O cânon bíblico, o Concílio de Trento e os deuterocanônicos

No século XVI, os reformadores tiraram alguns livros da Bíblia que eram incompatíveis com as suas doutrinas. Diziam que esses livros não eram inspirados e chamaram-nos de “apócrifos”. Por falta de conhecimento histórico alguns seguidores da Reforma, hoje, dizem que a Igreja Católica os acrescentou somente no Concílio de Trento, em 1546.

Aconteceu aqui, o que aconteceu com a Tradição, como já sabemos. Como a Tradição e tais livros favorecem totalmente a Igreja Católica, então, não há realmente outra saída, senão rejeitá-los. Foi justamente esse o motivo por que Lutero também rejeitou a carta de S. Tiago: ela se chocava com a sua sola fide (só a fé). E o critério, claro, foi o mesmo: se não se harmoniza com a minha ideologia, passo a rejeitá-la.

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Não concordamos, evidentemente, que os livros rejeitados do AT sejam apócrifos. Nós católicos os denominamos de “deuterocanônicos” (pois sua inspiração foi reconhecida depois de disputada), enquanto que os outros livros são chamados de “protocanônicos” (sua inspiração foi reconhecida primeiro).

O grande equívoco aí fica patente pelo fato de Lutero questionar o cânon católico antes mesmo do Concílio de Trento. Ora, se é verdade que só em Trento é que a Igreja os canonizou, então, por que Lutero questionou esse cânon antes mesmo desse Concílio? Além disso, 41 anos antes de Lutero nascer e mais ou menos um século antes da Reforma, o Concílio de Florença (1442) já havia confirmado mais uma vez o cânon para a Igreja geral. Dizemos “mais uma vez” porque vários outros Concílios anteriores a este já tinham reconhecidos sua canonicidade, como veremos à frente.

Em Trento a Igreja apenas reafirmou aquilo que todos criam desde os primórdios do Cristianismo. Aliás, o próprio Lutero traduziu para o alemão os livros deuterocanônicos – o que bem mostra que eles eram usuais entre os cristãos. Ele os incluiu em sua tradução da Bíblia para o alemão, publicada em 1534.

Os deuterocanônicos também aparecem nas seguintes versões da Bíblia:

1. A “Bíblia de Tyndale” (também conhecida como “Bíblia de Matthews”), de 1537 a 1551:

2. A “Grande Bíblia” de Coverdale (também conhecida como “Bíblia de Cromwell” ou “Bíblia de Cranmer”), de 1539 a 1541:

3. A “Bíblia de Geneva” (usada pelos Puritanos que vieram para a América e citada milhares de vezes por Shakespeare), de 1560 a 1617:

4. A “Bíblia do Bispo” (publicada oficialmente pela Igreja Anglicana em resposta à “Bíblia de Geneva”), de 1568 a 1582:

5. A “King James Version”, de 1611 em diante (só a partir de 1824 é que algumas editoras protestantes passaram a omitir os deuterocanônicos de suas Bíblias):

Não foi o Concílio de Trento que os introduziu no cânon. Dizer, pois, que foi nesse Concílio que a Igreja os canonizou é, realmente, demonstrar total falta de conhecimento histórico. Convém inclusive nos perguntarmos aqui: o fato desses 7 livros sempre estarem nas versões bíblicas, inclusive na de Lutero, não é prova incontestável de sua antiguidade e canonicidade? Por que os livros apócrifos nunca apareceram numa versão bíblica? Por que justamente e apenas os sete?

O fato desses livros sofrerem dúvida quanto a sua canonicidade não nos obriga a rejeitá-los, pois se assim o fosse teríamos que rejeitar também alguns livros do NT (como Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse), que também tiveram sua canonicidade questionada, sendo, portanto, deuterocanônicos.

