A força de 1,5 milhão de devotos marianos em todo o Brasil

Ao longo da história, foram muitas as iniciativas de homens que se reuniram para recitar o Terço. No Brasil, o primeiro registro do movimento do Terço dos Homens data de 8 de setembro de 1936, no povoado Vila da Providência, em Itabi (SE). A ideia foi de um frade franciscano, o Frei Peregrino, de Penedo (AL), que fazia um trabalho missionário em municípios sergipanos.
Desse primeiro grupo, participavam 220 homens. Um deles era Antonio Menezes, que morreu em 2011, aos 90 anos.

“Todos os sábados, o Frei Peregrino fazia o sermão no Santuário e, depois, chamava os homens para fazer um sermão só para nós. Só podia entrar quem tinha mais de 16 anos. Como eu já tinha essa idade, pude entrar. Depois de alguns encontros, ele nos perguntou se gostaríamos de fundar o Terço dos Homens. A partir daí, começou o movimento”, contou Antonio Menezes, em um histórico depoimento registrado em vídeo. O Terço dos Homens espalhou-se por Sergipe e chegou a Pernambuco, mais precisamente ao Santuário da Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt, em Recife, de onde foi propagado para o restante do País.

DEVOÇÃO MARIANA

O Terço dos Homens não é a primeira iniciativa devocional mariana protagonizada por homens na Igreja. No passado, foram diversos os grupos que surgiram na forma de confrarias, federações, pias, uniões e associações. Um dos mais famosos foi a Congregação Mariana, fundada pelos jesuítas em 1563, em Roma.

Inspirados em Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, os congregados marianos faziam um ato de consagração a Nossa Senhora, tornando-se como um “cavaleiro de Maria”, na defesa da fé, em uma época em que se difundia o protestantismo.

A Congregação Mariana chegou ao Brasil em 1583, no Colégio dos Jesuítas da Bahia, em Salvador, sob a responsabilidade de São José de Anchieta.

Com o crescimento do Terço dos Homens no País, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) designou Dom Gil Antônio Moreira, Arcebispo de Juiz de Fora (MG), como referencial deste movimento (leia entrevista com o Bispo na página 16), que atualmente tem cerca de 1,5 milhão de membros em todo o Brasil.

Que nenhum homem reze sozinho

Pietro, 4 anos, brincava enquanto todos entoavam a canção “O Terço”, de Roberto Carlos. A ingenuidade de quem ainda não compreende o sentido desta oração estava a apenas um banco de distância da experiência de Zezinho, 93, que segurava com mão firme o seu Terço.

As duas gerações se encontram todas as quartas-feiras, das 20h às 21h, na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, no bairro de Pirituba, Região Episcopal Lapa. Formado em 5 de maio de 2016, este grupo é reconhecido pelo número expressivo de frequentadores. Os encontros sempre começam com a leitura das intenções do Terço, com base nas preces trazidas pelos participantes.

Valter José Lourenço, coordenador do movimento no local, afirmou que sua principal atribuição é zelar para que nenhum homem reze sozinho, uma vez que as dezenas são pronunciadas de forma coletiva, em um revezamento entre os bancos. Esse formato, segundo ele, foi pensado para estimular novos leitores para a Paróquia. O grupo também inspira outros serviços pastorais, como o dos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão.

No começo, de 30 a 35 homens participavam, mas a intensa divulgação, sobretudo nas missas, e o apoio do Padre José Pedro Batista, Pároco, fizeram com que o número crescesse, chegando à média de cem pessoas por encontro. As mulheres, por sua vez, são exortadas a incentivar seus maridos a participar dos encontros do Terço dos Homens.

“O maravilhoso do Terço dos Homens é a interação total com a Igreja, é uma realidade mundial, e sua tendência é ser ainda maior. Nós temos essa esperança!”, disse o coordenador paroquial.
Edson Teixeira frequenta a Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, da Diocese de Osasco (SP), onde também participa do Terço dos Homens, mas sempre reza com os amigos todas as quartas-feiras na igreja em Pirituba.

Jorge de Oliveira rememorou que a criação do grupo na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora se deve à experiência de comunidades próximas. Para ele, o principal não é a igreja estar cheia: o essencial neste grupo é a devoção a Nossa Senhora e a confiança em sua intercessão.

José Nicolino do Nascimento conheceu o Terço dos Homens quando se reaproximou da Igreja Católica. Seu filho, Eliudes, que tem síndrome de Down, sempre o acompanha. José acredita que o Terço na igreja em Pirituba o ajuda a ser um pai melhor e trata os encontros do grupo como prioridade.

‘SOMOS ESPELHOS’

No ano 2000, por incentivo do Padre João Batista Dinamarquês, na época Pároco da Paróquia Sagrada Face, na Região Episcopal Belém, formou-se um grupo com 25 homens, que, semanalmente, reuniam-se para rezar o Terço, meditar o Evangelho e partilhar experiências cotidianas. Em 2016, ao perceber o crescimento do Terço dos Homens em paróquias vizinhas, o grupo decidiu tomar para si a missão deste movimento.

