O julgamento das Bruxas de Salém

Comentário de John Ford Braüner: É interessante, quando da leitura de textos e artigos com base em estudos históricos, nos libertamos de “verdades institucionalizadas”; isto é, dos ensinamentos repassados pelo ensino fundamental e até mesmo pelo ensino superior à respeito do papel do Cristianismo na civilização ocidental. Em suma, a Cristandade não pode orgulhar-se da criação do Ocidente “porque cometeu milhões de crimes, e um exemplo típico é o caso das milhares de bruxas de Salém que foram queimadas pela Inquisição”. Sim, este é um trecho que escutei pessoalmente em uma aula ministrada por um “historiador doutor”. Mas daí quando me inseri em pesquisas a respeito do julgamento das Bruxas de Salém, percebi que além de não ter sido milhares (mas apenas 20 pessoas), nenhuma delas foram mortas em fogueiras, nem tampouco esteve a Igreja Católica envolvida neste episódio – e foi, a partir deste momento, que vi o quanto somos presas fáceis frente aos desonestos de todos os tipos.

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Ilustração de 1876 da sala de audiências.

Introdução

As ‘Bruxas de Salém’ refere-se ao episódio gerado pela superstição e pela credulidade que levaram, na América do Norte, aos últimos julgamentos por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts, numa noite de outubro de 1692. O medo da bruxaria começou quando uma escrava negra chamada Tituba contou algumas histórias vudus (religião tradicional da África Ocidental) a amigas, que, por esse fato, tiveram pesadelos. Um médico que foi chamado para examiná-las declarou que deveriam estar ‘embruxadas’. Os julgamentos de Tituba e de outros foram efetuados ante o juiz Samuel Sewall. Cotton Mather, um pregador colonial que acreditava em bruxaria, encarregou-se da acusação.

O medo da bruxaria durou cerca de um ano, durante o qual vinte pessoas, na sua maior parte mulheres, foram declaradas culpadas e executadas. Um dos homens, Giles Corey, morreu de acordo com o bárbaro costume medieval de ser comprimido por rochas em uma tábua sobre seu corpo até morrer, levando ao total 3 dias. Foram presas cerca de cento e cinquenta pessoas.

Mais tarde, o juiz Sewall confessou que pensava que as suas sentenças haviam sido um erro.

As principais testemunhas de acusação — que se diziam sob influência de bruxaria — foram Ann Putnam, Jr., Elizabeth “Betty” Parris, Maria Walcott e Abigail Williams.

Os casos de bruxaria em Salém teriam tido influência de drogas?

A vila de Salém era um lugar triste e sombrio no fim do inverno de 1692. Entre as imensas florestas e o mar vasto e calmo, parecia que o mundo estava se fechando para os colonos puritanos que habitavam a área. Duas tribos de nativos norte-americanos lutavam entre si em um lugar próximo. A varíola (em inglês) tinha começado a afetar a população de cerca de 500 pessoas. “Em 1692, era fácil acreditar que o diabo estava muito perto de Salém”, escreve o historiador Douglas Linder (em inglês). “Mortes repentinas e violentas ocupavam as mentes das pessoas”.

A estrutura social também estava sob pressão. Três novas gerações haviam nascido na vila desde a chegada dos colonos originais, cada uma delas aparentemente mais afastada da devoção séria e religiosa ao código bíblico que havia guiado os puritanos da Europa para a imensidão norte-americana. O plano original dos puritanos de criar um novo Jardim do Éden parecia estar dando errado.

Em fevereiro de 1692, o diabo, que na imaginação dos puritanos se escondia em cada sombra de Salém, finalmente apareceu. Os aldeões lutaram de maneira violenta e desenfreada contra ele.

Nove meses mais tarde, 37 pessoas estariam mortas por causa dos julgamentos de bruxaria. Elas seriam mortas pelos próprios aldeões, pessoas com as quais haviam crescido, trabalhado e que as conheciam pessoalmente.

Os colonos no Novo Mundo haviam sido examinados em busca de sinais de bruxaria e isso não era necessariamente raro. Mas nunca um grupo havia se comprometido dessa maneira com o que parecia ser uma loucura.

Isso não significa que os aldeões de Salém estavam clinicamente loucos no inverno de 1692. É impossível fazer essa afirmação, mas historiadores procuram respostas para esse acontecimento desde que ele ocorreu. Em 1976, uma historiadora sugeriu que talvez um alucinógeno natural tenha sido a causa de um dos momentos mais tenebrosos da história norte-americana.

