecida como a Primeira Epístola de Clemente. Acadêmicos da área do Novo Testamento e Cristianismo Primitivo, em geral, entendem que essa é a única carta genuinamente de Clemente, e que as outras cartas mencionadas em seu nome são na verdade falsificações.

Considerando esse fato, em nossa análise nos atemos à Primeira Carta de Clemente à igreja de Corinto, que é considerado o mais antigo documento cristão fora do Novo Testamento tendo sido escrita próximo ao livro canônico de João, o Apocalipse (por volta de 96dC).

Entretanto, antes de iniciar nossa análise a essa carta, é importante ressaltar que ela não foi escrita para comprovar a existência de Cristo, mas na verdade, como todo documento cristão, o ponto de partida é a existência física e pessoal de Cristo. É importante reconhecer isso antes de qualquer análise em função do tipo de informação que encontraremos nos documentos cristãos fora do Novo Testamento são claramente marcadas pelo kerigma cristão antigo, ou seja, o ponto de vista difere radicalmente dos exemplo anteriormente apresentados.

As declarações de Clemente são diretas e sua visão de Cristo é altamente marcada pela mensagem do Novo Testamento, por isso não é incomum que ele faça referências a Cristo como Cristo (36x) e Senhor (21x), observe algumas dessas citações:

“A igreja de Deus que se reúne em Roma para a igreja de Deus em Corinto, aos que são chamados e santificados pela vontade de Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo: Graça e paz a vocês do altíssimo Deus por meio de Cristo” – (I Clemente 1.1)

“Vamos olhar fixamente para o sangue de Cristo, e ver como que o sangue é precioso para Deus, sangue que foi derramado para nossa salvação, e estabeleceu a graça do arrependimento diante do mundo inteiro” (1 Clemente 7.4)

“Todos estes o grande Criador e Senhor de todas nomeou a existir em paz e harmonia, enquanto ele faz bem a todos, mas o mais abundante para nós, que fugiram para o refúgio para as suas misericórdias, através de Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem seja glória e majestade para sempre e sempre. Amém” (1 Clemente 20.11-12)

A visão de Clemente inclui não apenas o Senhorio de Cristo e sua visão como Messias prometido. Também é claro o papel mediador e salvador de Cristo. Um dos textos que deixa isso evidente é 1Clemente 49.6:

“Em amor o Senhor deu a si mesmo por nós. Por conta do amor que ele nos deu à luz, Jesus Cristo nosso Senhor deu seu sangue por nós pela vontade de Deus; Sua carne por nossa carne; Sua alma por nossas almas” (1 Clemente 49.6)

Outro texto que merece nossa atenção é a declaração histórica da pregação do evangelho, observe:

“Os apóstolos pregaram o evangelho a nós da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo o fez da parte de Deus. Por isso, Jesus Cristo foi enviado por Deus, e os apóstolos por Cristo. Ambas as designações, portanto, foram feitas ordenadamente, de acordo com a vontade de Deus. Tendo recebido suas ordens, e sendo plenamente assegurados pela ressurreição do Nosso Senhor Jesus Cristo, e estabelecidos na palavra de Deus, com toda segurança no Espírito Santo, ele saíram proclamando que o Reino de Deus estava próximo. E assim pregando em países e cidades eles viram os primeiros frutos do seu trabalho, tendo primeiramente os provado pelo espírito, para serem bispos e diáconos daqueles que posteriormente viessem a crer. Mas isso não era nada novo, desde que de fato muitos anos atrás foi escrito em relação aos bispos e diáconos” (1 Clemente 42.1-5)

Segundo Clemente, a mensagem do evangelho pregado pelos apóstolos fora apresentada pelo próprio Cristo e Este, do próprio Deus. Ele também atesta que Jesus Cristo veio de Deus de acordo com a ordenada vontade do Deus Pai e que o Reino de Deus estava próximo, como a mensagem apresentada nos evangelho por Jesus Cristo. Clemente afirma claramente a ressurreição de Cristo baseada no testemunho dos apóstolos que estavam consolidados nas escrituras e resguardados pelo Espírito Santo, e que através da ação apostólica pessoas de diferentes regiões no mundo vieram a crer e pelo ministério dos apóstolos foram designados bispos e diáconos, pensando naqueles que viriam a crer.

Como podemos observar, a clara visão cristão de Clemente já nos coloca em um ambiente mais conhecido e familiar, relembrando muitos dos ensinamentos das escrituras. De modo mais sumário, podemos dizer que a opinião de Clemente sobre Cristo é: Ele é Senhor, o Cristo, prometido pelas escrituras (32.2), foi reconhecido em figura humana (32.2) e um grande professor (13.1; 46.7), que morreu em nosso lugar para nossa libertação (21.6; 49.6) e por isso é nosso salvador (36.1; 58.2), que derramou seu sangue para nos redimir (7.4; 12.7; 21.6; 49.6; 55.1), e ressuscitou verdadeiramente (24.1; 43.3). Ele também é o grande Sumo-Sacerdote (36.1; 61.3; 64.1), defensor dos cristãos (36.1-2), auxiliador (36.1); preservador (38.1; 61.3; 64.1) e responsável pelo chamamento dos cristãos (32.4; 50.7; 59.2), sendo Ele mesmo a origem do evangelho (42.1; 44.1) e o verdadeiro Filho de Deus (59.4).

O testemunho de Clemente nos oferece um claro relato proveniente do Novo Testamento sobre a vida de Cristo, além de apresentar um fato histórico interessantíssimo: Os evangelho e algumas das cartas neotestamentárias já eram conhecidas por Clemente antes do início do segundo século. Norman Geisler apresenta um quadro de obras citadas por Clemente, e essas obras incluem: Evangelho de Mateus, Marcos e Lucas, as cartas paulinas de 1Coríntios, Efésios, 1Timóteo e Tito além das cartas gerais de Hebreus Tiago e 1Pedro (GEISLER, Norman, Eu não tenho fé suficiente para ser ateu. Vida, 2004, pp.242). Com isso, não temos apenas um testemunho antigo de Cristo, mas também do Novo Testamento.