Antes, porém, de começarmos a analisar os detalhes desta questão, relembremos aqui alguns vocábulos-chave para melhor entendermos o assunto:

1. Cânon, do grego kanón = regra, medida, catálogo. O vocábulo “cânon” é um descendente direto, através do grego e do latim, de uma palavra semita que significa “cana” (kaneh em hebraico). Por ser longa, fina e reta, a cana pode ser usada para medir, como hoje usamos o metro; por isso, a palavra para cana veio a denotar uma vara de medida; depois, por extensão metafórica, uma regra, um padrão, uma norma. Com o tempo, ela serviu tanto para ser uma medida quanto para representar padrão de alguma coisa, de norma de vida, por exemplo.

A partir do Sínodo de Laodiceia (360), os livros da Bíblia são chamados canônicos por que a Igreja os reconhece como normativos para a fé e para a vida dos fiéis sobre a base do seu conteúdo objetivo. A Igreja, portanto, utiliza o termo para indicar a lista dos livros que são inspirados por Deus e que servem de “norma” de fé, e de base para a doutrina.

2. Canônico = livro catalogado, isto é, inspirado. Os livros canônicos são divididos em dois:

Protocanônico = livro catalogado próton, isto é, em primeiro lugar ou sempre catalogado. Aqueles que foram canonizados primeiro. (O Pentateuco, Josué, Salmos, Mateus, Efésios e outros. Totalizam 57 livros).

Deuterocanônico = livro catalogado déuteron ou em segunda instância, posteriormente reconhecida sua canonicidade (após ter sido questionado). São deuterocanônicos os seguintes livros do AT: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc (além dos capítulos 10, versículos 4 ao capítulo 16 do livro de Ester e dos versículos 30 a 100 do capítulo 3 de Daniel e os capítulos 13 e 14 também de Daniel). Totalizam 7 livros do AT. São deterocanônicos ainda os livros do NT citados atrás.

3. Apócrifo, do grego apókryphon = livro oculto, ou seja, não lido nas assembléias públicas de culto, reservado à leitura particular. Portanto, livro não canônico ou não catalogado, embora aparente ser um livro canônico (Evangelho de Tomé, Evangelho da Infância, Evangelho de Judas, Assunção de Moisés…).

O nosso cânon católico contém 46 ou 47 livros no AT, dependendo se contamos como distinta a carta de Jeremias (=Baruque 6) ou não. No NT há 27 livros – totalizando 74 (73) livros sagrados. A Bíblia protestante, ao contrário, contém apenas 66 livros; 39 no AT e 27 no Novo.

Percorramos a história do cânon do AT:

Durante o primeiro século, os judeus não tinham um cânon completo. Com efeito, muitos “cânones” eram usados na época de Cristo e dos apóstolos. Alguns livros já eram considerados inspirados, conforme se nota em alguns exemplos como Ne 8,1.13-14.18; 1Mc 12, 9; 2Mc 2, 13-15; Dn 9,2, mas outros não o eram.

Os diferentes grupos judaicos continham canônes diferentes:
– Os saduceus tinham como inspirados somente o Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm e Dt);
– Os samaritanos semelhantemente, só que o Pentateuco deles era diferente: centralizava o culto de Deus na Samaria (precisamente no monte Garizim) e não em Jerusalém; muitos de seus profetas eram diferentes dos profetas que constam em nossas Biblias;
– Os fariseus da Palestina não tinham fechado seu cânon, assim como os judeus da Diáspora.
– Os essênios, que viviam em comunidades próximas ao Mar Morto, aceitavam o cânon da Septuaginta, além de uma produção literária própria, que também consideravam inspirada.

Apesar disso, os Judeus aceitavam a Septuaginta, com os deuterocanônicos. Mas, em que consiste essa Septuaginta? Vejamos: Os judeus da Diáspora (=dispersão dos judeus), em Alexandria (Egito), que já não mais compreendiam a língua hebraica, desejando educar seus filhos na Tradição dos Pais, precisaram traduzir os livros sagrados do hebraico para o grego (koiné), língua adotada pelo povo fora da Palestina. Foi Ptolomeu Filadelfo (283-246 a.C.) quem pediu essa tradução, pois ele desejava ter uma cópia dos livros sagrados na sua grande biblioteca em Alexandria. Para isso, foram enviados 72 peritos, 6 de cada uma das 12 tribos. Essa Tradução dos LXX, ou Septuaginta, como ficou conhecida, ocorreu entre os anos de 250 a 130 a.C. e, nela, estavam contidos os 7 livros deuterocanônicos da Bíblia católica.