Esporão do centeio: o LSD natural

Em fevereiro de 1692, Elizabeth Parris, a filha do novo pastor da vila, ficou doente sem nenhuma explicação. A menina de 10 anos começou a ter um comportamento estranho: ela gritava com seu pai, jogava-se pelo quarto e reclamava que sua pele estava sendo beliscada e picada. O médico local William Griggs ficou perplexo com os sintomas da garota e depois que as tentativas de tratamento falharam, ele declarou que o demônio estava influenciando a garota: ela estava “possuída”. Depois de um tempo, outras meninas na vila começaram a apresentar a mesma doença.

Como os puritanos acreditavam que o diabo trabalhava junto às bruxas, os moradores de Salém, que já estavam desconfiados, começaram a suspeitar uns dos outros. No centro havia Tituba, uma escrava barbadiana que trabalhava para o reverendo Samuel Parris, o pai de Elizabeth. Tituba e outros moradores foram acusados pelas garotas que estavam sofrendo ataques e convulsões.

Nenhum historiador chegou à conclusão de que realmente foi a bruxaria que causou as doenças nas meninas e existem várias explicações para as supostas possessões. Talvez a mais interessante seja a afirmação da historiadora Linda Caporael de que foi o envenenamento por esporão do centeio ou ergot que originalmente criou a histeria.

O esporão é o resultado de um alcalóide tóxico (e geralmente fatal para os humanos) que se desenvolve no centeio. Por séculos, os fazendeiros souberam da existência do alcalóide, ao qual chamavam de capim, mas pensavam que ele era inofensivo [fonte: Shelton (em inglês)]. Algumas pessoas acreditavam que o capim, que parece um grão inteiro e preto, era simplesmente um grão queimado pelo sol [fonte: Caporael (em inglês)]. No entanto, não era esse o caso.

Surtos de envenenamento por esporão do centeio já aconteceram em outros momentos da história e o caso mais antigo registrado aconteceu na Alemanha, em 857 d.C. A ideia de que o esporão do centeio estava causando uma doença horrível chamada Fogo de Santo Antônio apareceu em 1670, depois de uma investigação do médico francês chamado Thuillier [fonte: Universidade de Geórgia]. Mas apenas em 1853 Louis Rene Tulanse provou, sem deixar nenhuma dúvida, que esses capins estavam causando a morte agonizante de várias pessoas e animais.

O simples fato de se comer um pão contendo a farinha feita com o grão infectado pelo esporão do centeio podia ser suficiente para matar uma pessoa. O envenenamento por esporão do centeio pode se manifestar de duas maneiras:

ergotismo gangrenoso – causa queimação na pele, bolhas e apodrecimento das extremidades, que acabam caindo. A doença geralmente causa a morte da vítima;

ergotismo convulsivo – ataca o sistema nervoso central, causando loucura, psicose (em inglês), alucinações, paralisia e sensações de formigamento. Esses sintomas fizeram a historiadora Caporael lembrar dos sintomas apresentados por Elizabeth Parris, principalmente a loucura.

Registros feitos durante o ano de 1692 descrevem o comportamento que as garotas afetadas apresentavam. Ele tinha uma semelhança incomum com um estado alucinógeno, e o fungo contém isoergina, principal ingrediente da droga LSD. Será possível que Elizabeth Parris e as outras pessoas afetadas tenham comido centeio e contraído ergotismo convulsivo?

Esporão do centeio: realidade ou ficção?

Caporael não criou a sua teoria a partir do nada. A historiadora pesquisou a estação de crescimento do centeio, o grão em que o esporão parece crescer mais facilmente. Ela descobriu que houve um verão úmido em Salém, Massachusetts, antes do inverno de 1692 (o esporão se espalha mais facilmente em climas úmidos).

A historiadora também pesquisou onde as famílias das garotas que sofreram os ataques, considerados feitiçaria pelos aldeões, pegavam os grãos. As duas primeiras garotas afetadas, Elizabeth Parris e Abigail Williams, eram primas e viviam na mesma casa, então as duas teriam comido os mesmos grãos. Além disso, 2/3 do salário de quem cuidava das garotas (o reverendo Parris) era pago em produtos, como grãos, em vez de em dinheiro [fonte: Caporael (em inglês)]. Os Parris poderiam ter conseguido de fontes diversas os grãos que comeram.

A teoria do envenenamento por esporão do centeio parece explicar as aflições sofridas pelas garotas, mas a idéia foi contestada desde que foi apresentada em 1976. Alguns historiadores acreditam que seria possível que Elizabeth Parris, a primeira a garota a adoecer, tenha sofrido de alguma forma de envenenamento por esporão. No entanto, acredita-se que as outras garotas tenham aproveitado a oportunidade de afastar o tédio da vida colonial com uma farsa. Se isso for verdade, é difícil imaginar as reações delas quando os adultos tomaram as rédeas e começaram a enforcar seus vizinhos.

