Grandes Mitos Sobre a Igreja Católica

Nos dias de hoje, nem os católicos conseguem defender a Igreja; muitos se calam diante de qualquer questionamento. Seus escudos estão quebrados; suas espadas foram perdidas. É de partir o coração o estado em que se encontram muitos que vão à Igreja durante toda a vida, mas nem mesmo a conhecem.

E agora, diante desta situação, uma minoria de pessoas mal intencionadas consegue fazer os católicos se sentirem culpados por pertencer a uma Igreja “corrupta”, “assassina” e “cruel”. Nós vivemos em um país em que não se pode ousar dizer que o homossexualismo é pecado, mas podemos ofender a Igreja, chamar todos os padres de pedófilos e acusar o Papa dos mais variados crimes. Este é o Brasil de hoje: um reflexo do mundo que está enlouquecendo.

Não fico triste pelo que dizem e tenho pena dos ignorantes – que enchendo a boca com saliva venenosa para ofender a Igreja, provam ser brasileiros genuínos do tipo mais imbecil que só aqui se encontra. Tenho pena daqueles que nada sabem sobre a Igreja, nunca averiguaram os mitos tão contados sobre ela e ainda assim orgulham-se de atacá-la e desprezá-la da maneira mais arrogante possível.

Mas por que todo mundo acredita nos mitos contados? Sabem ao menos que são mitos? E por que alguém iria querer contá-los? Essas são questões que precisam ser respondidas, e é isto que será feito agora. Terra Plana, Santa Inquisição, Caso Galileu, Cruzadas, Venda de Indulgências ou o Silêncio de Pio XII: exemplos de bobagens sem fundamento que nunca deixarão de ser repetidas pelos inimigos da Igreja, ou até pelos seus próprios filhos.

O Mito da Terra Plana

De tão comum, esse mito, hoje, já está até sendo misturado com outros. Algumas pessoas chegam a dizer que o motivo da pena de Galileu, foi ele ter afirmado que a Terra era redonda, contrariando a Igreja, que pregava que esta era plana. Antes de mais nada, vamos, então, aos exemplos.

No Yahoo! Answers, é feita a pergunta: A Bíblia achava que a Terra era Plana?

A partir daí, as maiores bobagens são ditas. O usuário ASA SUL ® diz: “Durante muitos anos a ciência afirmou que a Terra era plana, e Galileu Galilei discordou e disse que a Terra era redonda. Por isso foi condenado à morte pela igreja católica”. Além de demonstrar ignorância quanto ao caso da Terra plana, demonstra também ignorância quanto ao caso de Galileu, mas deste falo mais à diante. O usuário NELSON diz que “Galileu, Vespuci, Da vinci, […] comprovaram que a Terra era redonda”. E no vídeo “Crimes do Ateísmo“, o usuário DavidWDRS diz que “Galileu foi morto e excumungado pela igreja, porque propos a teoria [de] que a Terra era redonda”.

Acreditem: não é difícil encontrar exemplos em que a confusão é feita. Mas lembremos, por hora, que o caso Galileu é relacionado ao Heliocentrismo, que apareceu com Nicolau Copérnico, publicado em seu De revolutionibus orbium coelestium, em 1543. Então, deixando Galileu de lado, é necessário responder a pergunta: A Igreja Católica ensinava que a Terra era plana?

Conta-se que, bravo e destemido, Colombo dispôs-se a aventurar-se nos grandes mares e circular todo o globo terrestre, por isso sendo fortemente repreendido pela Igreja, que hesitou em apoiá-lo, alegando que ele cairia na borda da Terra, ou que dragões e outros monstros comeriam ele e sua tripulação vivos, já que havia um abismo em determinado ponto dos Oceanos. Mas seria isso verdade? A Igreja se opôs a Colombo baseado em argumentos tão infantis e anti-científicos?

Pelo contrário, era sabido que a Terra era um globo, e isto pode ser comprovado facilmente através das evidências históricas. Mais que isso, pode ser comprovado pela própria Bíblia: Salomão, por exemplo, se refere ao globo terrestre nos Provérbios e no Livro da Sabedoria. De qualquer forma, não é o relato bíblico que está sendo discutido, mas sim a hipótese de as pessoas terem acreditado na Terra plana e de a Igreja tê-la ensinado. Isso, com toda a certeza, nunca aconteceu.