Vários fragmentos dessa versão foram descobertos por pesquisadores, senão veja: Partes da Septuaginta foram encontradas na Judéia, entre os manuscritos do Mar Morto, sendo anteriores ao ano 70 d.C. Alguns exemplares foram encontrados na caverna 4 (119LXXLev.; 120pap-LXX-Lev.; 121 LXXNum.; 122LXX-Deut.). Há também um texto não identificado da Septuaginta, encontrado na caverna 9 (Q9).
Além desses fragmentos, há um fragmento de papiro, em grego, encontrado na caverna 7 (LXX-Exod.). A caverna 7 gerou ainda muitos pequenos fragmentos em grego (da Septuaginta), cujas identificações continuam discutidas ou sem classificação. O dr. Emanuel Tov propõe as seguintes identificações para alguns destes fragmentos gregos do primeiro século antes de Cristo:

7Q4. Num 14,23-24;
7Q5. Êx 36,10-11; Num 22,38;
7Q6. 1 Sl 34,28; Prov 7,12-13;
7Q6. 2 Is 18,2
7Q8. Zac 8,8; Is 1,29-30; Sl 18,14-15; Dn 2,43; Ecles 6,3.

Foram achadas, no meio destes manuscritos da Tradução dos LXX, frações parciais contendo alguns termos dos deuterocanônicos como 4Q478 -Tobias, 4Q383 e 7QLXXEpJer. (Epístola de Jeremias).

É notório que nas cavernas de Qumran (de onde se originam os “manuscritos do Mar Morto”), foi encontrada uma cópia do livro do “Eclesiástico” em hebraico (manuscrito 2QSir.), como também um fragmento de “A História de Suzana” (correspondente ao capítulo 13 de Daniel), também em hebraico (manuscrito 4Q551). Já na caverna 4 de Qumran, foram acha-dos fragmentos de Tobias, em aramaico (manuscrito 4Q196-9) e hebraico (manuscrito 4Q200).

Deve-se observar, também, que as cavernas de Qumran não são o único lugar na Judéia onde se acham livros deuterocanônicos. Outro exemplo é a cópia do livro do “Eclesiástico”, em hebraico, achada nas ruínas de Massada e datada do início do século I a.C.

Somente em 90 d.C. e pretendendo abafar o crescimento do Cristianismo, é que os líderes judeus se encontraram na cidade de Jâmnia ou Jabnes (= Yavne, a uns 45 km a oeste de Jerusalém) para determinar a lista de livros inspirados: ali excluíram todos os livros do NT e 7 livros do AT (Tobias, Judite, 1/2 Macabeus, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico, além de Est 10,4-16,24; Dn 3,24-90 e Dn 13-14), que os judeus alexandrinos e cristãos consideravam canônicos. Essa decisão provavelmente foi tomada por causa dos cristãos terem adotado a Bíblia Grega (LXX). O livro Cântico dos Cânticos só aí foi canonizado, pois havia muita disputa dos diferentes grupos judaicos a respeito da inspiração deste livro. Vale destacar que este sínodo judaico não teve a presença de nenhum cristão.

Os judeus de Jâmnia fixaram os seguintes critérios:

1) O livro sagrado não pode ter sido escrito fora da terra de Israel;
2) não em língua aramaica ou grega, mas somente em hebraico;
3) não depois de Esdras (458-428 a.C.);
4) não em contradição com a Torá ou Lei de Moisés.