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Outros historiadores não acreditam que o esporão tenha alguma ligação com os julgamentos das bruxas em Salém. O Dr. Peter Hoffer, professor de história da Universidade de Geórgia levanta algumas questões: “Por que aconteceu apenas com as garotas e não com os outros?” ele pergunta. “Por que apenas em 1692, por que nada aconteceu nos anos anteriores ou seguintes?” Hoffer, que já escreveu muitos textos sobre os julgamentos de bruxas em Salém, é um dos que acreditam que as garotas que acusaram os vizinhos de praticar bruxaria estavam pregando uma peça nas pessoas. Independentemente da causa, quer tenha sido envenenamento por esporão do centeio, uma brincadeira de criança, uma vingança por injustiças do passado, uma tentativa de se apoderar de terras ou histeria coletiva, os julgamentos de bruxas em Salém representaram um período tenebroso da história norte-americana. Se não fosse pelas confissões confusas que a escrava Tituba fez quando foi interrogada, pelo diagnóstico de feitiçaria feito pelos médicos, ou pelo barril de pólvora que Salém era na época, se qualquer uma dessas coisas não tivesse acontecido, talvez os julgamentos não tivessem ocorrido. Mas tudo se uniu e criou um ambiente cheio de suspeita e de impulsividade imprudente.

Salém é visitada por Satanás

“É uma certeza que o demônio apresenta-se por vezes na forma de pessoas não apenas inocentes, mas também muito virtuosas.”
Rev. John Richards, século XV

Mister Parris, o pobre reverendo de Salem, estava exasperado. Betty, a sua única filha de apenas nove anos, acometida por uma série de estranhos espasmos, jogou-se petrificada sobre o leito, negando-se a comer. Naquela perdida cidadezinha, ao norte de Boston, não existiam muitos recursos além de um velho médico que por lá se perdera. Chamado para diagnosticar a doença, atestou para o aterrado pai que a menina estava era enfeitiçada e que nada lhes restava a fazer além de uma boa e sincera reza. A conclusão do doutor correu de boca em boca e em pouco tempo os pacatos habitantes do pequeno porto tomaram conhecimento de que Satanás resolvera coabitar com eles.

Simultaneamente outras garotas, as amiguinhas de Betty, começaram a apresentar sintomas semelhantes aos da filha do clérigo. Rolavam pelo chão, imprecavam, salivavam, grunhiam e latiam. Foi um pandemônio. Pressionado a tomar medidas, Parris resolveu chamar um exorcista, um caçador de feiticeiras, que prontamente começou sua investigação.

No século XVII, poucos punham em dúvida a existência de bruxas ou de feiticeiras porque uma das máximas daqueles tempos é de que “é uma política do Diabo persuadir-nos que não há nenhum Diabo”.

A inquisição

Inquiridas por Cotton Mather, que iria se revelar uma espécie de Torquermada americano, as garotas contaram que o que havia desencadeado aquela desordem toda fora uns rituais de vodu que elas viram Tituba fazer. Essa era uma escrava negra que viera das Índias Ocidentais, e que iniciara algumas delas no conhecimento da magia negra. Durante o último longo inverno da Nova Inglaterra, ela apresentara várias vezes os feitiços para uma platéia de garotas impressionáveis. Educadas no estreito moralismo calvinista e no ódio ao sexo que o puritanismo devota, aquele cerimonial animista deve ter despertado as fantasias eróticas nelas. Provavelmente culpadas por terem cedido à libido ou apavoradas por sonhos eróticos, as garotas entraram em choque histérico. Seja como for o caso, merecia ser ouvido num tribunal. Toda a Salem se fez então presente no salão comunitário.

O tribunal

Quando colocadas num tribunal especial, presidido pelo juiz S. Sewall, e inquiridas pelos juízes Corwin e Hathorne, as meninas começaram a apontar indistintamente para várias pessoas que estavam na sala apenas como curiosas. O depoimento mais sensacional foi o da escrava Tituba, que não só confessou suas estranhas práticas como afirmou que várias outras pessoas da comunidade também o faziam.

A partir daquele momento, a cidadezinha que já estava sob forte tensão se transformou. Um comportamenteo obsessivo tomou conta dos moradores. Uma onda de acusações devastou o lugarejo. Vizinhos se denunciavam, maridos suspeitavam das suas mulheres e vice-versa, amigos de longa data viravam inimigos. Praticamente ninguém escapou de passar por suspeito, de ser um possível agente do demônio. Não demorou para que mais de 300 pessoas fossem acusadas de práticas infames. O tribunal que entrou em função em junho de 1692 somente parou em outubro. Resultou que dezenove pessoas foram enforcadas.