Ninguém, na Idade Média, acreditava que a Terra era plana. Na verdade, algumas pessoas falavam sobre isso, ou mesmo acreditavam, mas eram grupos bem pequenos que não influenciaram o pensamento de ninguém. Os dois mais “populares” são tão populares que ninguém nunca ouviu falar deles: Lactantius, que viveu entre o Século III e IV; e Cosmas Indicopleustes, navegante do Século VI. Lactantius teve sua visão considerada herética pela Igreja; em seu trabalho, ele rejeitou todos os filósofos gregos e, consequentemente, a terra esférica – os gregos já até haviam medido a circunferência da Terra, muitos anos antes de Cristo. Cosmas também foi ignorado pela Igreja e, mais importante do que isso, seus escritos – em grego – foram traduzidos para o latim apenas em 1706, o que significa que sua obra, tal como a de Lactantius, além de ter sido rejeitada, nunca pôde influenciar ninguém, visto que não estava acessível aos leigos da época (Século VI), em que pouquíssimos do Ocidente entendiam grego, e não fora aceita entre os intelectuais. Seria impossível que a crença ganhasse força a partir deles.

Grandes-mitos-Sobre-Igreja-Catolica

Então, se a Igreja rejeitou qualquer visão de Terra plana, como teria este tão famoso mito começado? Jeffrey Burton Russel, em seu livro Inventing the Flat Earth (Inventando a Terra Plana) oferece a resposta: Antoine-Jean Letronne e Washington Irving, interessados em retratar a Igreja como estúpida, inventaram o mito para que a credibilidade da Igreja em outros debates fosse abalada.

Outro historiador, Thomas Woods, exemplifica a intenção deles, quando diz: “Se podemos [os iluministas] retratar a Igreja como sendo tão ridícula, que, na verdade, costumava ensinar que a Terra era plana, então, nós podemos mostrar que Ela é um oponente absolutamente desprezível”. E continua: “Eu tenho certeza que eles não tinham ideia da durabilidade desse mito; de que no Século XXI ainda o ensinariam […]. Ele [o mito] simplesmente não desaparece. Mas por que não desaparece? Por que tem tanta durabilidade? A razão é que o mito alimenta o estereótipo iluminista: a Igreja Católica é estúpida, impede o progresso e nos força a acreditar em bobagens”.

Widson Porto Reis exemplifica o que Letronne fez com a obra “Topografia Cristã”, de Cosmas, quando atribuiu à ela uma importância que ela nunca teve: “Seria como se daqui a mil anos alguém encontrasse um obscuro trabalho científico questionando a evolução e afirmasse que os cientistas do século XXI não acreditavam na evolução”. Sobre a definitiva propagação do mito, acrescenta ele: “O mito realmente ganhou a força que tem até hoje quando John Draper (1811-1882), um físico violentamente anti-católico, publicou em 1873 o livro A História do conflito entre a Ciência e a Religião utilizando o mito da Terra plana como exemplo de como as crenças religiosas eram estúpidas e atrasadas e necessariamente se opunham ao progresso da ciência”, exatamente o que Woods retrata como a intenção de Letronne e Irving.

Por tudo isso, é absurdo afirmar que a Igreja ensinava que a Terra era plana, e que este foi o motivo que a levou a repreender a viagem de Colombo. Não há historiador sério que seja capaz de acreditar nesta bobagem, e até em obras muitíssimo antigas é possível notar que, durante toda a Idade Média, era aceita e difundida a ideia de que a Terra era esférica. Orlando Fedeli cita alguns exemplos, como a estátua de Carlos Magno, obra romântica do Século IX, em que o Imperador segura um globo que representa a Terra. Cita, também, o exemplo da Catedral de Notre-Dame – 1300 -, em que Nossa Senhora tem em seus braços o menino Jesus, que segura o globo da Terra entre seus dedos, como se brincasse com o nosso mundo. A escultura é inspirada em Provérbios 8: 30-31, que diz: “E cada dia eu me deleitava brincando continuamente diante d’Ele, brincando sobre o globo da Terra”.

De fato, houve discussão entre Colombo e a Igreja (o debate de Salamanca), mas não porque a Terra era plana, e sim porque a Igreja afirmava que Colombo, em sua tentativa de chagar à Índia pelo Ocidente, estaria subestimando o tamanho do globo terrestre, e que provavelmente morreria de fome, pois navegaria e não chegaria a lugar algum. Pois a Igreja estava certíssima, e se Colombo não tivesse se deparado com o continente Americano, seria exatamente isto que aconteceria com ele e sua tripulação – Colombo considerava que Terra tinha apenas 20% do seu tamanho real.

