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E o tempo levou.

“Criticar o mundo moderno em nome de um mundo que passou, por melhor que tenha sido, é literalmente uma forma de culto da História, tão condenável quanto o culto que lhe prestam progressistas de toda sorte. É por isto que não creio na crítica ao mundo moderno em nome da Igreja Católica ou de um tempo passado, mas somente em nome da verdade, trazida pela consciência individual, sua única portadora. Ela que fundamentará qualquer fala, a favor ou contra qualquer coisa.” – Bruno Tolentino.

Segundo Hannah Arendt, a fama e a glória são o que permitem ao homem marcar, de forma definitiva, a História. No entanto, tanto a fama quanto a glória podem ser passageiras, momentâneas não conferindo ao seu portador, algumas vezes, a certeza da eternidade. Poucos serão lembrados por muito tempo. Poucos serão lembrados para sempre.

Sunset BLVD (1950) e What Ever Happened to Baby Jane? (1962) são dois filmes que versam sobre esse tema. Os efeitos da fama, sua consequente perda, o esquecimento e o processo de negação da situação atual, em nome de um passado glorioso.

Se o revolucionário abdica do presente em nome de um futuro hipotético, as personagens principais desses dois longas-metragens abdicam do presente em nome de um passado honrado.

No primeiro, encontramos a personagem Norma Desmond, uma famosa atriz do cinema mudo, que acabou não se adaptando às novas tecnologias do cinema falado, caindo no ostracismo. Encastelando-se com seu mordomo, ao ver Joe Gillis bater à sua porta informando ser um escritor, acredita que voltará a ficar sobas luzes dos holofotes.

Mostra a ele seus manuscritos de um roteiro de cinema que contará a vida da princesa Salomé que, ao dançar e encantar o Rei Herodes, obtém como prêmio a cabeça de João Batista em uma bandeja. O filme será mudo e contará com Norma na maior parte das cenas.

Ocorre que, com o passar do tempo, Norma apaixona-se por Joe e passam a viver juntos. Depois de acreditar que terá seu filme gravado pelos estúdios da Paramount, acaba descobrindo um caso extraconjugal por parte de Joe, o que culmina em uma briga.

Nesta discussão, o escritor revela à atriz que este filme jamais será gravado, que ninguém mais se recorda da figura de Norma e que as cartas que recebe não são de fã, mas sim do mordomo que as redige e também se encarrega de depositá-las nos correios. Depois da discussão, Joe resolve partir, mas Norma acaba matando o companheiro em seu jardim com três tiros.

Nos últimos minutos do filme, enquanto é acompanhada para fora de sua mansão pela polícia, Norma tem seu último delírio, acreditando estar na cerimônia de premiação de seu filme sobre a princesa Salomé ou num set de gravações, completamente alheia ao crime que praticara.

Baby Jane, personagem que dá título ao segundo filme, também se revolta contra o presente e resolve viver no seu grandioso passado. Quando criança era uma personalidade infantil dos teatros, cantando uma canção dizendo “i’ve writter a letter to Daddy / His adress is heaven above”. Na adolescência, Jane sofre com o sucesso obtido pela irmã nas telas de cinema, acabando por viver à sua sombra, até que um trágico acidente de carro faz com que irmã fique paraplégica e Jane tenha de cuidar dela até a velhice, selando o destino de ambas para sempre.

O ostracismo faz com Jane desenvolva alguns problemas psicológicos. Além de cantar constantemente a música com qual fizera sucesso em seus áureos tempos, ocasionalmente, vestia-se com a roupa naquela época, indignando-se com aqueles que não se lembravam de Baby Jane Hudson.

Assim como Norma, Jane nega a estrutura da realidade e refugia-se em um passado consolador. Ambas as histórias nos dão uma lição importante: se o homem é ele e suas circunstâncias, nas palavras de Ortega Y Gasset, os que se esquecem do presente e vivem no passado acabam por perder o sentido de sua própria existência.

O conservador não é aquele que renega o presente e consola-se num passado distante, mas aquele que projeta o seu futuro e age no presente, levando em consideração os erros e acertos cometidos no passado. Ter consciência dos atos transcorridos e assumir a responsabilidade por eles é o que se chama “carregar a própria cruz”, como nos ensina Olavo de Carvalho. Reclamar do mundo moderno em nome de um passado que sequer foi vivenciado por aquele que o louva é apenas imaturidade e/ou fuga da realidade.

Escrito por Guilherme Stumpf.

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