Essa decisão dos judeus palestinenses não foi aceita pelos judeus de Alexandria, os quais tinham, como vimos, um cânon mais vasto. Isso gerou, então, a existência de dois cânones entre os judeus no início do Cristianismo: o restrito dos palestinos, e o amplo dos alexandrinos. Se realmente houvesse um cânon já fixo na época de Jesus e dos apóstolos, com certeza os judeus alexandrinos não teriam inserido os deuterocanônicos na sua tradução.

Além de tudo isso, vale ressaltar que Cristo e os apóstolos citavam o AT usando exatamente a Septuaginta mesmo quando esta diferia do texto hebraico; compare, por exemplo, Mt 1,23 com Is 7,14; At 7,14.15 com Gn 46,26.27; Hb 10,5 com Sl 40,7. E os fariseus não os condenavam por isto. Das 350 citações que o NT faz do AT, 300 são da Septuaginta. Se o cânon estivesse completo e fosse o hebraico, os judeus teriam o melhor argumento para acusar Cristo e seus apóstolos: bastava dizerem que eles usavam uma versão não inspirada da Bíblia! Porém, não vemos sequer uma vez no Evangelho se levantar qualquer suspeita contra a Septuaginta.

Não podemos nos basear na lista escrita por Flávio Josefo em 95 que coincide com o cânon hebraico, excluindo os deuterocanônicos, pois apesar disso, encontram-se em seu trabalho citações de 1Mc, 1Esd e suplementos de Est. Logo, não dá para se concluir a partir do seu testemunho que o judaísmo já tivesse fixado o seu cânon no final do 1º século.

A Igreja Cristã se desenvolveu no ambiente da Diáspora. Na prática, a Bíblia da Igreja foi a Bíblia grega; daí o motivo por que as citações feitas no NT são normalmente da LXX. O fato é que o cânon dessa Bíblia grega passou a ser o cânon dos primeiros cristãos. Sobre isso, diz o seguinte livro protestante: “Segundo o escritor Aristeas, a tradução grega [do AT hebraico] foi feita por setenta e dois sábios judeus (daí o seu nome ‘Septuaginta’), na cidade de Alexandria, a partir de 285 a.C., a pedido de Demétrio Falario, bibliotecário do rei Ptolomeu Filadelfo. Concluída 39 anos mais tarde, essa versão assinalou o começo de uma grande obra que, além de preparar o mundo para o advento de Cristo, deveria tornar conhecida de todos os povos a Palavra de Deus. Na Igreja Primitiva, era essa a versão conhecida de todos os crentes”(AUTORES VÁRIOS, “Bíblia de Referência Thompson” [Protestante]. São Paulo:Vida, 1ª ed., 1996, pp. 1375 e 1377).

Além do mais, convém notar que o NT faz inúmeras citações implícitas dos livros deuterocanônicos, como vemos em outro texto deste nosso site.

Os deuterocanônicos aparecem nos escritos e nos autores primitivos como Escritura Sagrada: A Didaqué usa Eclo e Sb; A epístola de Barnabé (93/97) em 6,7 cita Sb e Eclo; Clemente Romano (+ 95), na epístola aos Coríntios, recorre a Jt, Sb, fragmentos de Dn, Tb e Eclo; Sto Inácio de Antioquia (+107) Cita Judite; o Pastor de Hermas, em 140, cita Eclo e 2Mc (cf. Semelh. 5,3.8; Mand. 1,1…); S. Policarpo (+156) cita fragmentos de Tob; S. Justino (+165) em seu “Diálogo com Trifão” acusa os judeus de retirar da Septuaginta as passagens que testemunhavam Cristo. Na sua ‘Apologia” I, 46, Justino faz referência, ainda, aos fragmentos deuterocanônicos de Dn 3; quando entra em polêmica com os judeus, prefere citações apenas dos protocanônicos, mas ensina que todos os livros presentes na tradução dos LXX são inspirados, “mesmo aqueles que os judeus suprimiram arbitrariamente”.