Para quem duvida que os inimigos da Igreja fazem de tudo para vê-la em maus lençóis, está aí um bom exemplo de clara desonestidade que continua, ainda hoje, a ser professado em cada colégio, por cada professor desinformado ou mal intencionado, já retratando paras a crianças uma imagem negativa da Igreja, baseados em algo que ela nunca fez; baseados em uma mentira que pode ser facilmente desmascarada, mas que, como lembra Woods, “não foi desmascarada, porque serve a um propósito“. De qualquer forma, seria ótimo se este mito fosse o único.

As Inquisições

No caso da Terra plana, inventou-se algo que nunca aconteceu, mas todos nós sabemos que a Inquisição, de fato, existiu. Ninguém nega a Inquisição, mas mesmo sendo real, muitas são as distorções, omissões e desonestidades referentes a este episódio tão marcante. Talvez o pior deste episódio, é que os inimigos do cristianismo têm como aliados os protestantes: peritos em difamar a Igreja Católica. A difamação, como de praxe, não tem validade histórica, não tem boas referências e não pode ser confirmada; seu único motor é a sede de ofender a Igreja e fazê-la parecer vilã de todas as histórias.

Muitas vezes, os próprios católicos acabam concordando com as bobagens pregadas contra a Igreja. Eu mesmo já vi muitos dizendo coisas como: “Sou católico, mas a Igreja tem um passado negro”“sou católico, mas não por causa da Igreja”; ou “a Igreja Católica não tem o direito de repreender o que há de errado no mundo, porque já errou mais do que todo o mundo junto”. Este é o nível dos “católicos” brasileiros: aqueles que, conformados com toda lorota que ouvem, acabam prestando um desserviço à doutrina que afirmam seguir e respeitar. É aquele que Luciano Ayan define como cristão vira-lata.

Alguns ateístas e protestantes afirmam que, durante a Inquisição, milhões de pessoas foram mortas. E esse “alguns” não se refere a poucas pessoas; muito pelo contrário. Os que supõem números mais moderados também acabam cometendo erros. Este site (http://www.espada.eti.br/n1676.asp) afirma que a Inquisição foi responsável por mais de 75 milhões de mortes. Já o site Ateus do Brasil (http://ateusdobrasil.com.br/p/1995/) diz que foram 600 mil pessoas torturadas e queimadas durante a Idade das Trevas – vamos desconsiderar o fato de o autor do texto achar que Frei Betto é católico; o foco é a lorota do número de vítimas durante a dita “Idade das Trevas”.

Estes números não são nada modestos: 75 milhões é um número de mortes maior que causado por Mao Tsé-Tung, o maior genocida da história da humanidade; 600 mil equivale a quase seis Fidéis Castro. Mas seriam estes números verdadeiros e confiáveis? A inquisição realmente matou milhões – ou centenas de milhares – de pessoas? Esqueçamos o que diz as apostilas de ensino médio, os neo-ateístas raivosos ou os protestantes ignorantes, e olhemos para o que os historiadores têm a dizer. Somente através da pesquisa profissional e dedicada que a verdade pode ser esclarecida; através de propaganda fundamentada no ódio nada confiável será alcançado.

João Bernardino Gonzaga, no livro A Inquisição em seu Mundo, introduz o estereótipo da Inquisição: “Nascida oficialmente no começo do século XIII e durando até o século XIX, a Inquisição dedicou-se, dizem eles, a semear o terror e a embrutecer os espíritos. Adotando como método de trabalho a pedagogia do medo, reinou, de modo implacável, para impor aos povos uma ordem, a sua ordem, que não admitia divergências, nem sequer hesitações. Ao mesmo tempo, pretende-se que o que havia por detrás dela, nos bastidores, era um clero depravado, ignorante e corrupto, em busca apenas do poder político e da riqueza material”.

Qualquer pessoa que tenha ousado discutir o tema, seja com amigos – casualmente -, ou mesmo na Internet, sabe bem que em todo grupo, por menor que seja, há sempre um ou dois, com ferro na mão, prontos para dar cacetadas nas costas da Igreja usando como justificativa a Santa Inquisição. Ninguém se interessa em entender o contexto, ou se aprofundar no que é defendido pelos historiadores que investigaram o assunto; o único objetivo é justificar o ódio contra a Igreja, mostrando como ela cometeu crimes repugnantes – crimes que só homens sujos e desonestos seriam capazes de tolerar, ainda que sem nenhuma referência -, ou seja, uma tentativa de envergonhar todo filho da Igreja por ser católico e fazer parte de uma instituição tão “cruel e opressora”.

