O Espírito das Cruzadas

“Tomai o caminho do Santo Sepulcro, certos da glória imperecível que vos espera no reino de Deus. Que cada um renuncie a si mesmo e tome a Cruz”! Data de 18 de novembro de 1095 o apelo de Clermont, enunciado pelo Papa Urbano II. Este imperativo religioso, esta obrigação moral, uniu inimigos políticos, reuniu reinos adversários, suspendeu guerras entre soberanias, aplacou fações e famílias desavindas, aderiu forças oponentes e associou monarcas antes irreconciliáveis. Némesis no plano natural, juntaram-se numa fraternidade sobrenatural. Relatam as crónicas que por esses dias naquela cidade francesa acabou o pano vermelho com que os francos faziam a cruz nas suas capas. Houve quem tatuasse ou mesmo marcasse a fogo na pele uma cruz.

Como qualquer empreendimento humano, teve os seus aproveitadores, usurpadores, loucos e assassinos: teve os seus Reinaldo de Châtillon, Boemundo, Guy de Lusignan. Acima de tudo, contou com homens admiráveis e santos como Godofredo de Bulhões, Balduíno IV, São Luís, São Bernardo. Compareceram igualmente, como de resto não poderia deixar de acontecer numa sociedade orgânica como a medieva, as diversas camadas da população anónima – a primeira manifestação deste fenómeno foi batizada muito apropriadamente de A Cruzada Popular (impulsionada em grande medida pelas palavras enfáticas do barbudo de cabelos longos e andrajosamente vestido Pedro, o Eremita; outro dos seus líderes foi um tal de Gautier-sans-Avoir, que como o sugestivo apelido deixa transparecer, não passava de um cavaleiro indigente). Anteriormente, já os papas Silvestre II, Sérgio IV (quando o “califa louco” Al-Hakim destruiu o Santo Sepulcro em 1010) e Gregório VII sonharam projetos no mesmo sentido. Foram deste santo as palavras: “preferiria expor a minha vida para libertar os Santos Lugares a comandar o universo”.

Do confronto entre as duas religiões e civilizações, Chesterton confere que os cristãos poderam retirar o melhor do lado muçulmano, enquanto o contrário não sucedeu. O cristianismo é dotado de uma plasticidade que lhe confere uma capacidade, única entre as várias religiões, de retirar, moldando-os à sua intrínseca espiritualidade, os aspetos tecnologicamente superiores vindos do lado contrário, sendo ao mesmo tempo detentor de uma elasticidade que lhe permite adaptar-se às mais díspares complexidades adversas. Podemos ilustrar esta noção traçando um paralelo entre duas existências concretas, cada uma delas paradigma de uma específica forma de viver em Cristo: São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. No movimento pendular resultante da surpreendente distância humana que separa esses santos medievais, perfeitamente visível na carne e nos temperamentos, depreende-se facilmente a largueza de vistas e de espírito da religião cristã, bem como o que estes atributos lhe auferem em termos de liberdade de ação.

O deus do Islão, um deus frio e sem face, autoritário e intolerante, um deus simplista que nasceu dos desertos e da cimitarra, nunca teve a flexibilidade para capacitar-se do acolhimento nem o poder de encaixe para admitir a diferença e a idiossincrasia. O islamismo, desde o seu início, comporta-se como um incêndio que alastra rapidamente numa paisagem árida onde predomina a palha seca: no seu avaro desenvolvimento tudo desbasta e tolhe, não deixando que nada sobreviva à sua passagem – consome os homens e destrói as nações. Provenientes de uma civilização apenas superficialmente mais avançada, ou seja, tecnicamente e teoricamente evoluída mas que comparava mal com a arte e o carácter ocidentais, os turcos seldjúcidas, ávidos de poder e glória, sujeitavam os peregrinos cristãos a roubos e assaltos, maus tratos e torturas, à escravidão, prisões e mortes. A partir da dobragem do ano mil, os testemunhos foram-se acumulando nas mentes cristãs, acabando por atingir a crispação da afronta e os limites da resistência.

Delacroix-Portal-Conservador

A entrada dos Cruzados em Constantinopla – Eugène Delacroix (1840)

Para quê o fútil exercício de as contar? A História também se alimenta de estatística, é certo. A Revolução Francesa tem o seu Delacroix e as invasões napoleonicas o seu Goya; a Guerra Civil Espanhola o seu Picasso. Contudo, por vezes há que ceder passagem ao ritmo do movimento, à intensidade do ambiente, ao acento da ecologia. Comparar o acontecimento das Cruzadas com uma sinfonia não será completamente descabido (embora Beethovem tenha-se arrependido de o fazer com Napoleão). (A marcha compreensivelmente não se ajusta, pois obriga-nos a uma contagem, nem que seja inconsciente). No entanto, poderemos ser mais felizes em evocar a longa-metragem. Ao estilo de um filme mudo dos anos vinte, em que os travellings, as panorâmicas, os ângulos da câmara, a profundidade de campo, a combinação de luz e sombra, a montagem, os grandes planos, conseguem mostrar – sem serem incomodados pela dimensão sonora (ou pela cor) – não uma sucessão de eventos estanques, mas somente um único e grandioso fenómeno – A Cruzada.