O que se pode concluir das citações de Clemente é que a visão cristã no fim do primeiro século já havia apresentado claras evidências de consolidação. Para os céticos, esse testemunho parece tendencioso demais, entretanto, é tão antigo que sugere que a mensagem sobre Cristo já havia se alastrado de tal modo pelo mundo antigo que não se pode dizer que Jesus não tenha existido como os próprios documentos não cristãos já atestam.

2. Inácio de Antioquia (50-117dC)

Inácio foi Bispo de Antioquia nasceu na Síria por volta do ano 50dC e morreu entre 98 e 117 dC. Também conhecido como Teodóforo, Inácio foi provavelmente amigo pessoal de Policarpo e discípulo pessoal de João, o discípulo amado. Segundo Eusébio de Cesaréia, ele foi o terceiro bispo em Antioquia depois de Pedro e o sucessor imediato de Evódio (Eusébio, História Eclesiástica, II3.22). A data de sua morte é incerta, mas sabe-se que foi condenado à morte ao ser lançado aos leões no Coliseu no período do Imperador Trajano (98-117dC).

O número total de epístolas com o nome de Inácio é quinze, mas elas são de datas e valores muito diferentes. Sete delas, ou seja, aquelas que conhecemos como sendo cartas enviadas a Éfeso, Magnésianos, Tralianos, Romanos, Filadéfia, Esmirna e a Policarpo, sobreviveram em duas versões, uma curta e uma longa. As três últimas cartas mencionadas foram, provavelmente, escritas originalmente em latim.

O caráter de Inácio, tal como verificado em suas próprias cartas sobreviventes, pode ser identificado como um grande servo do Senhor e verdadeiro cristão. A ele é concedida a tripla honra de apóstolo, bispo e mártir por mérito em função de sua extrema dedicação à fé. A Catholic Enciclopedia o define como um “entusiasta devotado ao serviço, com amor apaixonado pelo sacrifício e total destemor na defesa das verdades cristãs” (Catholic Enciclopedia, New Advent: www.newadvent.org).

Em nossas observações vamos nos ater apenas as versões curtas das cartas já citadas e verificar o que podemos aprender com esse cristão fiel do passado sobre Jesus Cristo de uma fonte ainda no primeiro século. Também é importante relembrar a íntima conexão com os apóstolos que esse homem desfrutou, o que sugere que sua visão sobre Jesus Cristo provenha de fontes extremamente confiáveis.

A visão de Inácio, como também vimos em Clemente, já muito mais familiar ao Novo Testamento e suas declarações sobre quem Cristo é de sua perspectiva é perpetrada pelas verdades do Evangelho, muito embora, Inácio use expressões não encontrada nas escrituras para apresentar verdades cristãs em suas cartas. Por exemplo, para Inácio, Jesus é o Cristo a quem se dirige com esse título cerca de 125x nas cartas mencionadas. Esse Cristo é claramente apresentado com um ser humano descendente de Davi (InEf. 20.2; InTr.9.1; InEs.1.1) que com sua vida e modelo estabelece o padrão como novo homem para com Deus (InEf.20.1), um homem perfeito (InEs.4.2).

Em sua humanidade (InEf.7.2; 10.3; InMg.1.2; 13.2; InEs.12.2; ) Cristo é filho de Maria (InEf.7.2), que é descrita com sendo virgem (InEf.19.1; InTr.9.1; InEs.1.1), entretanto concebido pelo Espírito Santo e apontado por Deus como Cristo (InEf.18.2). Ele também foi batizado (InEf18.2; InEs.1.1) por João Batista e entregue à morte de cruz (In.Ef.9.1; 16.2; 18.1; InTr.10.1-2; InRo.5.3; In.Fl.8.2; InEs.1.1-2) e derramou Seu sangue (InEf.1.1; InFl.1.1) para nos oferecer vida eterna (InRo.7.3), nos conduzir à unidade (InFl.4.1) sendo assim estabelecidos como filhos de Deus (InEs.1.1). É por isso que Inácio o chama de verdadeira paixão (InEf.1.1; 18.2) como sacrifício vicário por nós (InEf.1.2) capaz de oferecer Vida Eterna (InEf.19.3; 20.2; InRo.7.3; InPo.2.3)

Entretanto, Inácio também acredita que Jesus Cristo é Deus feito carne, em conformidade com os evangelhos (Jo.1.1, 14), e sobre isso claramente atesta:

“Existe um Médico que possui tanto espírito quanto carne, feito e não criado, Deus existindo em carne, verdadeira vida na morte, de Maria e de Deus, primeiro possível e então impossível, Jesus Cristo nosso Senhor” (InEf.7.2)

“Desde que todo tipo de mágica fora destruída, e todo vínculo da maldade fora destruída, a ignorância removida, e o velho reino abolido, o próprio Deus foi manifesto em figura humana para renovar a vida eterna” (InEf.19.3.2)

“(…) em uma só fé, e em Jesus Cristo, que é descendente de Davi segundo a carne, sendo tanto Filho do Homem como Filho de Deus (…)” (InEf.20.2)

Ou seja, para Inácio Cristo também é Deus, e por isso o apresenta diversas vezes como filho de Deus (InEf.2.1; 4.1; 20.2; InRom.7.3; InEs.1.1), digno de ser glorificado (InEf.2.2; 4.1-2; InFl.10.2; InEs.1.1) e adorado (InRo.1.1; InPo.7.2). É por isso que não poucas vezes Inácio chama a Jesus Cristo de Nosso Deus:

“(…) sendo unidos e eleitos por meio da verdadeira paixão pela vontade do Pai e Jesus Cristo nosso Deus: [a vocês ] alegria abundante por meio de Cristo e de Sua imaculada Graça (…) Sendo seguidores de Deus, e agitando-se, pelo sangue de Deus, tendes perfeitamente cumprido a obra que foi apresentada a vocês” (InEf.1.1)

“Por que nosso Deus, Jesus Cristo, foi, de acordo com a nomeação de Deus, concebido no ventre de Maria, da descendência de Davi, mas pelo Espírito Santo. Ele nasceu e foi batizado, e por sua paixão pode purificar a água” (InEf.18.2)

“Guardem-se, portanto, dessas pessoas. E este será o caso com vocês se não se deixarem estufar [pela heresia], e continuam em íntima comunhão com Jesus Cristo, nosso Deus, e com o bispo e com os decretos dos apóstolos” (InTr.7.1)

“(…) A igreja que é amada e iluminada pela vontade Dele, e que querem todas as coisas de acordo com o amor de Jesus Cristo nosso Deus (…) a aqueles que estão unidos, de acordo com a carne e o espírito, e a todos os Seus mandamentos; aqueles que são listados inseparáveis da graça de Deus, e são purificados de toda mácula estranha [eu desejo] abundância de alegria imaculada, em Jesus Cristo nosso Deus” (InRo.1.1)

“Nada que é visível é eterno por que ‘as coisas que são visíveis são temporais, mas as coisas que não se veem são eternas’. Por isso, nosso Deus Jesus Cristo, que está agora com Seu Pai, é melhor revelado em sua Glória” (InRo.3.3)

“Nós recebemos a Filo e Reus Afatopos como servos de Cristo nosso Deus, que  se tornaram meus seguidores pelo cuidado divino” (InEs.10.1)

“Eu oro por sua alegria eterna em nosso Deus, Jesus Cristo, por quem continuamos em unidade e sob proteção de Deus” (InPo.8.3)

Essa visão da humanidade e divindade de Cristo era clara para Inácio e por isso ele também o via como um com o Pai (In.Ef.5.1; InFl.7.2) e chefe maior da Igreja (In.Es.8.2) a quem os cristãos deveriam obedecer os mandamentos (InEf.9.2; InRo.1.1) e que nos oferece as mais preciosas dádivas espirituais (InEf.11.2).

Também devemos atestar que na sua carta a Esmirna, Inácio faz algumas declarações históricas a respeito de Cristo que merecem ser lembradas:

“Do que tenho observado nós participamos de uma perfeita e imovível fé, como se estivéssemos pregados na cruzo do nosso Senhor Jesus Cristo, tanto em carne como em espírito, e estabelecidos no amor por meio do sangue de Cristo, sendo plenamente persuadidos a respeito do nosso Senhor, que ele foi verdadeiramente descendente de Davi de acordo com a carne e Filho de Deus de acordo com a vontade e o poder de Deus; que ele foi verdadeiramente nascido de uma virgem, batizado por João, para que toda justiça fosse cumprida nele” (InEs.1.1)

Inácio estava convencido da origem humana de Cristo e de sua descendência de Davi, como atesta diversas vezes, bem como a respeito de seu nascimento virginal, batismo por João como cumprimento da justiça, como o próprio Cristo atesta nos evangelho. Mas, ele também descreve alguns fatos históricos que merecem nossa atenção:

“Ele foi verdadeiramente pregado em uma cruz sob Pôncio Pilatos e Herodes o Tetrarca, por nós em sai carne” (InEs.1.2)

Essa declaração sobre a crucificação durante o período de Pôncio Pilatos e Herores, e talvez com uma certa carga de culpa de ambos, é mais uma descrição histórica em conformidade com o que se apresenta no evangelho. Duas conclusões podem ser retiradas daqui: Ou ele teve acesso aos evangelhos ou à tradição cristão da morte de Cristo. Seja como for, a fonte de Inácio é certamente cristã, e provavelmente escrita para responder pessoas que afirmavam sobre Cristo o que as escrituras não afirmam, como vemos no caso do sofrimento e da ressurreição de Cristo:

“Agora, ele sofreu todas essas coisas para o nosso bem, e para que fôssemos salvos. E ele sofreu verdadeiramente, do mesmo modo que ressuscitou verdadeiramente, não, como alguns infiéis mantem, que Ele apenas parecia sofrer, do mesmo modo que eles apenas parecem ser cristãos” (InEs.2.1)

“Até onde sei, após a ressurreição Ele também possuía carne, e eu acredito Ele seja assim ainda hoje. Por exemplo, quando ele veio àqueles que estavam com Pedro, Ele disse: ‘Vejam, apalpai-me e vejam que não sou um espírito incorpóreo’ e imediatamente eles tocaram em Jesus, e acreditaram sendo convencidos tanto de sua carne como de seu espírito” (InEs.3.2)

“E após sua ressurreição ele comeu e bebeu com eles, como se tivesse carne, apesar que espiritualmente ele estava unido ao Pai. Eu lhes dou essa instrução, amados, assegurem-se para que vocês mantenham essa mesma opinião” (InEs.3.3-4.1)

Segundo Inácio, a ideia de um sofrimento aparente e de uma ressurreição espiritual não era apenas um equívoco, mas uma visão da heresia, como ele mesmo procura defender. Para defender sua declaração de que Cristo ressuscitou verdadeiramente em um corpo físico, ele cita, provavelmente de memória, o texto de Lucas 24.39 que diz: “apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”. Ou seja, sua preocupação é clara com relação a visão que tem de Cristo, e sua intenção é resguardar cristãos do avanço da heresia e leva-los a considerar o registro da vida de Cristo.