Achismos, ódio e ignorância deixados de lado, vejamos o que foi a Inquisição, porque aconteceu, e quais foram seus resultados. Relata Gonzaga, sobre a origem da propaganda anti-católica: “A Inquisição se tornou […] um arquétipo, um símbolo universalmente aceito de intolerância, prepotência, crueldade; e ela ficou sobretudo ligada, de modo indissolúvel, à Espanha […]. A ofensiva principiou no século XVI, quando esse país se converteu na maior potência mundial […]. Tal hegemonia despertou a cobiça dos protestantes, tendo à frente a Holanda, que ansiava por assenhorear-se do tráfico internacional. A propaganda desmoralizadora foi uma das grandes armas utilizadas: valendo-se da imprensa recém-inventada, os protestantes inundaram a Europa de livros e panfletos, todos insistindo em denegrir a imagem dos papas, da Igreja e dos católicos ibéricos”.

Obviamente, os protestantes não eram os únicos. Continua o autor: “O combate foi engrossado pelos anglo-saxões […]. A técnica utilizada para atacar o catolicismo foi sempre a mesma: o leitmotiv era a figura de uma Espanha dirigida pelo clero, por isso atrasada, obscurantista e, em consequência, reduzida afinal à pobreza. Para a campanha, com muito empenho sempre contribuíram também os judeus […]. Esse clima […] recebeu mais adiante o reforço do movimento iluminista do século XVIII, o “século das luzes”. Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal arma de combate à Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto, desejoso de manter o povo na ignorância e que se impôs pela tortura”.

Mas mais importante que entender a origem das distorções, é entender o que era, de fato, a Inquisição. Recentemente, ouvi uma grande bobagem em um dos programas que parece ser um dos mais respeitados pelos ateístas: Atheist Experience. No episódio “Christians, read about the Inquisition!” (Cristãos, leiam sobre a Inquisição), um espectador chamado Chuck recomenda que os cristãos “leiam sobre a Inquisição: isso os explicará bastantes coisas sobre a religião”. Por hora, ignoremos o fato de ele não ter seguido o próprio conselho, e notemos que ele diz que “o cristianismo nem mesmo existiria, hoje, se não fosse pela Inquisição”.

Por que ele diz isso? É simples: na cabeça de muitos, além do caráter cruel da Inquisição, pensa-se também que ela era aplicada a qualquer ser humano que estivesse por perto, à toa, fazendo algo que desagradasse a Igreja. Por isso, o nobre Chuck diz, sobre o caráter da Inquisição: “Basicamente, se você não acreditasse em Deus, eles [os católicos] te enforcavam, te queimavam, ou – sabe? – te destruíam”. Mas este não é, nem de perto, o caso. Como descreve Fedeli, “a Inquisição foi instituída para combater o catarismo”. O catarismo era uma heresia considerada perigosa, e foi justamente pelo combate da heresia dentro da Igreja, que a Inquisição existiu. O que isto significa? Significa que os tribunais da Inquisição só poderiam julgar católicos hereges.

Não é o que dizem os livros “didáticos”, não é o que nos contam, mas é o que era. É o que Chuck não sabe. Quando ele diz que o cristianismo não existiria, não fosse pela Inquisição, ele sugere que qualquer opositor do catolicismo seria assassinado, e que a doutrina cristã era forçada à toda população, como um requisito básico para sobrevivência, algo como: “Quem não for cristão será eliminado, a menos que se converta”. Mas os tribunais não existiam para obrigar o cristianismo, e quem não fazia parte da Igreja nunca poderia ser, por ela, condenado. Como seria herege aquele que nem mesmo acredita em Deus? Aí mora o perigo da interpretação de tais tribunais: pensa-se que ateus, muçulmanos e judeus, por exemplo, poderiam ser julgados por heresia contra a Igreja Católica, mas é óbvio que isto era impossível. Lembremos, ora, de Galileu: foi justamente porque era católico, que a Igreja o condenou – mas, novamente, deixo este caso para depois.

Em adição à isto, o judeu George Sokolsky escreveu, em 1935, que “a tarefa da Inquisição não era perseguir judeus, mas limpar a Igreja de todo traço de heresia ou qualquer coisa não ortodoxa. A Inquisição não estava preocupada com os infiéis fora da Santa Igreja, mas com aqueles heréticos que estavam dentro dela”. O especialista inglês em História do Judaísmo, Dr. Cecil Roth, declarou, em 1927: “A verdade é que os Papas e a Igreja Católica, desde os primeiros tempos da Santa Igreja, nunca foram responsáveis por perseguições físicas aos judeus, e entre todas as capitais do mundo, Roma é o único lugar isento de ter sido cenário para a tragédia judaica. E, por isso, nós judeus, deveríamos ter gratidão”.

