A Igreja Católica nos enganou sobre o Natal?

Há dois anos, a revista “Época” do dia 24 de dezembro (exemplar para assinantes) publicou um artigo escrito por Bart Ehrman entitulado “O que sabemos sobre Jesus”. Neste artigo, o autor fala da descoberta de um manuscrito do tamanho de um cartão de crédito que afirma: “Jesus teve uma mulher!”. Mas, fora desta questão, o professor Ehrman tenta demonstrar que a Igreja Católica nos enganou, dizendo que afirmou coisas que não estavam na bíblia. Nesta época natalina, gostaria de esclarecer, neste post, apenas os dois questionamentos que o professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte levanta acerca do nascimento de Jesus.

Primeiramente, a minha experiência de vida e a fé da Igreja me ensinaram que é impossível estudar sobre Deus se, antes de tudo, eu não tiver fé. Quando eu fiz faculdade de Filosofia, existia uma matéria na grade curricular chamada “Lógica”. Nesta disciplina tínhamos que converter frases inteiras em símbolos e, depois disso, tínhamos que fazer cálculos matemáticos entre essas frases e outras frases para analisar se ambas resultavam numa afirmação lógica. Que coisa complexa, não é?! Custei para me sair bem nesta matéria. Esse negócio de transformar português em matemática não entrava na minha cabeça de jeito nenhum. E até hoje não entendo aquele negócio, só passei por misericórdia de Deus mesmo. Mas por que estou falando disso?

Precisamos perceber que, por mais que estudemos, dificilmente aprenderemos certas coisas, como a Lógica, no meu caso. Quantos de nós, enquanto crianças, não eram péssimos em matemática? Pois bem, se nas coisas naturais nós já temos dificuldade de compreender, quanto mais nas sobrenaturais. Não existe um jeito de conhecer Deus, a Igreja, os anjos, as realidades espirituais através daquilo que é natural em nós. Devemos recorrer a Deus e pedir que ele nos dê uma capacidade sobrenatural para conhecer as realidades sobrenaturais, isto é, devemos pedir a Deus a fé. Esta é aquela ferramenta que utilizaremos para falar sobre Deus e sobre sua Igreja.

Bart Ehrman dá a entender que devemos desacreditar naquilo que a Igreja nos ensinou há séculos, chamando a Tradição Eclesiástica de “conhecimento comum” (termo utilizado pela antiga heresia gnóstica).  Afirma: “– Em nenhum momento, a Bíblia diz em que ano Jesus veio ao mundo, ou se ele nasceu em 25 de dezembro”. Realmente, a Bíblia não fala da data do nascimento de Jesus. O seu natalício (25 de dezembro do ano 0) foi uma data convencionada pela Tradição, isto porque ninguém sabe o dia certo. É possível que nem Maria e José soubessem que dia Jesus nasceu, já que, naquela época, não havia calendário, o máximo que se podia fazer era observar a lua, as estações, a colheita etc. Além disso, na cultura de Jesus não se celebrava o dia do aniversário. Celebrar o Natal no dia 25 de dezembro é uma verdade teológica e não histórica.

A data do Natal foi estipulada pela Igreja a partir de uma festa pagã dedicada ao deus Sol. Esta festa era realizada no solstício de inverno. Mas por quê? Nesta época o dia ia escurecendo cada vez mais cedo e, no dia mais escuro do ano (25 de dezembro) este processo era interrompido e o Sol começava a vencer as trevas. A Igreja leu esta festa pagã com os olhos da fé cristã. “Quando chegou a plenitude dos tempos” Deus enviou Jesus Cristo ao mundo, o Sol de Justiça que venceria as trevas do pecado e levaria toda a humanidade à luz. Jesus é como se fosse o Sol ou não? Sim, ele é o Sol que me leva à luz, portanto o que custa dar a Jesus uma data de natalício que corresponde àquilo que creio sobre Ele? Se Ele é o Sol da minha vida e da humanidade, posso dizer, pela fé, que Ele nasceu no dia 25 de dezembro. Isso não é uma verdade histórica e sim teológica. Portanto, quem não tem fé jamais concordará com essa data.

Quanto ao ano do nascimento de Jesus, este foi calculado por Dionísio, o Pequeno, no ano 525 anos depois de Cristo. Dionísio, que era astrônomo e um ótimo calculista, recebeu uma ordem do Imperador, calcular o ano que Jesus nasceu. Nesta época já havia calendário (a A.U.C. (Ab Urbe Condita)). Contava-se os anos a partir da fundação da cidade de Roma. Dionísio se encontrava no ano de 1278 da fundação da cidade romana. Fez os cálculos e viu que Jesus nasceu no ano de 753 da fundação de Roma. Então, esse ano se tornou o ano 0. Logo, o primeiro ano a ser contado como depois de Cristo foi o de 525, depois, 526, 527, 528, e assim por diante.

Para encontrar a data do natalício de Jesus, Dionísio, o Pequeno calculou com muita precisão a data em que Cristo morreu e ressuscitou, pois sabia que Pilatos, Herodes e César governavam naquela época. Então, percebeu que Jesus morreu por volta do no ano de 786 da fundação da cidade de Roma.

O Evangelho de São João fala de três páscoas, portanto, Jesus teve pelo menos três anos de vida pública. Lucas diz que Jesus tinha cerca de trinta anos quando entrou na vida pública (Lc 3, 23). Mas “cerca de trinta anos” não é trinta anos. Isso é o máximo que conseguimos, pois como vamos saber a data exata da morte de Jesus 525 anos depois? Somente pela fé é que os cristão, 525 anos depois, resolveram marcar o ano 0. Mas, por que marcaram essa data tão tardiamente?

Jesus nasceu, viveu, pregou e morreu e o imperador nem ficou sabendo da existência dele. Jesus era um cidadão comum para os romanos. No máximo, quem ouviu falar de Jesus foi um procuradorzinho da Judéia que não tinha muita importância, chamado Pôncio Pilatos. Só começamos a ouvir falar de Jesus cem anos depois de Cristo, isto porque, os cristãos começaram a falar demais Dele.

Hoje, com a ciência histórica moderna, sabemos que Herodes, o Grande, morreu quatro anos antes de Cristo nascer. Logo, podemos dizer que Jesus nasceu antes de Cristo. Se olharmos bem, até que Dionísio foi bem exato errou apenas por cerca de seis anos de diferença. Ninguém sabe a data exata do nascimento de Cristo. E, por isso, não se muda as datas, isto porque trocar incerto por incerto não resolve muita coisa.

A Igreja Católica nunca escondeu que a data do nascimento de Jesus foi convencionada, portanto, não pensem, como o professor Bart Ehrman, que a Igreja nos enganou. Enganamo-nos a nós mesmos quando damos ouvidos a meros historiadores e sociólogos sem fé.