Os encontros ocorrem sempre na primeira quinta-feira de cada mês, às 6h. Segundo Laércio Pires, nunca na história do grupo existiu a presença de um coordenador, pois todos se organizam voluntariamente e fazem os encontros acontecerem.

“Nós sempre lembramos que somos espelhos. As pessoas que nos encontram no mercado, na feira ou em outros lugares do bairro nos observam. Estamos sempre dando o exemplo, pois somos parte de um grupo de oração da Igreja, e a oração nos transforma por dentro”, salientou. Com a reza do Terço, em seu entender, é possível que ocorra uma mudança no comportamento paterno e familiar. Ele recordou que muitos homens se emocionam enquanto pedem, em oração, a intercessão para o sofrimento e condições difíceis dos filhos.

ENGAJAMENTO PAROQUIAL

Na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América, Região Episcopal Sé, o grupo do Terço dos Homens surgiu em outubro de 2015. Inicialmente, eram dez membros, hoje são cerca de 50 homens que se reúnem todas as terças-feiras, às 20h.

“No Terço, temos amigos de fé que se encontram para rezar, e isso gera muita conversa positiva e um maior engajamento na comunidade. Embora a maior parte seja de paroquianos, o Terço foi instrumento para muitos casos de conversão, pois os membros trazem outros amigos”, explicou Luiz Conrado, coordenador do Terço dos Homens na Paróquia.

Na primeira terça-feira de cada mês, é realizado o Terço com todas as famílias, seguido de confraternização. Na semana seguinte, acontece uma reflexão preparada pelo Padre Michelino Roberto, Pároco. A última terça-feira é dedicada a orações pelos falecidos. O grupo também realiza, periodicamente, a adoração ao Santíssimo Sacramento.

Um dos momentos marcantes do grupo foi a organização de uma procissão luminosa, em 2016, que levou às ruas do bairro a imagem peregrina de Nossa Senhora das Graças. Desde então, a procissão se repete anualmente. Os membros também são muito engajados e costumam estar na organização da Semana Santa, do Tapete de Corpus Christi e de outros eventos paroquiais.

“Rezar o Terço diariamente é um ato de piedade, pois a devoção a Nossa Senhora é algo grandioso. O fato de rezar toda semana em grupo reforça essa prática na caminhada de fé”, ressaltou Conrado, destacando que a presença nos encontros gera mudanças positivas também na relação familiar.

TRANSFORMAÇÃO DE VIDAS

Na Paróquia Nossa Senhora do Loreto, na Vila Medeiros, Região Episcopal Santana, todas as segundas-feiras, às 20h, aproximadamente 50 homens se reúnem para reza do Terço. O grupo surgiu em março de 2014, com o objetivo de envolver os homens na comunidade paroquial e reunir as famílias.

“Nós percebemos uma grande mudança nos homens que participam, pois muitos tiveram a graça de deixar seus vícios. Já ouvi muitos depoimentos de mulheres relatando que os maridos tiveram uma grande transformação”, disse Edmar da Silva, um dos coordenadores do movimento na Paróquia.

Como gesto concreto, é realizada mensalmente a arrecadação de alimentos para as famílias carentes assistidas pela comunidade. Também há a reza do Terço nas residências. “Quando alguma família está necessitando de oração ou enfrentando uma enfermidade, rezamos nas casas. Nós trabalhamos muito esse relacionamento, buscando estar atentos às necessidades dos nossos irmãos”, declarou.
Silva assegurou que, depois que começou a participar do movimento, sua vida se transformou: “Passei a ser uma pessoa melhor, pois penso muito mais na minha família. Outro diferencial é a intimidade criada com os amigos do Terço, que se tornam verdadeiros irmãos”.

Aos pés da Mãe Aparecida

80 mil participantes do movimento em todo o Brasil foram ao Santuário Nacional de Aparecida, entre os dias 14 e 16, para participar da 12ª Romaria Nacional do Terço dos Homens, com o tema “Terço dos Homens: fonte de graças” e o lema “Confiantes como Maria”.

Além das missas realizadas ao longo desses dias, os romeiros participaram de procissões luminosas, adoração ao Santíssimo Sacramento, vigílias e partilharam suas experiências de fé em Deus e de devoção a Nossa Senhora.

“Em 2011, eu sofri um acidente de moto grave, passei dois meses e 15 dias no hospital e, infelizmente, tive que amputar a perna. No decorrer da recuperação, eu tive várias turbulências, pois eu não aceitava a minha situação. Foi no Terço dos Homens que encontrei a libertação e onde eu obtive uma direção. Faz um ano e dois meses que participo do grupo do Terço e lá estou encontrando um novo meio para viver. Para mim, está sendo a salvação”, testemunhou Gabriel Antonio Lopes, de Pontal (SP), durante a oração do mistério luminoso, no interior da Basílica de Aparecida, no sábado, 15.

Jornal O SÃO PAULO. Arquidiocese de São Paulo-SP.

Comentários

0 Comentário

Escreva um comentário




*