Portanto, pior do que as bobagens ditas por Chuck sobre Inquisição, é o fato de os apresentadores do programa concordarem com o que é dito, e ainda acrescentarem mais mentiras sobre o caso. Na verdade, penso eu, isto é bom: prova o quanto as referências ateístas são ignorantes sobre vários assuntos; muito ignorantes, mesmo. Jeff Dee afirma que “a Inquisição foi a época em que o cristianismo era como o Taliban é hoje”, e isto, para mim, confirma a completa falta de entendimento do que foi a Inquisição, o que ela fez, com quem fez e porque fez. Mas é necessário advertir que é difícil encontrar um ateísta que conhece a Inquisição, ou se interessou em compreendê-la; eu mesmo nunca vi um.

Ainda sabendo que a Inquisição era destinada exclusivamente aos católicos – enquanto tribunal eclesiástico, já que havia também os tribunais civis, e estes não estavam submetidos à Igreja -, fato que possivelmente será negado quando apresentado, falta esclarecer uma coisa: foram, de fato, milhões de hereges mortos durante a famosa Idade das Trevas?

O historiador Agostino Borromeu, especialista no assunto, revela dados completamente contrários aos absurdos que se propaga por aí. Tão contrários que, sem dúvida, a primeira reação de quem lê, é de fortíssimo ceticismo. Queiram ou não, segue aqui o que várias autoridades no assunto têm a dizer.

Afirma Borromeu: “A Inquisição na Espanha que era dirigida pelos Reis – em referência ao tribunal mais conhecido – celebrou entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram 1,8% (804)”. Rino Camillieri, autor do livro La Vera Storia dell Inquisizione, afirma que “na principal cidade medieval – centro da heresia cátara -, em um século, houve apenas 1% de sentenças à morte” (pág. 36). Referente às famosas “caçadas de bruxas”, Borromeu diz que “dos 125.000 processos de sua história, a Inquisição espanhola condenou à morte 59 pessoas. Na Itália, foram 36, e em Portugal, 4”. Ainda acrescenta que, “ao contrário do que se divulga, o número de pessoas condenadas a pena máxima era muito pequeno”.

Sobre o caso das bruxas, muito, também, precisa ser dito. O historiador Gustav Henningsen diz: “O certo é que, ao contrário do que comumente se crê, as perseguições de bruxas não se deveram a iniciativa da Igreja, foram manifestação de uma crença popular, cuja bem documentada existência se remonta a mais remota antiguidade […]. Não foi a Inquisição que iniciou a perseguição às bruxas, senão a justiça civil nos Alpes e na Croácia […]. A inquisição podia haver causado um holocausto de bruxas nos países católicos do Mediterrâneo, mas a história demonstra algo muito diferente: a Inquisição foi, aqui, a salvação de milhares de pessoas acusadas de um crime impossível” – La inquisición y las brujas, pág. 568-94 (L’Inquisizione, Atti del Simposio internazionale).

Como vai ficando evidente, os especialistas demonstram, sem rodeios, que a maioria das afirmações feitas por leigos sobre a Inquisição, merece simplesmente ser ignoradas. É importante saber, também, que historiadores não-católicos, como o protestante Henry Charles Lea, defendem a Igreja neste ponto. Afirma ele que “a Igreja, combatendo os cátaros, salvou a humanidade”. Isto por causa de algumas visões cátaras referentes à mulher e seu papel, que poderiam causar problemas à muita gente se propagadas.

Sobre os casos de tortura, diz Henry Kamen: “Em uma época em que o uso da tortura era geral nos tribunais penais europeus, a Inquisição espanhola seguiu uma política de benignidade e circunspeção que a deixa em lugar favorável se se compara com qualquer outra instituição. A tortura era empregada somente como último recurso e se aplicava em pouquíssimos casos”. Fedeli acrescenta: “Foi a Igreja a primeira a não aceitar a confissão sob tortura como prova de culpa. Na Inquisição – ao contrário do que se fazia em todas as partes, a tortura só podia ser aplicada uma vez, sem derramamento de sangue, só com a aprovação do Bispo e com a assistência de um médico. Os papas sempre preveniram os inquisidores de que eles eram pastores, e não torturadores, nem carrascos. Nas prisões de todos os países, toda pena capital era precedida de torturas punitivas. Por isso os acusados preferiam ser julgados pela Inquisição, onde o tratamento era sempre muito menos cruel”.

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Kamen, então, mostra que “as cenas de sadismo que descrevem os escritores que se inspiraram no tema possuem pouca relação com a realidade”, e Camillieri confirma: “O fato é que os inquisidores não acreditavam na eficácia da tortura […], como meio de prova a tortura era pouco útil. Não só isso. A confissão obtida sob tortura devia ser confirmada posteriormente por escrito pelo imputado, sem tortura (somente assim as eventuais admissões de culpa podiam ser levadas a juízo)”.