Talvez fosse necessário invocar o melhor Eisenstein (sem a componente política) para poder captar com o fervor e o realce devidos, essas deslocações em massa de seres humanos. Quais gafanhotos com alma, uma praga de armaduras e cotas de malha metálicas montadas a cavalo, juntamente com esqueletos andantes forrados a peles enrugadas e esforçadas, magras e curtidas pelos elementos rurais e pela costumeira escassez de alimento, com as mãos calejadas pelo rudimentar arado ou martelo que ficou para trás, trespassou as cidades, as aldeias, os campos e os castelos, flanqueou os picos mais elevados, ultrapassou os rios e navegou os estreitos, empurrou as fortificações e ergueu o krak, numa deriva heróica até ao extremo oriental do continente europeu e até aos limítrofes da Ásia.

A História nunca mais seria a mesma. Michelet: “viram-se homens desinteressarem-se subitamente de tudo quanto amavam até então: os barões abandonaram os seus castelos, os artífices os seus ofícios e os camponeses os seus campos, para consagrarem as suas penas e a sua vida a preservar de profanações sacrílegas aqueles dez pés quadrados de terra que haviam acolhido durante algumas horas os despojos terrenos do seu deus”. O voto de cruzado era irrevogável e observava a lei canónica, a sua violação caindo sob o perigo de excomunhão. Os fiéis eram obrigados a pedir autorização ao respetivo pároco e os monges tinham de a obter do seu superior. Mesmo com estes cuidados e preparos, apesar destes contra-pesos, foi tarefa ingrata tentar contêr os entusiasmos arrebatados e aplacar o intenso clamor. Não foram decerto capazes de impedir os desastres nem as carnificinas não forçadas diretamente pela mão inimiga – a Cruzada das Crianças e a Cruzada Popular resultaram em rotundos fracassos e em elevada mortandade.

Nesses dois séculos, a veia mística das peregrinações não cessou por um instante: havia sempre gente a partir para Jerusalém, gente mais ou menos esfomeada, melhor ou pior calçado ou simplesmente descalço, melhor ou pior armado ou simplesmente desarmado, a cavalo ou de carroça ou simplesmente a pé, principalmente da Flandres, da Inglaterra, da Escócia, da Alemanha, da Itália e da França. De facto, muitos homens da França (razão porque em terras do próximo-oriente todos os europeus eram denominados por “francos”). Enfrentando situações atmosféricas e áreas geograficamente agrestes, os desertos tórridos e secos, as tempestades de areia, as cheias do Nilo, lutando em terrenos desconhecidos e em clara inferioridade numérica contra homens mais fortes, mais altos e mais possantes, aguentando as pestes e as doenças, a fome e a sede, os ferimentos, a morte do amigo e do familiar, foram corajosa e abnegamente tentar libertar os Santos Lugares – sob o lema “Deus o quer”!

Seguindo o rumo dos caminhos trilhados, analisando o padrão da formação das poças de sangue dos combates travados e observando a inércia da queda dos corpos, verifica-se que o curso da conceção histórica hegeliana inverteu-se, romando de oeste para este, no sentido da Cidade Santa. O aparente fracasso deste autêntico romance de cavalaria (cinematograficamente adaptável, como sugerimos) não reside na efémera reconquista da cidade de Jerusalém ou na breve duração do Reino de Jerusalém. Apesar do facto inelutável do falhanço em libertar o Santo Sepulcro dos maometanos e malgrado a razia da população europeia (a França praticamente ficou sem nobreza), a recuperação da Terra Santa foi uma ideia plena de grandiosidade e generosidade. Uma ideia digna de Roma. (Nunca foi possível estabelecer uma ligação estável entre cristãos gregos e latinos. O Vigário de Cristo ainda acalentou durante algum tempo a esperança de acabar com o Cisma, mas provou-se sem viabilidade). Nesta grandiosa aventura mística, nesta “Epopeia das Cruzadas” (René Grousset), a pedra de toque reside no nascimento da ideia de cristandade, e com ela, da ideia de uma unidade e de uma identidade europeias. Do espírito europeu.

Escrito por Paulo Pinto. Portal Conservador.

Comentários

0 Comentário

Escreva um comentário





*