Jean Guitton: Diálogo com Bergson

– Guitton, por que você acredita em Cristo?

– Mestre, que poderia eu dizer que você já não saiba e numa luz muito mais alta!

– Responda-me, Guitton. Não é para mim, é para você. A santa frisou bem que seria preciso que você mesmo respondesse. Guitton, por que você acredita em Cristo?

– Porque me é sempre difícil crer nele.Filosofo-Jean-Guitton-Portal-Conservador

– Explique-me isso.

– Nada mais simples. Sou um homem religioso. Estudei muito Plotino, fiz minha tese sobre ele. Na minha opinião, Plotino é o paradigma do homo naturaliter religiosius [homem naturalmente religioso], e até mesmo do homo naturaliter mysticus [homem naturalmente místico].

– Estou de pleno acordo com você.

– A religião natural é uma ascensão do homem para Deus. Ela propõe uma auto-realização do homem. Deus é uma meta, como o cume da montanha é uma meta para o alpinista.

– Isso não se encontraria também no cristianismo? São João da Cruz não fala disso na Subida ao Monte Carmelo?

– É verdade, Bergson. Apesar de tudo, no cristianismo, Deus se impõe. Não é que ele nos tiranize, mas, de qualquer forma, Ele entra em nossa vida sem nos pedir autorização. Nós gostaríamos de organizar tranquilamente nossa subida em direção ao Céu. Deus toma a liberdade de descer do Céu sobre a Terra.

– É melhor, não?

– De jeito nenhum. Fico muito contrariado pela conduta de Deus. Eu não lhe pediria tanto. Ele fez demais. Ele não fica no seu lugar. Não joga seu jogo.

– Ora, ora, você pensa assim. Minha natureza é diferente.

– Não é sua natureza, Bergson, mas sua cultura. Você é hebreu e impregnado de Deus há quatro mil anos até a medula dos ossos. Você acabou por achar normal que o Absoluto se misture sem cessar em seus negócios. Quanto a mim, sou de velha estirpe pagã e lhe garanto que me é muito difícil aceitar um Deus que não fique em seu lugar.

– E você pode dizer-me por que essa dificuldade em crer é para você um motivo de fé?

– Porque para mim é claro que eu jamais teria inventado uma tal religião. Certamente para você, que tem isso nos genes, por assim dizer, é natural situar-se na intuição e no dinamismo dessa vida religiosa; então, basta-lhe prolongar o movimento para antecipar, de certa maneira, a revelação plenária do Amor divino no Messias. Eu, porém, que não tenho absolutamente nada de judeu, asseguro-lhe que esta religião é completamenteinverossímil. Mas, aí está, não pude crer senão no inverossímil. Pois o verossímil não seria, segundo toda verossimilhança, senão um produto humano.

– Você me parece terrivelmente com o Sócrates pintado por Boutroux: livre-pensador e religioso. Explique-me um pouco mais sua dificuldade em crer em Cristo.

– Vejamos, Bergson, um homem que nasce de uma virgem, um Deus que se faz homem, é coisa fácil de se crer? O uso pode-nos fazer achar naturais afirmações estranhas, mas a reflexão nos arranca do torpor. Diante de tais enunciados, a primeira reação é de incredulidade. É a reação de todo espírito normal, equilibrado, natural, sensato, sadio. Do contrário, a gente acreditaria em qualquer coisa.

– Estou de acordo apenas em parte com você, Senhor Filósofo Católico e Livre-Pensador. Pois essas afirmações, das quais admito a aparência de estranheza, não são esquisitices quaisquer. Através delas, logo filtra-se uma espécie de claridade ou um tipo de perfume que nos inclina a acreditar nelas, a acreditar até mesmo com a  parte pura, serena e sensata de nosso ser intelectual. E assim é de fato, por mais estranhas que essas afirmações possam parecer. Existe um fato singular.

– Devo ter a sensibilidade mais seca e os sentidos espirituais menos afinados que você.

– Que pensa você, portanto, de tais enunciados?

– Que eles não são verdadeiros. Contudo, para mim, a dificuldade começa quando me pergunto em que categoria de erro convém classificar esses falsos enunciados. Penso: é uma lenda; ou ainda: é um mito. Não existe outra solução séria. A farsa, a intrujice, a leviandade, a loucura coletiva, ou ainda, a ilusão diabólica não se encaixam. Desproporção completa entre os efeitos e a causa. Não, se isso é falso, é lenda ou mito.