Diante do testemunho de Inácio, fica evidente que esse homem fora perpassado pelas doutrinas apresentadas pelos apóstolos de Cristo de tal modo que em muitos casos a linguagem é extremamente similar. Haja visto que em suas cartas, Inácio citou os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, além da obra lucana de Atos. Também citou Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonisenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1 e 3 João e o Apocalipse (GEISLER, Norman, Eu não tenho fé suficiente para ser Ateu, Vida 2004, pp.242)

Ou seja, o testemunho de Inácio apresenta um antigo e confiável exemplo de que a propagação das verdades ensinadas por Cristo e seus apóstolos atingiu diferentes regiões no mundo, e que o propósito de Cristo de estabelecer sua Igreja firmada em seu ensinamento havia chegado forte e vibrante até a Síria, onde Inácio o servia como bispo.

3. Policarpo de Esmirna (69-155dC)

Policarpo é lembrado influente Pai Apostólico e bispo de Esmina no segundo século, que morreu martirizado nas mãos do Império Romano aos oitenta e seis anos (MarPol.9.3), segundo o antigo documento cristão chamado O Martírio de Policarpo. Irineu afirma que o teria ouvido falar quando era ainda criança e o descreve do seguinte modo:

“Eu tenho mias vívida do que ocorreu naquela época do que dos eventos recentes (na medida em que as experiências da infância, acompanhando o crescimento da alma, se tornam incorporadas com ela), de modo que eu consigo descrever o local onde o abençoado Policarpo costumava sentar-se e ensinava – também sua saída e sua entrada – seu modo de vida geral e aparência pessoal, juntamente com os discursos que ele fez ao povo e também de como ele fala de sua relação familiar com João, e com o resto das pessoas que tinham visto o Senhor, e como se lembrava das palavras deles” (Irineu, Fragments of lost Works of Irinaeus, cp.2; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 1, pp.568)

Tertuliano, defendendo a credencial de representante dos apóstolos e consequentemente sua autoridade,  também afirma que Policarpo fora discípulo de João (Tertuliano, Presciption against heretics, 32.2; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 2, pp.258) confirmando a semente apostólica carregada por Policarpo. Inácio de Antioquia, que também fala sobre Policarpo, o apresenta como o bispo de Esmirna (InMag.15.1; InPol.1.1) a quem chama de amado (InEf.21.1) e grandemente abençoado (InPol.7.2).

No livro O Martírio de Policarpo diversos adjetivos lhe são conferidos: abençoado (1.1; 19.1; 21.1; 22.1; 22.3); admirável (5.1; 16.2); cristão confesso (10.1; 12.1); ilustre professor (19.1); mártir por causa do evangelho (19.1) e claramente convicto das verdades do evangelho. Na história desse documento, Policarpo é convidado a abandonar a Cristo, caso contrário seria executado. Ele responde que não poderia blasfemar contra seu Salvador e Rei a quem servia a oitenta e seis anos, e mantém sua postura como verdadeiro Cristão. O procônsul vendo sua “obstinação” lhe apresenta o poder que tem de soltar as feras sobre ele ou de coloca-lo a ser queimado. Entretanto, Policarpo não hesita e a essa proposta responde:

“Você me ameaça com o fogo que queima por algumas horas e depois de pouco tempo é extinguido, mas não conhece o julgamento futuro, o castigo eterno, reservado para os maus. Mas, o que o impede? Faça o que quer fazer” (11.2)

Policarpo foi sempre lembrado como um exemplo de cristão fiel e, como discípulo pessoal de João, também é considerado como fonte adequada para se buscar informações sobre quem Jesus Cristo é. Por isso, vamos observar a única carta conhecida sob seu nome conhecida como a epístola de Policarpo aos filipenses, e veremos que a visão de Policarpo sobre Jesus Cristo é claramente endossada pelas escrituras.

Em sua carta, Policarpo se refere diretamente a Jesus como Cristo 15 vezes (1.1 x2; 2, 3; 2.1; 3.3; 5.2, 3; 6.2; 7.1; 8.1; 12.2 x3; 14.1), embora tenha o costume de referir-se a Ele como Jesus Cristo. Policarpo também se refere com frequência a Cristo como Senhor(1.1,2 ;2.1; 6.2; 12.2) e o considera como Salvador (1.1). Provavelmente Policarpo está lidando não apenas com a incredulidade, mas com a heresia avançando a igreja de tal modo que se põe a responder questões diretamente relacionadas com a doutrina de Cristo, observe:

“Por que aquele que não confessa que Jesus Cristo tenha vindo em carne é o anticristo; e ainda, o que não confessa o testemunho da cruz, pertence ao Diabo, e ainda, os que pervertem os oráculos do Senhor de acordo com sua própria cobiça, e diz que não há nem ressurreição nem julgamento, esse é o primogênito de Satanás” (7.1)

Com essas palavras, ele convida os cristãos a se abster da vaidade de muitos e dos seus falsos ensinamento e os convida a retornar a palavra que lhes foi entregue desde o princípio. Nos chama a atenção o fato de que ele cita integralmente o texto de 1Jo.2.22, que fala sobre a verdadeira humanidade de Cristo, mas também apresenta outros problemas relacionados à Sua pessoa e mensagem, afinal, negar sua morte na cruz é um claro indicativo de pertencimento ao Diabo.

Para Policarpo a morte de Cristo é um fato importante par a verdadeira fé cristã de tal modo que aqueles que negam sua morte, ou se mantém incrédulos à sua veracidade, serão cobrados pelo sangue de Cristo (2.1). Com essas palavras Policarpo ensina, de certo modo, que todos os seres humanos são culpados pela morte de Cristo e que aqueles que não receberem tal dádiva serão condenados por isso.