Diante de tudo isto apresentado, podemos concluir que a Inquisição católica não é o monstro retratado pelos inimigos da Igreja: foi restrita aos hereges, foi mais humana que os tribunais civis, condenou à morte um número proporcionalmente pequeno de pessoas e não perseguiu bruxas e descrentes, muito menos com a sede de sangue que retratam os leigos e desonestos interessados em retratar a Igreja como cruel e repressora.

Como bem lembra Dinesh D’Souza, considerando o tempo que durou a Inquisição, a média de mortes foi de 4 a 5 por ano – um número desprezível -, e diante deste dado histórico confirmado pelas maiores autoridades do assunto, é seguro dizer que a Inquisição, tal como é retratada, não passa de um mito. O Papa João Paulo II realmente se desculpou pelos erros cometidos pelos filhos da Igreja durante a Inquisição, mas não porque nada na Inquisição se justifica, e sim porque todo tribunal humano está sujeito a erros – a menos que eu esteja enganado e a justiça perfeita esteja sendo praticada nos tribunais do Século XXI. É este o caso?

O Caso Galileu

O caso Galileu é talvez o mais triste de todos, porque serve de justificativa para uma crença que, além de nunca ter sido verdade, é baseada exatamente no oposto da verdade: a crença de que a Igreja Católica é inimiga da Ciência e da razão. A Igreja que forneceu as bases para a revolução científica é, hoje, condenada por ter impedido o progresso neste campo. Desmitificar esta crença é trabalho aparentemente complicado, mas o certo é dizer que ninguém se interessa em fazê-lo. Thomas Woods, Edward Grant, A. C. Crombie, etc.: historiadores que mostraram que a Igreja não só incentivou a Ciência Moderna, como foi fundamental para que esta se tornasse o gigante que o mundo conheceu. As autoridades no assunto entendem que o título justo à Idade Média seria “Idade da Razão e do Conhecimento”. A reação de quem lê tal “absurdo” talvez seja um riso de desdém, mas, novamente, não interessa a quem é sério o sentimento arrogante de quem bota o preconceito e o ódio acima da verdade.

O caso de Galileu Galilei, tão distorcido e confundido, como já foi mostrado, merece atenção especial, pois são tantas as mentiras e omissões feitas – não diferente dos outros dois mitos abordados -, que é necessário desmentir, de uma vez por todas, uma das histórias que tem justificado uma das maiores bobagens professadas contra a Igreja: a de que ela é inimiga do conhecimento.

Tudo começa com Nicolau Copérnico, o homem que propôs o modelo heliocêntrico. Copérnico foi um astrônomo polonês que acreditava, em geral, no que conhecemos por Sistema Ptolomaico. Ptolomeu foi o astrônomo grego que propôs que os planetas eram ordenados da seguinte maneira: a Terra no centro, e o Sol e os outros planetas orbitando a Terra. De acordo com o Sistema Ptolomaico, ou Sistema Ptolomaico-Aristotélico, os planetas orbitavam a Terra em círculos perfeitos, e a uma velocidade constante perfeita. O modelo também sugeria que os vários corpos celestes, incluindo os outros planetas e a Lua, eram esferas perfeitas.

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Modelo Ptolomaico: Terra ao Centro; Sol no quarto anel

Copérnico sugeriu que algumas mudanças deviam ser feitas: pôr o Sol no centro e ter a Terra como um dos planetas que orbitam o Sol. O resto – esferas perfeitas, órbitas circulares perfeitas e uma velocidade constante – ele manteve. Isto ficou conhecido como Sistema Heliocêntrico. Ao contrário do que se pensa, a Igreja não considerava herética a defesa do modelo copernicano. Copérnico dedicou sua obra ao Papa Paulo III, que foi publicada a pedido de cardeais católicos, em 1543.

Em um artigo dos mais mentirosos que já encontrei na Internet, que declara a Bíblia como anti-científica (http://www.evo.bio.br/LAYOUT/BibleXCien.html), lê-se o seguinte: “De fato, a Bíblia não declara explicitamente que o Sol gire em torno da Terra, tal afirmação era feita principalmente por alguns filósofos gregos e alexandrinos, e sendo assim a Igreja Católica, influenciada por tais visões, e ignorando propostas Heliocentristas que já existiam antes da própria fundação da Igreja de Roma, assumiu tal postura intransigente, declarando o Heliocentrismo como uma heresia”.

