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Como é a sensação de descobrir ser portador da Síndrome de Asperger?

Há uma tendência, no mundo moderno de massa, no qual a globalização tende a padronizar ou mesmo sufocar as culturas tradicionais humanas, do indivíduo médio procurar ser distinto ou de sobressair dos demais. Portanto, sai à busca de qualidades ou condições que lhe permitem de certa forma, ressaltar sua individualidade. Isto fica ainda mais evidente com a divulgação de certas síndromes, como a de Asperger [1], por programas de massa, a exemplo do personagem Sheldon na famosa série The Big Bang Theory. Há como que se houvesse uma romantização da síndrome. Acredite, se por pesquisas individuais (notadamente, na rede mundial de computadores) você “encontrou” ser portador da síndrome (por apresentar algumas características comuns aos aspies) e ficou em estado de êxtase ou de felicidade por essa nova descoberta, ao ponto de contar rapidamente a família e amigos, é porque você provavelmente não é portador da Síndrome e não tem a menor ideia de como é viver com essa limitação física e psicológica. Detalhe, o que aqui apresento não é uma conceituação médica dogmática e oficial, mas um relato subjetivo e parcial desse transtorno do espectro autista.

Indivíduos aspies são retratados, geralmente, pela sociedade como indivíduos extramente inteligentes ou como sendo “quase gênios”, e nada mais nada menos as grandes figuras da ciência moderna seriam portadoras desta síndrome. Leonardo Da Vinci e Albert Einstein, por exemplo, são um destes dois grandes titãs comumente apontados como paradigma da realidade aspie. Não vou adentrar aqui no mérito da questão – do fato de terem ou não sido aspies – mas é importante que se diga que o portador da síndrome pode ser um indivíduo extremamente inteligente ou de QI acima da média (como em realidade, muitas vezes, o são) mas também tende a ser uma pessoa extremamente limitada não apenas socialmente mas definitivamente, intelectualmente, porque tende a valorizar apenas certas áreas do conhecimento em detrimento de outras igualmente importantes.

Geralmente são obsessivos e focados em certos temas, ao passo que tendem a excluir por completo qualquer conhecimento na área marginalizada – a que não tem interesse. Se lhe permite ser um especialista sobre alguma área do conhecimento, como por exemplo mecânica ou física nuclear, o aspie pode ser obsessivo por temas completamente inúteis – ou pelo menos que não são valorizados numa sociedade industrial capitalista. Então, muito provavelmente, ele não compreenderá, a princípio, a razão pelo qual os demais membros da sociedade não valorizarem sua área de interesse ou suas habilidades específicas – e isso lhe pode soar como sendo incompreendido ou subvalorizado pela sociedade, ao ponto de não dificilmente, apresentarem quadros depressivos. Conjuga-se à isso o defeito inato irremediável para a interação social humana e temos a receita completa para o desastre. Por isso que o acompanhamento psicológico na mais tenra idade é absurdamente necessário, para indicar-lhe um bom caminho e proporcionar-lhe conforto, moldando-o e auxiliando-o a conviver mais razoavelmente com a síndrome.

A Síndrome de Asperger ganhou este nome em homenagem a Hans Asperger (1906-1980), um famoso psiquiatra e professor austríaco, especialista nas pesquisas envolvendo o autismo infantil. Na década de 1944, Asperger publicou um estudo denominado “A psicopatia autista na infância” e retratou algumas crianças com desordem na personalidade, uma vez que apresentavam “falta de empatia, baixa capacidade de formar amizades, conversação unilateral, intenso foco em um assunto de interesse especial e movimentos descoordenados.” A grande distinção entre o “autismo tradicional” e a síndrome – que em verdade, pertence ao espectro autista – é que no último não há o comprometimento à nível intelectual ou verbal sendo, pelo contrário, indivíduos em geral muito mais inteligentes, como já dito. Entretanto, os aspies apresentam uma dificuldade de interação social e empatia, como nos autistas em geral.

Assim que descobri ser portador da síndrome de Asperger, e isto ocorreu no alto dos meus vinte e três anos, meu estado não foi o de felicidade – mas em verdade, o de desapontamento. Porquê finalmente pude descobrir a razão de me sentir tão deslocado socialmente e intelectualmente, e entender que não há uma cura para o meu mal interior que não o unicamente da aceitação. Tenho a constatação, aliás, de que essa dificuldade de aceitar minha condição me acompanhará até o resto dos meus dias. Não há nada de romântico ou de glorioso em ser aspie, e quem não é portador jamais compreenderá decentemente o quanto à condição asperger limita o nosso ser e nos põe de joelhos. Claro, definitivamente, podemos ser doutores ou especialistas em história, teologia ou o Direito (já sou formado em duas das três áreas de interesse), por exemplo, e isto pode a vir nos proporcionar conforto e um certo grau de aceitação acadêmica, mas isto jamais nos proporcionará felicidade ou nos ajudará a ser uma pessoa definitivamente “normal”, no sentido de encarar as interações humanas com tranquilidade e nenhum desconforto. A maioria dos portadores aspies, entretanto, jamais serão diagnosticados, devido à dificuldade mesma do diagnóstico, uma vez que esta envolve o acompanhamento quase sempre conjunto de diversos profissionais especializados, como pediatras, neurologistas e neuropsiquiatras, bem como a formação e preparação acadêmica para compreender bem o quadro. O diagnóstico de Asperger por exemplo, só foi incluída no DSM em 1994 pela Associação Americana de Psiquiatria. Ainda é muito comum que profissionais formados nessas áreas ainda não estejam habilitados para o seu correto diagnóstico, identificando apenas um autismo de nível mais grave e severo, uma vez que seus sintomas são por demasiado evidentes.