Outro aspecto importante para Policarpo é a verdade de que Cristo ressuscitou, e como vimos, ele parece lutar contra aqueles que atestam não haver ressurreição nem julgamento, mas ele a esses, e a todos os cristãos, que o Cristo que morreu na cruz (7.1; 2.1) ressuscitou verdadeiramente (1.2; 2.1) e virá julgar a todos (2.1; 6.2). Ele é o Mediador entre Deus e os homens (1.3) glorificado e assentado à direita do Pai (2.1), também chamado de perfeito (sem mácula 8.1), eterno sumo-sacerdote (12.2) e verdadeiro Filho de Deus, a quem os diáconos devem servir sem mácula (5.2).

Dentre todas as descrições a respeito de Cristo que Policarpo apresenta, apenas uma vez ele alude a Jesus Cristo como Senhor e Deus:

“E se nós suplicamos ao Senhor para nos perdoar, também nós devemos perdoar, pois estamos diante dos olhos do nosso Deus e Senhor, e porque todos devemos comparecer no tribunal de Cristo, e cada um deve prestar contas de si mesmo” (6.2)

Mais uma vez, vemos um testemunho antigo em extrema consonância com o relato das escrituras, o que sugere que a conexão apostólica de transmissão das verdades de Cristo, continuou firme. Como um relato cristão, Policarpo nos oferece mais um local distante dos acontecimentos da palestina, que afirma exatamente o que aqueles que estiveram lá afirmaram.

4. Justino Mártir (100-165dC)

Justino veio de uma família não judaica de língua grega que vivia em Flávia Neápolis (Siquém) em Samaria (GRANT, Robert M. Greek Apologists of the Second Century.  SCM, 1988), 50; MARTIR, Justino, 1 Apology 1.1; IN:ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 1, pp.163). Ele escreveu sobre como procurou a verdade, dedicando-se a uma sucessão de escolas filosóficas: o estoicismo, o aristotelismo, pitagorismo e  platonismo. (Dialogue, pp.195). Em toda sua busca, Justino não tinha se mostrado satisfeito, até que encontrou um homem idoso que caminhava na praia em Éfeso que demonstrou algumas falhas no sistema platônico que adotava.

Esse homem apresentou como o Antigo Testamento, escritos dos antigos profetas que vieram antes dos filósofos,  apontava a vinda do Messias, mas isso ainda não o havia convencido. O que realmente impactou a vida de Justino foi a coragem dos mártires, que preferiam morrer a negar sua fé (Second Apology, 12.2; pp.192). Em suas palavras, Justino atestou que seu “espírito foi imediatamente posto no fogo e uma afeição pelos profetas e para aqueles que são amigos de Cristo” tomou conta do seu coração, e concluiu: “descobri que a única filosofia segura e útil” era a de Cristo. Isso aconteceu em cerca de 130 dC. Ainda vestindo sua roupagem filosófica, Justino dedicou sua vida a defesa do cristianismo ortodoxo contra seus adversários filosóficos.

Justino usava extensivamente a alegoria em seus escritos, mas era a alegoria dos rabinos palestinos ao invés de a alegoria Alexandrina de Filo. Dado que Justino nasceu em Samaria, isso não é realmente surpreendente. Para ele, a chave para se entender o Antigo Testamento era Cristo e sua interpretação cristocêntrica significava que o significado dos escritores originais foi considerado secundário.

É importante demonstrar esses dois aspectos da visão de Justino, pois muitos dos seus leitores mais tardios têm a tendência de não tê-lo em credibilidade em função de sua linguagem filosófica e/ou de sua visão interpretativa. Entretanto, devemos dizer que alguém com a formação de Justino, escrevendo contra adversário filosóficos, era de se esperar que usasse não apenas da filosofia, mas da mitologia que a cercava para defender a verdade cristã. É verdade que em alguns casos, as analogias e comparações de Justino não são adequadas, mas como um exemplo antigo de apologética da fé cristã.

A maioria dos estudiosos concorda que Justino foi prolixo, confuso, incoerente e muitas vezes não convincente em sua argumentação. No entanto, ele é uma figura importante na história da Igreja. Para ele, o cristianismo era, do ponto de vista teórico, a verdadeira filosofia, e, do ponto de vista da prática, uma nova lei de uma santa vida e morte. Justino argumenta o primeiro ponto de vista abertamente em suas Apologias, e o segundo em seu Diálogo com Trifo. Sobre a fé cristã, Justino escreveu:

“Nossas doutrinas são claramente mais sublimes do que qualquer ensinamento humano nesse aspecto: o Cristo que apareceu para nós seres humanos se tornou o ser racional completo, corpo e razão e alma. O que quer que os advogados ou filósofos tenham dito com propriedade, foi articulado mediante a descoberta e a reflexão relativa a algum aspecto do Logos. Entretanto, uma vez que eles não conheciam o Logos— que é Cristo — em sua totalidade, eles frequentemente se contradiziam” (Second Apology, 10, pp.191)

Sobre Cristo, a visão de Justino é claramente perpetrada pela visão neotestamentária de que Cristo é de fato Deus, e Justino se refere diretamente a esse fato cerca de 20x em toda sua obra. Segundo Justino, os cristãos adoram apenas a Deus, e defende que Jesus deva ser incluído nessa adoração, afinal é Deus feito homem e único Filho de Deus (First Apology, 17,4, pp.170). Ele atesta que Cristo é o Verbo de Deus e por isso é Deus mesmo (First Apology, 63, pp.184)

No Diálogo com Trifão, Justino afirma que Jesus Cristo é chamado de Deus e Senhor dos Exércitos (36, pp.212), que sempre foi Deus, mesmo antes da criação de todas as coisas (56, pp.223), a verdadeira palavra de sabedoria, o Deus gerado do Pai (61, pp.227) que merece ser adorado como Deus e Cristo (58, pp.225). Em sua primeira defesa da fé, Justino claramente atesta:

“Nós vamos provar que nós o adoramos racionalmente, pois aprendemos que ele é o verdadeiro Filho de Deus, Ele mesmo, que detém o segundo lugar, e o Espírito o terceiro. Por isso, eles nos acusam de loucira, dizendo que nós atribuímos a um homem crucificado o segundo lugar em reação ao Deus eterno e imutável, Criador de todas as coisas, mas eles ignoram o mistério que ai está” (First Apology, 13.5)

Esse cristão antigo também demonstra claramente ter conhecimento do evangelho segundo apresentado pelas escrituras, o que sugere mais uma vez que a expansão do cristianismo ocorreu rapidamente pelo mundo antigo e que é mais uma vez impossível que essa propagação se deva a uma invenção tardia da pessoa de Cristo.