O apologista Atenágoras mais ou menos em 177, cita literalmente Br 3,36 entre os textos dos Profetas; Hipólito (+235) comenta o livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos e cita Sb e Br como Escritura Sagrada e ainda usa Tb e 1/2 Mc. O mesmo se dá com outros autores do fim do séc. II e começo do séc. III, como Ireneu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Dionísio Alexandrino.

Tanto isso é verdade que o próprio historiador protestante J.N.D. Kelly admitiu: “Deve-ria ser observado que o Antigo Testamento admitido como autoridade na Igreja era algo maior e mais compreensivo que o Antigo Testamento protestante…ela sempre incluiu, com alguns graus de reconhecimento, os chamados apócrifos ou deuterocanônicos. A razão para isso é que o Antigo Testamento que passou em primeira instância nas mãos dos cristãos era… a versão grega conhecida como Septuaginta… a maioria das citações nas Escrituras encontradas no Novo Testamento são baseadas nelas preferencialmente do que a versão hebraica… nos primeiros dois séculos… a Igreja parece ter aceitado a todos, ou a maioria destes livros adicionais, como inspirados e trataram-nos sem dúvida como Escritura Sagrada. Citações de Sabedoria, por exemplo, ocorrem em 1 Clemente e Barnabé… Policarpo cita Tobias, e o Didache cita Eclesiástico. Irineu se refere a Sabedoria, a história de Susana, Bel e o dragão (livro de Daniel), e Baruc. O uso dos deuterocanônicos por Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Clemente de Alexandria é tão freqüente que referências detalhadas são necessárias” (Doutrina Cristã Antiga, 53-54).

A arte das catacumbas também confirmam aquilo que afirmamos: nela estão representados personagens e cenas inspirados tanto nos protocanônicos como nos deuterocanônicos, ao passo que nenhuma imagem reproduz algo dos apócrifos do AT. Veja-se a propósito o episódio de Tobias guiado pelo anjo, o dos três jovens na fornalha (17 pinturas e 25 esculturas), o de Susana entre os dois anciãos (6 pinturas e 7 esculturas), o de Daniel a pronunciar a sentença contra os dois juízes, e o de Daniel na cova dos leões (30 pinturas e 30 esculturas).

As versões coptas saídica ou tebaica (originárias do séc. II no Sul do Egito), a Hexapla de Orígines (séc. III) e antes de S. Jerônimo fazer a Vulgata, já havia no séc. II uma tradução em latim antigo, que incluía os deuterocanônicos.

Há mais de mil Bíblias do século XV (portanto, antes de Lutero) hoje em museus e que foram impressas, e todas elas têm os livros deuterocanônicos.

Os próprios judeus palestinenses estimaram muito esses livros: O Eclesiástico, por exemplo, foi escrito em hebraico, elogiado pelo Talmud (livro de comentários bíblicos dos judeus) e freqüentemente citado pelos rabinos até o séc. X d.c.; algumas vezes é citado literalmente como Escritura Sagrada (Talmud babil., Erubin 65 a; ib. baba kama 92 b). Segundo as “Constituições Apostólicas” 5,20 (escrito cristão do séc. IV), Baruque era lido publicamente pelos judeus, ainda no séc. IV d.c., no dia da Expiação. Conforme o Talmud babilônico, 1º Mac era lido por inteiro na festa da Dedicação do Templo ou das “Encênias” (Hanuca). Tobias e Judite eram também muito lidos pelos judeus, como se vê nos midraxes que os comentam.

As decisões de Jâmnia, porém, prevaleceram e ainda hoje a maioria dos judeus aceita o cânon palestinense, conhecido como cânon hebraico. Os judeus da Etiópia, todavia, sempre seguiram um cânon diferente, pois incluíam os livros deuterocanônicos (cf. Enciclopédia Judaica, vol 6, p. 1147).