Percebam o tamanho da bobagem escrita: a Igreja ignorou propostas heliocentristas que já existiam desde antes da sua fundação – e por intransigência declarou o heliocentrismo uma heresia. Espero que alguém já tenha reconhecido o talento do autor para contar piadas. A Igreja incentiva que Copérnico publique sua obra, ele então a dedica ao Papa, mas a sua teoria é considerada herética? Ora, a Igreja nunca considerou o Heliocentrismo uma heresia e, aliás, o geocentrismo não era adotado por puro dogmatismo, mas porque as evidências estavam ao seu lado até poucos séculos atrás.

Ignorando a especulação infundada do rapaz, voltemos à análise séria do caso. O modelo copernicano era ensinado como uma teoria legítima em universidades jesuíticas por todo o Século XVI. No início do Século XVII, surge Galileu, que foi responsável por descobertas na física e em outras áreas. Ele detectou, através de suas observações, características que debilitavam aspectos do Sistema Ptolomaico; notou que havia crateras na Lua, anulando, assim, a ideia de esfera perfeita e, consequentemente, evidenciando falhas no modelo de Ptolomeu. Notou, também, que havia luas orbitando Júpiter, e que, enquanto Júpiter seguia sua tragetória, suas luas o acompanhavam. Isso não podia ser conciliado com o modelo de Ptolomeu, em que tudo orbitava a Terra.

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Modelo copernicano

O trabalho de Galileu foi bem recebido e bastante celebrado por homens da Igreja. Em 1610, o pe. Cristóvão Clávio o escreveu dizendo que seus colegas – jesuítas astrônomos – haviam confirmado suas descobertas feitas pelo telescópio. Galileu escrevera: “Fui recebido e favorecido por muitos ilustres cardeais, prelados e príncipes desta cidade”. Foi ouvido pelo Papa Paulo V, e teve um dia de atividades em sua homenagem, no Colégio Romano Jesuíta. Em 1612, pela primeira vez em impressão, ele disse que favorecia o sistema copernicano, ao menos no que se referia à posição do Sol.

Galileu acreditava no Sistema Heliocêntrico, e isto não lhe trouxe problema algum. Recebeu uma carta de congratulações sobre seu escrito referente ao Heliocentrismo (História e demonstrações em torno das manchas solares e dos seus acidentes), do futuro Papa Urbano VIII, então cardeal Maffeo Barberini. A Igreja argumentava que o modelo copernicano estava correto como modelo teórico, mas ainda carecia de ser provado como verdade literal. Mesmo após detectar crateras na Lua e notar o movimento das luas de Júpiter, Galileu ainda era incapaz de refutar o Sistema Ptolomaico ou provar o de Copérnico. A rotação da Terra e o heliocentrismo só vieram a ser comprovados experimentalmente em 1851, com o pêndulo de Léon Foucault.

Era impossível, também, na época, que a Paralaxe Estelar fosse detectada: o primeiro a fazê-lo foi Friedrich Wilhelm Bessel, em 1838. Diante disso, estaria fora do alcance de Galileu demonstrá-la, ainda que vivesse mais de cem anos. E foi justamente diante da impossibilidade de refutação do modelo de Ptolomeu, que começaram os problemas do caso Galileu. Insatisfeito em admitir o heliocentrismo apenas como teoria, continuou a afirmá-lo como verdade, e foi mais longe, sugeriu, ainda que sem base, que as Escrituras deveriam ser reinterpretadas. Aqui começaria o problema.

Jerome Langford, especialista no caso, diz: “Galileu estava convencido de possuir a verdade, mas não tinha provas objetivas para convencer os homens de mente aberta. […] Muitos eclesiásticos influentes acreditavam que Galileu devia estar certo, mas tinham de esperar por mais provas. Como é evidente, não é inteiramente correto pintar Galileu como uma vítima inocente do preconceito e da ignorância do mundo […], parte da culpa dos acontecimentos subsequentes deve ser atribuída ao próprio Galileu, que recusou qualquer ressalva e, sem provas suficientes, fez derivar o debate para o terreno próprio dos teólogos”.

O cardeal Roberto Belarmino comentou, na época: “Se houvesse uma verdadeira prova de que […] o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, então deveríamos agir com grande circunspecção ao explicar passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, e declarar que não as havíamos entendido, em vez de declarar como falsa uma opinião que se mostra verdadeira. Mas eu mesmo não devo acreditar que existam tais provas enquanto não me sejam mostradas”. Tal posição não era, de maneira alguma, intolerante. Qualquer pessoa racional do Século atual concordará que ceticismo é fundamental à ciência, e que não se deve acreditar sem provas.