Entretanto, à medida que nos aproximamos dos escritores cristãos, mais percebemos o peso do evangelho em sua cosmovisão e o fato de é impossível para eles considerar sobre a pessoa de Cristo sem vê-lo como Deus, Senhor e Salvador. Para os críticos, isso é evidência de que os cristãos antigos não estavam preocupados com sua historicidade, entretanto, o que os críticos não entendem é que não é possível separar historicidade de veracidade. A verdade sobre Cristo não o isenta da historicidade, na bem da verdade, Jesus Cristo é historicamente o que é verdadeiramente para os cristãos. Ou seja, a representação de Cristo como Deus e Senhor é diretamente relacionada com sua existência terrena e  humana, de tal modo que são inseparáveis.

5. Documentos Cristãos Antigos

Além dos conhecidos Pais da Igreja, também encontramos outros documentos cristãos que poderiam ser considerados em nossa análise. Diferente do que sem pensa normalmente, os cristãos produziam diversos materiais, com diferentes intenções, públicos e fundamentos hermenêuticos e teológicos, dentre os quais alguns sobreviveram. Nessa seção, vamos apenas nos ater aos documentos, que sabe-se, são  anteriores ao terceiro século.

Epístola de Barnabé (~130dC)

O documento antigo conhecido como Epístola de Barnabé é uma carta preservada pelo Códice Sinaítico datado entre o terceiro e quarto século depois de Cristo. Trata-se de uma versão completa do Novo Testamento, que tem anexada após Apocalipse, juntamente com a obra do Pastor de Hermas. Entretanto, a antiguidade do documento é atestada pelas citações que outros pais da Igreja fazem dela bem antes do Códice mencionado.

Clemente de Alexandria (150-215dC) já fazia uso dessa epístola citando-a nos livro Stromata e O Instrutor. Além disso, outros fatores internos da carta sugerem que tenha sido escrito ainda mais cedo. Por exemplo, nos versos 3-5 do capítulo 16 a Epístola apresenta um quadro sobre os judeus que tendo o Templo sido destruído de acordo com a profecia do nosso Senhor, eles agora saem à guerra, embora sejam escravos dos seus inimigos. Embora isso possa ser identificado em várias ocasiões na história de Israel, é importante considerar o verso quatro do nono capítulo que apresenta um fato interessante: A circuncisão havia sido abolida, fato que ocorreu sob a ordenação de Adriano. Ou seja, essa carta foi escrita entre os dois fatos apresentados por ela mesma, sendo datada aproximadamente por volta de 130dC.

Nessa carta, encontramos algumas interessante alegações sobre Jesus Cristo, sua historicidade e visão de outro ponto de vista sobre sua pessoa. Como já vimos anteriormente, a visão do autor dessa carta também é perpassada pela doutrina bíblica, mas em alguns casos manifesta-se de maneira um pouco diferente, detalhes que não consideraremos, pois temos por propósito encontrar evidências da historicidade de Cristo em documentos Cristãos antigos.

Na Epístola de Barnabé, Jesus é apresentado como Cristo apenas cinco vezes (EpBar.1.1; 2.6; 12.1, 10-11), do mesmo modo que apenas poucas vezes Ele é chamado de Senhor. Nas declarações que faz sobre Jesus como Cristo, ele também atesta seu amor pelos cristãos (1.1), o fato de que em sua morte aboliu todas as coisas relacionadas aos sacrifícios judaicos (2.6), sua morte na cruz como cumprimento profético (12.1), sua descendência de Davi e Senhorio de Cristo tal como apresentado pelas profecias. Nessa mesma epístola o sacrifício de Cristo é declarado como o critério divino para nos retirar da corrupção, nos direcionar na santidade e para remissão de pecados (5.1), sendo apresentado como Senhor ao entregar sua vida por nós.

Na visão extremamente alegórica dessa carta, Jesus é apresentado como uma referência profética estabelecida por um detalhe apresentado no passado, como um tipo de determinada declaração vétero-testamentária. Nesse modo de ver, o autor da Epístola de Barnabé apresenta a Cristo como tipo do sacrifício completo em relação a oferta de Abraão de Isaque (7.3), como tipo da ovelha sem mácula que a lei exigia para o sacrifício expiatório (7.10), como uma referência aos espinhos colocados na lã como um tipo do sofrimento de Cristo (7.11),  como um tipo de Moisés pois ele revela a Cristo (12.5) e por fim, atesta que a encarnação é verdadeira física e tipicamente (12.9).

Apurando um pouco da visão do autor da Epístola de Barnabé, entendemos que de modo geral Jesus Cristo é Senhor (1.1; 26; 14.5) amado (4.8), criador de todas as coisas (12.7), verdadeiro Filho de Deus (12.9) e imagem de Deus (12.6), que foi verdadeiramente feito carne (6.9), e através de sua encarnação sofreu verdadeiramente (7.10-11; 12.5), vindo a morrer na cruz (8.5) e com isso conceder graça e redenção (9.8), e também ressuscitou e ascendeu aos céus (15.9) e hoje deve ser o alvo da fé cristã (11.10).