É claro que a Igreja também não aceitou a definição de Jâmnia. Primeiro porque uma decisão judaica, tomada em plena era apostólica, não tem qualquer autoridade sobre a Igreja. Segundo porque Jâmnia rejeitou todo o NT. Terceiro, rejeitando os deuterocanônicos, Jâmnia rejeitou a versão usada por Jesus e pelos apóstolos.

Até o séc. IV a Bíblia não existia. Existiam apenas alguns livros disponíveis que eram considerados inspirados em algumas regiões e em outras não. Começaram, entretanto, a surgir alguns livros supostamente inspirados, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, Atos de Pedro, Evangelho de Pedro, Evangelho de Tiago, etc. A Igreja, responsável pela conservação da verdade, não poderia ficar calada, como não ficou, e deixar o erro se infiltrar. Foi, então, que no séc. IV ela decidiu, iluminada pelo Espírito Santo, listar os livros que compunham o AT e o NT. Portanto, apenas a partir daí é que surgiu a Bíblia como hoje a conhecemos. E quando surgiu, já surgiu com os livros deuterocanônicos. Foi, portanto, a autoridade da Igreja que disse, auxiliada infalivelmente pelo Espírito Santo, quais eram os livros canônicos e quais não.

Em ouras palavras, foi o Magistério da Igreja Católica que definiu o cânon bíblico. Como se vê, é contradição dos evangélicos reconhecerem a autoridade da Igreja para o cânon do NT e não reconhecer a mesma autoridade para o AT, já que foi ela que definiu ambos os cânones. Essa definição se deu precisamente nos Concílios do 4º século, dos quais os evangélicos aceitam a definição do cânon do NT, mas rejeitam a autoridade desses Concílios para o AT. Não é isso realmente contradição?

O cânon das Escrituras, Antigo e NT, foi estabelecido definitivamente no Concílio de Roma em 382, sob a autoridade do Papa Dâmaso I. E foi logo reconhecido por sucessivos Concílios, tanto regionais como gerais. O mesmo cânon foi firmado no Concílio de Hipona em 393 e no de Cartago em 397. O fato destes Concílios não serem “ecumênicos” não nos sugere diminuição de sua decisão. Até porque um Concílio Regional embora não possa obrigar toda a Igreja, deve professar a fé de toda a Igreja, e só é válido se for reconhecido pelo Papa (se não for assim não é Concílio, é Latrocílio).

Assim como uma lei municipal não pode contradizer a Constituição Federal (que é geral), um Concílio Regional não pode definir uma fé que contradiga a fé geral da Igreja. Portanto, as decisões dos primeiros Concílios (incluindo os regionais), refletiram a fé de toda a Igreja. Além disso, não existe nenhum Concílio que tenha rejeitado esses livros, ao contrário há somente Concílios reafirmando a sua inspiração. Não é isso uma clara demonstração da confiabilidade desses escritos?

Em 405 o Papa Inocêncio I reafirmou o cânon em uma carta ao bispo Exuperius de Toulouse. Outro Concílio de Cartago (419), reafirmou o cânon como os seus antecessores e pediu ao papa Bonifácio que o confirmasse. Todos estes cânones incluíam os deuterocanônicos do AT e não há um só deles que os tenha desprezado.

Este mesmo cânon foi implicitamente confirmado no sétimo Concílio Ecumênico, o de Niceia II (787), e explicitamente reafirmado nos Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546), Vaticano I (1870) e Vaticano II (1965). Os sínodos de Constantinopla (1638), de Yassi (1642) e de Jerusalém (1672) da Igreja Ortodoxa também confirmaram a fé Católica nos livros deuterocanônicos.

A Sociedade Bíblica Unida (representada no Brasil pela Sociedade Bíblica do Brasil), instituição protestante que produz Bíblias, afirma em sua Agenda de Oração-1996, pág. 5: “Deuterocanônicos: As Bíblias para as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa contêm livros extras, que não fazem parte da Bíblia usada pelas Igrejas Protestantes”.

A única exceção entre os ortodoxos trata-se da Igreja Ortodoxa Russa; ainda assim, é livre entre estes aceitar ou não os deuterocanônicos como inspirados, no entanto os consideram úteis e conforme a santa fé cristã.