“Em 1616, Galileu foi avisado que devia parar de sustentar a teoria copernicana como verdade, embora fosse livre para apresentá-la como hipótese. Galileu concordou e prosseguiu com os seus trabalhos”, escreve Thomas Woods. Em 1624, voltou a Roma, e foi novamente recebido com entusiasmo. O Papa Urbano VIII comentou com ele que não tinha declarado o copernicanismo como herético, e que nunca o faria. Porém, em 1632, Galileu publicou o Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo, em que ignorou a instrução de que o copernicanismo fosse tratado como hipótese. Pior que isso, ele escreveu o “Diálogo” como se fosse, mesmo, um diálogo, em que um dos personagens era um idiota: pois na boca do idiota, ele botou as opiniões do Papa.

Woods ressalta que “isso era típico de Galileu, que tinha uma natureza agressiva; irascível; uma personalidade que, às vezes, deixava a desejar. Foi à público algumas vezes para ofender quem discordava de algumas de suas ideias. E não havia sutileza na ação de utilizar a opinião do Papa colocando-a nas palavras do tolo, em seu diálogo”.

Galileu não podia provar sua teoria e havia um argumento contrário bastante forte: a mudança de paralaxe, que, como já dito, só foi detectada em 1838, período em que finalmente existira equipamento capaz de detectá-la; protestantes pressionavam os católicos, dizendo que era preciso seguir a Bíblia e que não se podia adotar novas interpretações sem que se tivesse uma boa razão; e somado a tudo isso, havia esse embate de personalidades ente Galileu e o Papa – o mesmo Papa que, anteriormente, havia elogiado Galileu, e que lhe garantiu que a Igreja jamais condenaria sua teoria. A igreja não estava se recusando a aceitar evidências, ou a aceitar a ciência. Pelo contrário, estava comprometida com as evidências.

Aceitar o Modelo Heliocêntrico, naquela altura, seria como se, hoje, todos os darwinistas passassem, sem mais nem menos, a admitir o Design Inteligente. Os mesmos cientistas que hora ou outra apontam a “intolerância” contra Galileu, seriam os mesmos a repreendê-lo sem que as provas suficientes existissem. É o que fazem com o Design Inteligente, porque ainda não há motivos para abandonar o darwinismo, e não se sabe se haverá. O fato é que a Igreja agiu corretamente, respeitando a ciência da maneira que ela precisa ser respeitada: com base nas evidências. Se a paralaxe e a rotação da Terra foram descobertas mais de cem anos após Galileu, como seria sensato e científico considerá-lo correto? Acusar a Igreja de ignorar as evidências não é exatamente o que fazem os neo-ateístas raivosos de hoje?

Parece que querem acusá-la por agir com ceticismo, quando fazem com outras teorias exatamente a mesma coisa. Se a Igreja tivesse aceitado o Heliocentrismo sem provas, a acusariam de anti-científica, mas como agiu com respeito às evidências, a acusam de repressora. O que fica claro é que, não importa a situação, querem sempre culpar a Igreja.

Há quem chegue ao ponto de dizer que Galileu morreu queimado na fogueira da Inquisição – mais uma das centenas de mentiras já relatadas ao longo deste texto. Galileu apenas foi detido, e possuindo muitos privilégios junto à cúria, em vez de ocupar uma cela, residia no apartamento do procurador fiscal, uma espécie de hospedaria do palácio do Santo Ofício, providência de excepcional deferência para um acusado de exceção.

Foi “condenado à penitência e a prisão perpétua, mas por ordem do Papa, em vez de ser encarcerado nas celas do palácio do Santo Ofício, pode imediatamente instalar-se na residência do embaixador e em seguida cumprir a pena sob a forma de prisão domiciliar em sua casa de Arcetri”, ressalta Fedeli. Galileu morreu em 1642, em sua cama, aos 77 anos de idade.

Vejam que curioso: por defender a ciência, deu-se a origem do mito de que a Igreja era hostil à ciência. É muito engraçado este mundo em que vivemos. Se por ventura a teoria de Darwin falhar, como falhou a de Ptolomeu, será justo que chamemos os darwinistas de opressores, inimigos da ciência ou culpados por impedir o progresso da humanidade? Tendo em vista o que dizem cientistas como Dawkins, é exatamente isto que deveria acontecer: culpar o cientista por praticar a ciência. Talvez aqueles que, hoje, perdem seus empregos por irem contra o darwinismo estejam sofrendo algo que o próprio Galileu nunca sofreu: intolerância religiosa.