Apesar de poucos dados especificamente históricos, como um cético gostaria de encontrar, vemos nas declarações dessa carta, uma visão diferenciada da visão tradicional cristã, mas que ainda assim, apresenta claras evidências de proximidade com o ensino apostólico. E sendo assim, encontramos mais um testemunho antigo da propagação da mensagem dos apóstolos, o que mais uma vez confirma que Jesus Cristo era sem considerado uma figura histórica, muito embora apresentado como verdadeiro Filho de Deus.

Fragmentos de Papias (~155dC)

Bispo Papias de Hierápolis na Frígia (†155) é considerado por Irineu como um discípulo imediato do apóstolo João (Irineu, Adv. Haer, V, 33.5), embora Eusébio de Cesaréia afirme que essa declaração não é verdadeira (História Ecleiástica III, 39.2), contudo, entendemos que existem boas evidências para acreditar que Eusébio estava equivocado.

Papias tem o crédito de associação com Policarpo, na amizade o próprio João, e com “outras pessoas que tinham visto o Senhor”. Diz-se que Papias morreu na mesma época em Policarpo, mas mesmo isso é questionado. Tão pouco sabemos desse, cujos livros foram perdidos, e que se fossem recuperados, poderiam estabelecer o tributo incontestado que se faz dele, como Apolo, era “um homem eloqüente e poderoso nas Escrituras“.

Além de ser discípulo pessoal de João, um discípulo pessoal de Cristo, Papais foi responsável por um grande trabalho exegético nos quatro evangelhos, que ficou conhecido como A Interpretação das Palavras do Senhor escrito em cinco diferentes livros, que se perderam completamente na história da igreja, e apenas dez fragmentos sobreviveram a história e são encontrados nos escritos de outros pais da Igreja.

A conexão entre Papias e João sugere que o valor e peso do seu testemunho seja altamente relevante. Nos fragmentos sobreviventes das obras de Papias, ainda encontramos seguinte declarações como essa:

Se, alguma vez, qualquer homem que houvesse sido um seguidor dos presbíteros viesse, eu o interrogaria o que disseram os presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Tomé, ou Tiago, ou João, ou Mateus, ou qualquer outro dos discípulos do Senhor; e o que diz Aristão, e o que diz João, o presbítero, que são discípulos do Senhor. Pois eu não suponho que obtenha tanto proveito dos livros quanto da palavra de uma voz viva e presente (CESARÉIA, Eusébio de, História Eclesiástica, III.39. IN: Broadus Hale, Introdução ao Novo Testamento, pp139).

Papais descreve uma situação de proximidade pessoal com os apóstolos e que para ele era mais valoroso ouvir suas vozes do que ler os livros que estes tinham escrito. Deve ser por isso que Irineu se refere a ele como alguém que ouvia a João, era amigo de Policarpo e que era um homem muito velho (ou quem sabe um homem antigo).

Sobre a história de Cristo, o que conhecemos da obra de Papias, somos informados sobre sua relação com Judas, “que andava nesse mundo”, ou seja, que embora fosse contato entre os vivos no passado já havia morrido, e que era um exemplo de impiedade. Papias também atesta a incredulidade de Judas, tal como vemos nos evangelhos, e o fato de que ao morrer, as suas entranhas se derramaram. Também apresenta alguns dos ensinos de Jesus Cristo como fiel espectador dos cumprimentos de suas palavras, além do fato de que Maria era de fato a mãe do nosso Senhor.

São poucos os fatos que se podem extrair da visão de Papias sobre Cristo, mas a antiguidade de seu testemunho merece nossa atenção quando tratamos da historicidade de Cristo.

Epístola de Diogneto

A Epístola a Diogneto é um belo e curto tratado apologético em favor do Cristianismo e não foi citado por nenhum cristão antigo ou medieval, e sobreviveu por meio de um único manuscrito que foi destruído em 1870. O autor é desconhecido e anônimo e sua data tem sido apresentada em algum lugar entre os pais apostólicos e o período de Constantino. A razão para se atribuir a um período anterior a Constantino é o fato de que tal carta apresenta um claro peso de uma severa perseguição contra os cristãos, que com a consolidação do cristianismo como religião oficial do Império Romano, veio a desaparecer.

O único dado que se sabe sobre o autor, é sua própria descrição como “discípulo dos apóstolos” o que sugeriu ser uma referência a uma segunda geração de cristãos. Ele se apresenta como “Mathetes”, palavra grega que significa discípulo. Entretanto, é possível que um cristão de outra época pudesse se considerar como um discípulo dos apóstolos sem necessariamente ter vivido pessoalmente com eles.

O destinatário da carta, o excelentíssimo Digneto, um não cristão que tem interesses em saber mais a respeito da religião cristã. Segundo o conhecido esboço da carta, vemos a mensagem de “Mathetes” como defesa do cristianismo em relação ao contexto religioso em que viviam naqueles dias. Em sua carta, o discípulo desaprova a idolatria e demostra que os rituais judaicos não podem agradar a Deus. Também apresenta o fato de que apesar de não serem uma nação, os cristãos estão espalhados por todas elas e que sua cidadania é celestial. Entretanto, a mais importante seção dessa carta é a declaração de esse Deus, que é criador de todas coisas, enviou seu Filho para salvar o homem, e posteriormente os habilitou a perceber sua própria fraqueza e incapacidade de se salvar. Ou seja, diante do conteúdo dessa carta, percebemos que seu autor era um cristão verdadeiro e que sua defesa da fé, feita a Diogneto, é uma demonstração antiga da exposição da mensagem apostólica pelo mundo antigo.

Ao que tudo indica, tal carta não foi preservada em sua integridade, pois após o capítulo dez, dois outros capítulos foram anexados a ela, e não se compatibilizam com o resto da carta, no que se refere ao estilo e conteúdo, e provavelmente trata-se de uma antiga homilia preservada no mesmo manuscrito.

