Por que o Protestantismo não Crê na Santidade?

A antropologia protestante, diferentemente da católica, não crê que o homem possa ser santo. E isso se deve a uma discordância substancial nessas duas concepções. Esse confronto, por sua vez, pode ser resumido nas ideias de dois autores: Santa Teresa d’Ávila e Martinho Lutero, ambos do século 16. Em sua obra Castelo Interior, em que se apresenta ao leitor uma comparação da alma humana com um castelo ou, para usar uma expressão do livro, sete moradas, Santa Teresa afirma que, no centro do coração do homem – a sétima morada, por assim dizer -, habita a Santíssima Trindade, cujo brilho de sua luz só é encoberto pelo pecado. A fraqueza humana, escreve Santa Teresa, seria como que um véu a acobertar a grandeza da alma. Martinho Lutero, por outro lado, desenvolve um pensamento mais pessimista. No seu comentário à Carta de São Paulo aos Gálatas, ele descreve o homem como um pecador empedernido. A natureza humana, portanto, seria corrupta até o seu cerne, tendo a fé o papel de justificá-la perante Deus. Resta-nos, então, duas realidades extremamente opostas. A primeira considera o gênero humano como sendo bom e precioso aos olhos de Deus; já a segunda tem para si o homem como um ser ruim, em cuja fé encontra-se a única maneira de justificar-se diante de Deus.

O ensinamento de Santa Teresa encontra eco em toda a Tradição Católica, embora também seja originário de suas próprias experiências místicas. O livro Castelo Interior, escrito por volta de seus 60 anos de idade, pode ser considerado a grande obra-prima da santa, mormente por apresentar importantes reflexões sobre a realidade da alma humana. Teresa a considera como uma jóia preciosa, e faz isso por dois motivos bem específicos: primeiro, porque o ser humano foi criado “à imagem e semelhança” de Deus; segundo, porque nosso interior seria como que o jardim das delícias de Deus. Ao comentar um trecho do livro de Provérbios, Santa Tereza explica que Deus gosta de habitar na alma dos justos e que, por isso, a Santíssima Trindade faz de nosso coração a sua morada predileta (Cf. 8, 31). Quando pecamos, no entanto, colocamo-nos alheios ao nosso coração, diz Santa Teresa. O castelo – que seria a nossa alma – fica vazio, uma vez que o nosso pecado nos expulsa de nós mesmos. Ocorre uma alienação, o homem perde sua própria identidade, indo morar no fosso do castelo, morada de animais peçonhentos e traiçoeiros – isto é, as nossas más inclinações. Com efeito, para que possamos adentrar ao castelo e atingir a sétima morada, temos de rezar, o que, na linguagem da santa de Ávila, significa relacionar-se amorosamente com Deus.

A filósofa e irmã carmelita Edith Stein, canonizada em 1998 pelo Papa João Paulo II, como Santa Teresa Benedita da Cruz, certa vez se questionou sobre os escritos de Teresa d’Ávila, argumentando se seria possível que os psicólogos não tivessem acesso à própria alma. Edith Stein não conseguia compreender o raciocínio de Santa Teresa, uma vez que a psicologia tinha justamente o papel de conhecer a alma humana. Até que, finalmente, a futura irmã carmelita compreendeu que, de fato, somente por meio da oração podemos alcançar o conhecimento de nossa identidade. A psicologia não tem condições de compreender todo o mistério da humanidade, pois sua profundidade, embora apresente importantes contribuições para a ciência, não chega à medula do homem. Fica-se somente no fosso do castelo. E esse é o erro tanto da psicanálise quanto da teologia luterana[1]. Se fosse verdadeiramente um místico, Martinho Lutero teria entrado em contato com a profundeza de sua alma, teria compreendido o sol que erradia do Deus que habita nela, teria descoberto a Santíssima Trindade.

O erro fatal da antropologia de Lutero é não reconhecer que o homem é capaz de amar a Deus, de participar deste mistério. A teologia luterana alcança somente uma parte do nosso ser. E, desprovida da profundidade da mística dos santos, enxerga-o de maneira inexata. Os santos como Santa Teresa d’Ávila, por sua vez, compreendem o íntimo de nosso ser, pois sabem que o que nos afasta de Deus não nos determina. A nossa identidade é precisamente outra. É aquela que se encontra em nosso âmago, no mais profundo da nossa alma: Deus, a Família Trinitária. Os pecados são os animais que tentam nos manter fora do castelo, nas primeiras moradas, impedindo-nos de corresponder à nossa vocação última: a santidade. Lembra-nos o Concílio Vaticano II: “Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado.”[2]

E para que essa perfeita santidade se torne realidade em nossas vidas, é preciso entrar no castelo.

Referências

[1] Padre Paulo Ricardo, Por que os psicanalistas não acreditam na castidade, A Resposta Católica, n. 203
[2] Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 42