Não negamos que S. Jerônimo e alguns poucos e isolados escritores questionaram a canonicidade de alguns deuterocanônicos. E questionaram não apenas os deuterocanõnicos do AT, mas também os do NT. Entretanto, até 390 S. Jerônimo aceitava esses livros como inspirados. A partir daí, contudo, fora covencido pelos rabinos a admitir apenas o cânon hebraico. Ainda assim, é possível encontrar mais de 200 referências aos deuterocanônicos nas obras do Santo. Fora isso, a questão do cânon bíblico para a Igreja cristã ainda não estava definida, o que torna compreensível e justificada a posição de Jerônimo. No entanto, alguns amigos aconselhou-o a traduzir para o latim o livro de Tobias, afirmando que “era melhor desagradar ao juízo dos fariseus a atender às ordens dos bispos” (prefácio a Tobias).

Percebe-se, assim, que o próprio S. Jerônimo testemunha a aceitação desses livros pela Igreja antiga. Apesar, porém, de não tê-los por canônicos, tanto São Jerônimo como os outros pais da Igreja e como os judeus palestinos reconheciam estes livros como úteis ao ensino e conforme a fé, o que claramente testemunha que eles não contêm heresia, como dizem os evangélicos, pois se o contivessem não seriam “conforme a fé”. Embora chamados pelos protestantes de livros heréticos, esta menção desrespeitosa, como se vê, não se encontra no Cristianismo primitivo e nem mesmo no Judaísmo.

Além do mais, anos mais tarde S. Jerônimo aceitou a inspiração de certos deuterocanônicos. Em sua resposta a Rufino, ele defendeu os trechos deuterocanônicos de Daniel à revelia dos judeus de seu tempo. É dele o seguinte comentário: “Que pecado eu cometi se segui o julgamento da Igreja? Mas ele que traz acusações contra mim por relatar as objeções a que os judeus estavam acostumados a formar contra a história de Susana… e a história de Bel e o dragão, que não se acham nos volumes hebraicos, provam que ele é apenas um bajulador insensato. Eu não estava relatando minha própria visão, mas antes as questões que eles (os judeus) estavam acostumados a fazer contra nós” (Contra Rufinus 11,33 [402 d.C.]). Deste modo, S. Jerônimo não reconheceu a autoridade dos judeus para fixar o catálogo bíblico, mas sim a autoridade da Igreja.

O caso também de Atanásio e Orígenes não os aceitarem em nada os diminui. Atanásio aceitava o livro de Baruc (Festal Letter 39) e Orígenes aceitava todos os deuterocanônicos, apenas desaconselhava a usá-los nos debates com os judeus. A Igreja, contudo, permaneceu firme defendendo historicamente os deuterocanônicos apesar da hesitação de alguns.

O protestante J.N.D. Kelly, atrás citado, confirma o que dissemos: “Pela grande maioria, porém, os escritos deuterocanônicos atingiram o grau de inspirados com o máximo de senso. Agostinho, por exemplo, cuja influência no ocidente foi decisiva, não fazia distinção entre eles e o resto do Antigo Testamento… a mesma atitude com os apócrifos foi demonstrada nos Sínodos de Hipona e Cartago em 393 e 397, respectivamente, e também na famosa carta do papa Inocêncio I ao bispo de Toulouse Exuperius, em 405” (Doutrina Cristã Antiga, 55-56).

Percebe-se, então, claramente que os livros deuterocanônicos realmente não foram inclusos no cânon somente em 1546, no Concílio de Trento, mas sim desde os primórdios do Cristianismo. O que evidentemente, depõe a favor deles. Já o cânon adotado por Martinho Lutero, como vimos, é o mesmo dos fariseus de Jerusalém, que rejeitaram Jesus Cristo, pregando-o na Cruz!

 

Escrito por Evaldo Gomes. Programa Falando de Fé.