– Uma lenda, Guitton, não é um mito.

– Precisamente. Mas continua sendo verdade que o anúncio cristão, se fosse falso, não poderia ser senão ou um ou outro: ou um mito, ou uma lenda.

– Agora está claro. Então?

– Bergson, uma lenda é o resultado de um processo que parte de um fato que é submetido a uma elaboração fabulosa. A constituição de uma lenda exige antes de mais nada tempo. Ora, não cessamos de recuar no tempo a datação dos Evangelhos. Já não é totalmente excluído que não tenham existido algumas estenografias enquanto Jesus falava. A ressurreição, que é o fato central, aquele do qual todo o resto depende, é completamente originária na pregação cristã. Portanto, e quaisquer que sejam os inúmeros pontos discutidos ainda pelos estudiosos, o fato é que o tempo é curto demais. Os Evangelhos não podem ser uma lenda. Isso me parece doravante um ponto definitivamente fora de dúvida.

– Restaria o mito.

– O mito, Bergson, é algo totalmente contrário à lenda. O mito parte de uma idéia e, por um processo de figuração simbólica, chega a uma narrativa imaginária que expressa o sentido que a idéia traz ao espírito.

– O que você diz disso?

– Se você soubesse como me aborrece ter de responder isso a alguém que sabe! Tenho a impressão de estar fazendo os exames de licença ou de agregação. Já lhe contei sobre quando eu fazia as provas na Sorbonne com Bachelard?

– Não mude de assunto. Ademais, você já contou sobre isso em Um siècle, une vie [Um século, uma vida]. Não se repita, que será melhor. Fale-nos sobre o mito.

– Precisamente. A principal característica da literatura bíblica, comparada às outras do mesmo tempo, é que ela é devedora de uma mentalidade refratária ao mito. Podem-se encontrar aí ficções, romances, parábolas, mas não mitos. Falar de demitologização em relação à Bíblia é um contra-senso. O mito se inscreve em uma forma de pensamento que elimina o tempo: as narrativas míticas são simplesmente figurativas de uma realidade eterna, que é seu verdadeiro sentido. E a salvação advém, nesta perspectiva, quando se entra na compreensão atemporal do sentido dos mitos, quando se alcançam os conceitos para além dos símbolos. O sentido dos acontecimentos bíblicos, ao contrário, é inseparável de sua realidade histórica. “E Deus disse a Abraão”. Assim é que se começa. Deus disse. O sentido não está naquilo que vai ser dito, mas antes no fato de que Deus diga. O sentido não está mais na idéia de um Deus que fala, mas no fato de que Deus fala efetivamente. E a salvação não consiste em penetrar na idéia (ainda que verdadeira) de um Deus que fala, mas em escutar a Palavra efetiva deste Deus que efetivamente falou.

– Mas, ao exprimir-se assim, Guitton, você não está se condenando por si mesmo, você que é tão puramente intelectual, você que se contenta tantas vezes com entender, sem chegar a rezar?

– Isso prova que sou um mau cristão que não tem sequer a desculpa da ignorância.

– Você é humilde.

– Não, sou descritivo. Bergson, Deus diz. E se Deus não diz, a Bíblia não tem mais nada a dizer-nos. Ela não é sequer um mito. Ela é uma ficção que teríamos considerado histórica. Ela é uma inverdade. O mesmo vale para o anúncio evangélico, que, sob este aspecto, participa absolutamente desse mesmo pensamento hebraico. Imagine, portanto, que a história bíblica, ou evangélica, não seja verdadeira: não é mais nem sequer um mito. É um erro grosseiro. A Bíblia é, então, um texto religioso bem banal, bem inferior a todo texto místico. Sua superioridade não está ligada à sabedoria genial, às idéias, aos conceitos, às leis, às regras. A Bíblia se encontra bem acima de todos os mitos porque ela depende da verdade do acontecimento.

(e segue o diálogo com Bergson por mais 15 páginas, antes dos diálogos com Paulo VI, El Greco, De Gaulle, Sócrates e outros)

Jean Guitton, Meu Testamento Filosófico, Paulinas, págs 57-61

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