O que nos chama a atenção em primeiro lugar é o fato de que Jesus não é chamado de Cristo nem mesmo de Jesus nessa carta, mas apenas de Verbo, como João o faz em sua introdução ao Evangelho. Falando sobre a mensagem cristã, o Discípulo atesta:

“E, como já disse, isso não é uma mera invenção terrena que foi entregue a eles [os cristãos], nem um sistema humano de opinião, que eles julgaram ser correto e o preservaram cuidadosamente, nem a dispensação de um mero mistério humano que foi confiado a eles, mas o Próprio Deus, o Todo-Poderoso o invisível Criador de Todas as Coisas, foi verdadeiramente enviado dos céus e colocado entre os homens, Aquele que é a verdade, santa e incompreensível Verbo, que foi firmemente estabelecido no coração deles” (EpDio.7.1-2)

A visão desse autor é que Cristo é o Verbo divino sendo reconhecido como o próprio Deus Todo-Poderoso entre os homens. Na sequência também defende que Deus não enviou um anjo, ou um outro servo, mas que o “próprio Deus, o criador e adornador de todas as coisas” é quem se fez presente entre os seres humanos. Certamente, esse autor conhecia largamente o Evangelho de João e dele deriva diversas de suas afirmações.

Para esse discípulo, o Verbo é o princípio de todas as coisas (11.4), eterno (11.5), criador de todas as coisas (11.2), o único Filho de Deus (9.4),o Amado Filho de Deus (8.11), conhecido como Filho Unigênito (10.2), que desenvolve um relacionamento de intimidade com o Pai (8.12) e é o único que o conhece verdadeiramente (8.9). É tão Rei como Deus (7.4) que foi enviado para manifestar-se ao mundo (11.3). No mundo manifestou-se especialmente a seus discípulos, com quem falou, conversou e apresentou os mistérios de Deus (11.2) de modo que eles foram o foco do seu ministério terreno. Mas, sua vinda à terra tinha um alvo ainda mais nobre, morrer em substituição do pecador, por causa das iniquidades deles como um sacrifício substitutivo, como podemos observar nessa declaração:

“Ele mesmo {Deus} tomou sobre si mesmo o fardo das nossas iniquidades, e deu Seu próprio Filho em resgate por nós, o santo pelos transgressores, um inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corrompidos, um imortal pelos mortais” (EpDio.9.2)

É por isso que o Verbo é chamado de Salvador (7.4) e promotor da verdadeira vida espiritual (11.2). Para os cristãos, ele também é a fonte do ensino (11.2, 7), o Abençoador da parte de Deus (8.11) e Aquele que enriquece a igreja (11.5) como amor revelado do Pai (11.8). Nele, o medo da Lei é aniquilado, a graça dos profetas é conhecida, a fé no evangelho é estabelecida, a tradição dos apóstolos é preservada e a graça da Igreja exulta (11.6). E esse mesmo, foi pregado pelos apóstolos e crido pelos gentios (11.3).

Esse é mais um documento cristão antigo que atesta o avanço da mensagem dos apóstolos e apresenta claramente a influência que estes exerceram em seu testemunho de Cristo. Esse documento não representa muitas informações sobre a pessoa história de Cristo, exceto que esteve com homens conhecidos como seus discípulos a quem ensinou sobre os mistérios de Deus. Entretanto, a tradição cristã, tal como apresentada no Novo Testamento, ultrapassava novas fronteiras e avançava pelo mundo antigo, como mais um testemunho de Jesus Cristo.

6. O que se pode concluir dessas evidências

Diante da visão dos cristãos sobre quem eles consideravam ser Jesus Cristo, é impossível dizer que Ele não teria sido uma figura histórica. Também não é possível dizer que a figura de Cristo tal como apresentada na mensagem cristã dos nossos dias é uma distorção tardia da igreja, afinal, mais de duzentos anos antes do Concílio de Nicéia, os cristãos primitivos já apresentavam a Jesus Cristo como Deus.

Também concluímos que é impossível que o testemunho de Cristo tal como encontrado nos evangelho é uma invenção tardia da igreja, afinal, ainda no primeiro século a mensagem do evangelho era claramente apresentada pelos cristãos primitivos e defendida ante a ataques. Ora, se haviam aqueles que se opunham ao testemunho do evangelho, isso ocorre certamente por já terem conhecimento da mensagem a que se opõem. E como os autores cristãos antigos demonstra a reação a esses ataques, é impossível dizer que são os autores dessa ideologia.

Também é possível inferir que o testemunho cristão avançou rapidamente no mundo antigo, e chegou a Roma a ponto de uma comunidade ser formada com liderança autorizada pelos apóstolos ainda no primeiro século. Também chegou a Antioquia, Esmirna e outras regiões do mundo antigo, como vemos nos testemunhos já mencionados.

Por outro lado, esse avanço teria sido rápido demais, se o cristianismo tivesse surgido no início do segundo século como supõe os opositores do cristianismo. Isso também não explicaria como ainda no primeiro século pessoas afirmem que já existiam comunidades cristãs equipadas e com liderança estabelecida de acordo com a mensagem do Novo Testamento.

Ou seja, as teorias de que Cristo reconhecido como Deus teria sido uma construção teológica tardia não sobrevive à análise dos documentos cristãos antigos, do mesmo modo que a não historicidade de Jesus não sobrevive à análise dos documentos não-cristãos antigos. Portanto, é seguro afirmar que tanto que Cristo é uma figura histórica como que sua mensagem, tal como apresentada por seus apóstolos no Novo Testamento, fora difundida por cristãos antigos em diferentes regiões no mundo com clareza. Portanto, da nossa análise concluímos que Cristo é tanto uma figura histórica como propagado e reconhecido como Deus desde os períodos mais antigos do Cristianismo.

Escrito por Marcelo Berti, mestrando em Teologia (Dallas Theological Seminary)