A timidez excessiva é um traço gritante do asperger; mas, muito mais além: não entendemos bem as feições e reações humanas e normalmente somos indivíduos dotados de empatia extremamente limitada, geralmente desvalorizamos como que completamente as preocupações e necessidades alheias, ao ponto de significar, continuamente, uma dificuldade gritante em manter relacionamentos produtivos. É comum que nos sintamos desconfortáveis até mesmo com bebês ou crianças por perto, porque não sabemos como se conectar com elas, ou lhe proporcionarem atenção e carinho adequados. Não sabemos consolar ou mesmo conceder palavras de conforto. Nosso sorriso às vezes pode parecer mecânico. Temos um estoque limitado de reações, e comportamento bastante estereotipados. Quando criança, por exemplo, eu preferia a presença de adultos ao de amigos da mesma turma ou idade, então era bastante comum que eu me isolasse no contato com elas, brincando sozinho, num agir metódico e organização ímpar. Era obcecado por brinquedos medievais ou soldadinhos. Ao longo da minha vida tenho sido visto pelas demais pessoas como sendo extremamente mal-educado, frio e arrogante, embora nunca fosse do meu intento me expressar assim. Muito comum também em aspies tecerem comentários inapropriados em certas ocasiões sociais, faltando-lhes tato ou o bom entendimento das dinâmicas de viver em sociedade. Como adulto, tendo a me policiar ao que deve ou não ser dito, pois é de padrão ofender as demais pessoas, sem que seja em si mesmo um ato consciente. Também apresentamos outras características específicas, como uma auto-estima muito deficitária, se esquivar de contato físico com pessoas desconhecidas (e mesmo familiares!), complexos ou paranoias. Estar num campo aberto ou num estádio de futebol, por exemplo, é ter a sensação de estar com os holofotes em si mesmo – quando estão todos, apenas, a observar a mera partida. Estamos continuamente imiscuídos com a sensação de estarmos sendo vigiados, analisados ou medido pelas demais pessoas, em todos os momentos, como em um eterno Big Brother [2].

Geralmente a síndrome é acompanhada de outras “pequenas condições” como que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), um certo grau de perfeccionismo, quadros de ansiedade generalizada, hipersensibilidade a certos estímulos sensoriais, depressão. O último, em especial, é o que permitiu aos meus familiares tomarem conhecimento da minha portabilidade da síndrome de Asperger, posto que a depressão agravou diversas das minhas características aspies, principalmente a interação social, que já era muito baixa, ser reduzida ao nível de duas ou três pessoas. É possível sim, viver normalmente com a síndrome, e isto vale dizer, ter uma família e um número restrito de amizades, trabalhar, praticar esportes (ainda que muito limitados, posto que aspies apresentam uma coordenação motora mais desestabilizada), ir em busca de realizações pessoais, namorar ou casar. Mas as dificuldades de interação social sempre estarão presentes. Simples apertos de mão e contato corporal, como abraços e beijos, parecem extremamente invasivos ao indivíduo aspie, é necessário haver uma integração razoavelmente forte com outra pessoa para tanto. A dificuldade de manutenção do contato visual também é um traço marcante dos aspies.

Notas do Autor: [1] Estou ciente de que na atual edição (de número 5) do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou simplesmente DSM-5, não esteja mais presente a terminologia “Síndrome de Asperger”. Ocorre que, por motivação essencialmente política, sobretudo, a síndrome esteja sendo diagnosticada conceitualmente como que meramente incluída no “transtorno do aspectro autista”, uma vez que o asperger pertence realmente ao espectro autista sendo, entretanto, um quadro de intensidade média ou leve, ao ponto de indivíduos asperger poderem transitar com tranquilidade na sociedade sem despertarem maiores questionamentos, a princípio. [2] É um programa televisivo ou reality show que ficou famoso essencialmente na Inglaterra e no Brasil. A expressão “Grande Irmão” surgiu com o livro “1984” do filósofo George Orwell, que retrata mecanismos de controle social conquistados com o aprimoramento da tecnologia humana, em sintonia com o crescimento do poder estatal.

Comentários

2 Comentários

  1. Marcelo Napolioni disse:

    Estou pesquisando sobre essa síndrome porque suspeito de que eu seja portador. Até o momento percebi que tenho muitas das características descritas por pessoas que foram diagnosticadas com a síndrome.

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