O que pensa o historiador? Pt. 1

Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, onde esteve para participar do Seminário Comunicação e História, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro  com o apoio do Globo Universidade, Peter Burke [foto] concedeu entrevista exclusiva ao Globo Universidade, na qual discorreu sobre sua obra, sobre os caminhos que a escrita da História vem tomando na última década, além das novas possibilidades de estudo na área. Para ele, a História tem papel fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo.

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Globo Universidade – Você falou sobre a importância da história para entendermos o presente. Você poderia desenvolver um pouco mais essa ideia?

PB – Ela nos ajuda a entender algumas coisas e a começarmos a entender outras. É por isso que é importante reescrever a história a cada geração. Cada geração, vivendo os problemas do presente, começa a interrogar o passado sobre essas questões. Mas uma coisa é usar o presente para formular as perguntas, no entanto, é preciso deixar o passado dar suas próprias respostas.

GU – Sempre há uma linha tênue para que o historiador não encontre apenas o que originalmente saiu para buscar…
PB –
Exatamente, há sempre o risco do anacronismo. Embora eu acredite que haja — e isso pode ser uma heresia — um papel instrutivo para o anacronismo, porque é preciso fazer comparações com o presente para que possamos entender o passado. É preciso ficar lembrando as pessoas de que o passado não é como o presente, para que elas entendam por que aquelas pessoas agiam da forma que agiam, e às vezes fazer um paralelo com algum movimento moderno. Mas isso é apenas um estratagema de tornar as coisas mais fáceis de entender, porque depois de uma geração os anacronismos saem de moda. Quando eu era estudante, as pessoas gostavam de fazer comparações entre os calvinistas e os comunistas porque eram grupos bem organizados com uma missão bem clara no mundo. É claro que hoje não adianta fazer isso com os estudantes porque ninguém sabe mais onde estão os comunistas. É preciso achar um novo paralelo e, aceito isso, você (como historiador) entende que não está escrevendo para um futuro distante, mas sim tentando explicar as questões às pessoas de sua própria sociedade, e vai pagar o preço de ficar obsoleto, mas, de qualquer maneira, (escrever a história) é um empreendimento coletivo, levado adiante através das gerações. É um grande erro achar que você está escrevendo algo para ser lido para sempre.

GU – A que ponto você acha que se pode traçar uma linha hoje entre escrita histórica e escrita ficcional, e essa linha repousa sobre idéias do que é realidade ou não?

PB – É difícil traçar uma linha, não tanto porque historiadores estejam esquecendo de verificar suas afirmativas, mas porque os romancistas históricos não mais estão interessados em fazer pesquisa histórica. Então, a diferença é que quando não se pode encontrar prova de algo, os historiadores ou se calam ou dizem “agora tenho de especular”, enquanto o romancista se permite seguir adiante porque, afinal de contas, ele não reivindica estar escrevendo a história. Mas mesmo assim aprendo muita coisa sobre o passado lendo alguns romances históricos.

GU – Como a internet está afetando a escrita da história?
PB –
Mais obviamente quando se trata de checar pequenas informações que são relativamente bem conhecidas. Você está escrevendo um capítulo e não se lembra quando Charles Dickens nasceu. Em vez de levantar e pegar um livro, corto 50% do tempo usando o Google, e esse tipo de coisa é relativamente confiável. A Wikipédia é um empreendimento muito interessante porque ela não somente está colocando toda a informação na internet, mas é também um empreendimento coletivo de escrita de enciclopédias, e acho que isso é algo único na história das enciclopédias, e que qualquer um que queira pode participar. É claro que isso gera problemas, porque há colaboradores que não sabem tanto de história, ou usam as fontes de modo acrítico, ou têm preconceitos fortes — coisas que também acontecem nos livros — mas eles estão se organizando para cuidar desses problemas: abre-se um verbete e há avisos sobre a necessidade de se rever alguns pontos do artigo, ou de se fornecer referências para uma afirmação. Eles estão se tornando mais acadêmicos. De qualquer modo, a internet hoje é útil para checar informações, pois ainda é ínfimo o porcentual de fontes históricas disponíveis online. Esse é um trabalho que vai levar tempo. Eu costumava trabalhar com os arquivos italianos. Em apenas uma cidade da Itália, Veneza, há quilômetros de artigos sobre o século XVII. Quem tem tempo e dinheiro para pôr isso na internet? E quanto tempo vai levar? Por outro lado, há iniciativas muito interessantes. Acabei de escrever com minha mulher (a historiadora brasileira Maria Lúcia Garcia Palhares-Burke) um livro sobre Gilberto Freyre, e encontramos boa parte da correspondência dele num site organizado por seu neto.

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Ele estuda vários temas relacionados aos aspectos sociais e culturais da Idade Moderna. Ele é professor emérito da Universidade de Cambridge, na Inglaterra e tem uma ligação especial com o Brasil: além de ser casado com a historiadora brasileira Maria Lucia Garcia Palhares-Burke, sua parceira também na academia, ele passou um ano em São Paulo (1994-95) como professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

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