Mateus I, 24-25 e a virgindade perpétua de Maria

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“A Virgem Maria” de Leonardo da Vinci

 

Em muitas traduções da Bíblia, temos o seguinte em em Mateus I, 24-25:

José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus.

Frente a isso (“até o dia”) como defender a virgindade perpétua de Nossa Senhora?

Vejamos primeiro algumas traduções.

Na tradução da Vulgata do Pe. Figueiredo temos:

E ele não a conheceu enquanto ela não deu à luz o seu primogênito; e Lhe pôs por nome Jesus.

Já Ferreira de Almeida e o Pe. Matos Soares apresentam a conjunção subordinativa de modo ainda mais conforme ao texto grego e ao latim da Vulgata:

Ferreira de Almeida:

E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.

Pe. Matos Soares:

E não a conhecia até que deu à luz seu filho, primogênito; e pôs-lhe o nome de Jesus.

Não há dúvida que isto dito assim em nossa língua parece dar a entender que José a conheceu depois; mas a questão está em saber se no modo de falar dos hebreus daquele tempo, se no modo de falar da Bíblia essa conclusão pode ser tirada. E aí se vê o perigo de pôr-se a Bíblia, um conjunto de livros escritos há tantos séculos e apresentando uma linguagem bem diversa da nossa, nas mãos de qualquer pessoa, com o direito de interpretá-la como lhe vem a cabeça, sem ter o conhecimento da índole das línguas antigas ou distorcendo tal índole para enquadrá-la nos seus “achismos”.

Segundo o modo de falar dos hebreus (e São Mateus é um hebreu da gema; aliás, escreveu o Evangelho na sua própria língua, sendo o texto grego uma tradução, e, é bom lembrar, quem traduz a Escritura, no método tradicional, o faz palavra por palavra, para respeitar a sacralidade do texto – por isso, o grego do Novo Testamento está repleto de hebraísmos), segundo o modo de falar das línguas semíticas:

não a conheceu enquanto ela não deu à luz

não a conheceu até que ela deu à luz

Quer dizer simplesmente isto: sem que a tivesse conhecido, ela deu à luz – sem nenhuma preocupação com o que aconteceu ou não aconteceu depois.

O protestante, naturalmente, exige provas, quer que se apresentem frases semelhantes nas Escrituras.

Vejamos o Gênesis.

Houve um dilúvio em que caiu chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites (Gênesis VII, 12). As águas cresceram e engrossaram prodigiosamente por cima da terra, e todos os mais elevados montes que há debaixo do Céu ficaram cobertos; tendo a água chegado ao cume dos montes, elevou-se ainda por cima deles quinze côvados (Gênesis VII, 19 e 20). E as águas tiveram a terra coberta cento e cinqüenta dias (Gênesis VII, 24).

Noé e os seus estão na arca. Depois de 150 dias começaram as águas a diminuir: E as águas… começaram a diminuir-se depois de cento e cinqüenta dias (Gênesis VIII, 3). É natural agora, portanto, a curiosidade de Noé em saber a marcha em que se vai processando esta diminuição das águas e quanto tempo mais ou menos irá durar aquela moradia dentro da arca, que por certo não devia ser lá muito cômoda.

Solta então um corvo que não volta mais (Gênesis VIII, 7).

Solta depois uma pomba que, não achando onde pousar, volta bem depressa para a arca (Gênesis VIII, 9).

Sete dias depois, solta outra pomba e esta volta para Noé sobre a tarde, trazendo no seu bico um ramo de oliveira com as folhas verdes (Gênesis VIII, 11). É já um bom sinal; espera Noé mais sete dias e solta outra pomba que não torna mais a ele (Gênesis VIII, 12).

O corvo não se mostrou bom mensageiro; enrascou-se no meio das águas e não acertou o caminho para voltar. Daí o ditado entre os hebreus de chamar “corvo” o mensageiro ao portador que não dá conta do recado.

Pois bem, em lugar de dizer, como nós diríamos, que a arca pousou em terra, sem que o corvo tivesse voltado, a Escritura diz da seguinte maneira: abriu Noé a janela que tinha feito na arca e soltou um corvo, o qual saiu e não tornou mais, até que as águas que estavam sobre a terra se secaram (Gênesis VIII, 6 e 7).

Ora, é evidente que o corvo não voltou mais à arca, depois que ela pousou em terra; nem isto interessa mais ao narrador, que quis mostrar apenas a marcha dos acontecimentos enquanto estavam na arca. Mas é o modo de falar deles naquele tempo. Assim também, em vez de dizer: Maria deu à luz, sem que José a tivesse conhecido. São Mateus diz que José não a conheceu, até que ela deu à luz. O que interessa ao narrador no caso é simplesmente mostrar que a concepção de Jesus foi virginal.

Mas vamos a outros exemplos.

Em vez de dizer: Reduzirás a pó os reis, sem que ninguém te possa resistir, a Bíblia diz: Entregar-te-á nas tuas mãos os seus reis, e fará que não fique memória de seus nomes debaixo do Céu; ninguém te poderá resistir, até que os tenhais feito pó (Deuteronômio VII, 24). É claro que, depois de reduzidos a pó os reis, com maior razão ninguém poderá resistir. Mas este é o modo de falar daquele povo: ninguém resistirá até que os tenhais feito pó.