O povo e a bruxaria

É certo que feitiços e envolvimentos com bruxas se perdem nos tempos imemoriais da humanidade, mas somente no século XV é que passou a ser considerado herético. Não parece ser possível acreditar que tal sentimento não correspondesse aos anseios mais profundos do povo, às fobias tenebrosas do homem comum. Keith Thomas, no seu monumental “Religião e o declínio da magia“, refuta existirem interesses econômicos nas perseguições, eis que a maioria das vítimas das caçadas era extremamente pobre, o que George Tindall confirma no seu capítulo sobre os acontecimentos de Salem.

É inquestionável que o povo acreditava sinceramente no maleficium, isto é, no dano causado pelas bruxas. Por um ou outro motivo, ele acumpliciava-se com as autoridades nas medidas tomadas para persegui-las e julgá-las. Na sociedade pré-iluminista, a existência do demônio era coletivamente aceita porque servia como uma explicação conveniente para acontecimentos estranhos, para as agressões injustificadas ao que lhes parecia inusitado, ao inesperado. Por outro lado, socorrer-se de feiticeiras e de bruxas sempre foi uma maneira de tentar influenciar pessoas ou coisas sobre as quais se tinha escasso poder.

A tentação do anonimato

É uma tentação irresistível poder fazer o mal a alguém sem correr riscos de ser descoberto. Arma do impotente, do covarde ou do fraco, o feitiço era uma maneira astuta de causar prejuízos a alguém odiado. A vítima, por sua vez, não tinha a mínima prova do que ou quem a mandou atingir. O malefício lançado contra alguém atuava igualmente como um poderoso instrumento de compensação psíquica largamente recorrido pelos desgraçados da vida. É uma forma, ainda que bem primitiva, de se alcançar a justiça. Os atos mágicos ou as seções endemoniadas, por sua vez, agem como anestesia aos padecimentos sofridos. De alguma forma, a possibilidade de ser atingido por um feitiço qualquer atua como um fator dissuasivo entre os poderosos. Um mandão, um prepotente, um déspota, poderia temer ser atingido por um “mau olhado” ou cair vitimado por poção encantada qualquer. Afinal eram as únicas coisas que os poderiam atemorizar, já que a justiça comum e mesmo Deus pareciam sempre estar do seu lado.

Os céticos frente à bruxaria

É sintomático esse medo das elites aos possíveis efeitos da bruxaria. O fato de que no influente Grande Catecismo do jesuíta Pedro Canísio, editado no século XVI, o nome de Satã aparecer 67 vezes, bem superior às dedicadas a Jesus. Mas deve-se a essas mesmas elites porém um freio às perseguições. Montaigne nos ensaios, de 1580, já ridicularizava esse tipo de coisa e na Inglaterra observou-se um número crescente de juízes que começaram a desconsiderar as sucessivas denúncias de bruxarias que chegavam às cortes, apesar de a legislação contra aquelas práticas só ter sido revogada em 1736. A perda do medo às bruxas também pode ser creditada à crescente expansão das luzes, aos avanços da razão, da educação e da lógica científica que culminaram na máxima “se não há diabo, não há Deus.”

O fim da caçada

Deteve-se a matança em Salem quando as denúncias envolveram figuras eminentes da colônia, tal como a esposa do governador de Massachusetts e o pastor Samuel Willard, presidente do Harvard College. Enquanto a arraia-miúda foi enclausurada, acusada de práticas escusas, poucos se indignaram. O basta naquilo tudo foi dado quando os dedos dos fanáticos ousaram apontar para a elite local. Ainda em oito de outubro de 1692, circulou uma carta redigida por um intelectual da região, Thomas Brattle, que se horrorizara com os enforcamentos, revelando a loucura coletiva que tomara conta dos aldeãos. Segundo Perry Miller, que estudou as idéias que circulavam pelas colônias americanas daquele século, a letter de Brattle teria sido o primeiro documento iluminista produzido na América do Norte, pois criticou veementemente os prejuízos do fanatismo religioso. Entre outras coisas, Battle escreveu: “temo que os anos não apagarão essa desgraça, esta nódoa que essas coisas lançaram sobre nossa terra.” E os processos dos endemoniados de Salem assim como começaram, num repente terminaram.

O macartismo

As perseguições às bruxas de Salem serviram, dois séculos e meio depois, como tema para que o teatrólogo Arthur Miller – sofrendo as intimidações feitas pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas do senador MacCarthy -, escrevesse a peça The Crucible (traduzida por nós como As bruxas de Salem). Encenada no início dos anos de 1950, eram evidentes as analogias que Miller fez entre os padecimentos da esquerda americana na época da Guerra Fria, com os tormentos sofridos pelos injustamente acusados em Salem.