Em vez de dizer: Micol, filha de Saul, morreu sem ter tido filhos, a Bíblia diz: Micol, filha de Saul, não teve filhos até o dia da sua morte (II Reis VI, 23).

Em vez de dizer: Morrereis, sem que esta iniqüidade vos seja perdoada, Isaías diz: Não se vos perdoará por certo esta iniqüidade até que morrais, diz o Senhor Deus dos exércitos (Isaías XII, 14). Vê-se muito bem que Deus não quer dizer aí que, depois de mortos, vai dar-lhes o perdão; mas sim que morrerão sem alcança-lo. E no mesmo profeta Isaías, em vez de dizer: Estabelecerá a justiça sobre a terra, sem precisar ser triste nem turbulento, se diz assim: Não será triste nem turbulento, até que estabeleça na terra a justiça (Isaías XLII, 4). É evidente que, se o libertador de Israel não foi triste nem turbulento antes do estabelecimento da justiça, muito menos o será depois de estabelecê-la. Mas este é o estilo da Bíblia. O até que e o enquanto não não têm na Escritura Sagrada o mesmo sentido que têm na nossa linguagem comum, não exprimem absolutamente uma restrição. Não há, portanto, restrição à virgindade de Maria naquela frase de São Mateus.

José não conhecer Maria, até que ela deu à luz o seu filho. quer dizer simplesmente, segundo o modo de falar das escrituras, a afirmação de que Maria Santíssima era virgem por ocasião de seu abençoado parto; esta afirmação absolutamente não é destruída por esta outra que também é verdadeira: Maria continuou virgem a sua vida, até que morreu; o que, por sua vez, também não quer dizer que ela tenha perdido a virgindade depois da morte.

 

Acréscimos

A expressão “até que” no grego comunitário (koiné), usado pelos hagiógrafos e copistas, contém uma figura de linguagem chamada “semitismo”. Semitismo, implica que expressões ou palavras de origem grega, quando empregadas dentro da cultura diferenciada dos povos semitas e mesopotâmios, passaram a sofrer influências culturais, criando nuances e desdobramentos que lhes alteraram, ampliaram ou restringiram a essência do seu significado original.

“Até que,” portanto, é uma expressão semitista, empregada na Bíblia não apenas no sentido de que “nunca aconteceu até o momento,” como também no sentido de que “nunca acontecerá” nos tempos vindouros.

Na língua portuguesa, falada em nosso país, temos exemplos de palavras afastadas do lusitanismo. A palavra “rapariga” em Portugal, tem sentido totalmente oposto ao que é empregado em nossa cultura mestiça e tupiniquim.

Deixando a fonte linguística, podemos também usar a fonte idiomática comparativa para explicar o texto da postagem.

No hebraico tínhamos o verbo “conhecer ידע, transliterado “yādha‛, cujo paralelo no grego koiné é γινώσκει (gñoskei), sendo que em ambos os idiomas, significa “descobrir, inaugurar ou descortinar”.

No aramaico, salvo engano, não havia palavra específica para esse verbo.

Tanto no hebraico quanto no grego, o verbo conhecer nem sempre foi usado para se referir a um relacionamento sexual, sendo também usado para identificar uma relação afetiva, cultural, espiritual, religiosa, legal ou familiar, que passe a existir ou existir de modo mais intenso.

Compare o texto em São Mateus 1,25, com o Evangelho segundo São João 10,15, que foram originariamente escritos em grego:

Mateus 1-25: “E não a CONHECEU até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.” (kai ouk “EGINWSKEN” authn ewV ou eteken ton uion authV ton prwtotokon kai ekalesen to onoma autou ihsoun)

João 10-15: “Assim como o Pai ME CONHECE a mim, também EU CONHEÇO o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” (koqwV “GINWSKEI ” me o pathr kagw “GINWSKS” ton patera kai thn yuchn mou tiqhmi uper twn probatwn).

O verbo “conhecer” é o mesmo, usado tanto para identificar a relação entre José e Maria, quanto a relação entre Jesus Cristo e o Pai.

Contextualizando, tanto numa como noutra situação, o verbo “conhecer” não pode ser interpretado no sentido sexual, posto ainda que em relação a José e Maria, na cultura e tradição rabínica, narrar publicamente e de modo gratuito a vida íntima de um casal, (salvo para indicar a legitimidade de uma prole) seria motivo de escândalo.

A menção do verbo conhecer, lhe dando conotação de relacionamento sexual, só era usada na Bíblia, quando necessária para explicar uma DESCENDÊNCIA.

Ex. Adão conheceu Eva, sua mulher, E ELA CONCEBEU E DEU A LUZ A CAIM” (Gênesis 4, 1) Neste contexto, logicamente, o verbo “gñoskei” se interpreta no sentido sexual.

Ocorre que a narrativa de José e Maria, não se traz esse contexto de identificação ou legitimação de uma “prole”. Logo, não há qualquer contradição desse texto ao Dogma da Virgindade Perpétua da Santíssima Mãe.

Escrito por Thiago Santos de Moraes e Menandro Taufner Gomes.