O porquê de eu não ser Charlie Hebdo

Um pensamento me passou sobre o terrorismo, analisando a atitude pela ótica dos islâmicos fanáticos: não se tolera a ofensa ao sagrado, sob pena de morte. Como nós, ocidentais, somos criaturas envolvidas numa cultura secularizadas e não sinceramente religiosas o suficiente (ou até cínicas), eles, contudo, vêem de forma diferente. Quem desrespeita a Alá não tem o direito de viver. Logo, os cartunistas que satirizavam virulentamente as religiões deveriam morrer.

Mas o raciocínio aqui esconde dois grandes sofismas, que disfarçam a falta de prudência e a distorção perigosa do raciocínio: eu tenho pleno direito de discordar, de desprezar e até mesmo odiar os cartunistas que faziam charges de profundo mau gosto. Porém, encontraria os meios mais prudentes e legítimos de coibir a ofensa à fé, através da razão e dos meios legítimos.  Não me dá o direito de matá-los, nem de ser terrorista. Justamente porque, ao contrário do islamismo, para um cristão, o sagrado não é apenas uma retórica abstrata. Ele implica também uma questão prática que é a vida de um ser humano.

E a quem disser que na Cristandade não havia provocações desse tipo, será preciso ler a forma como os cristãos medievais revelavam o humor. O carnaval, por exemplo, é uma festa genuinamente medieval. Nestas festas, camponeses se fantasiavam de vários personagens e até de nobres, de clérigos e embora tivessem uma reverência ao sagrado, não poupavam críticas satíricas às autoridades religiosas da época. A paródia e a imitação eram a regra. Dante Alighieri manda o papa Adriano V ao inferno. Erasmo de Roterdã acusava o papa Julio II de corrupto e homossexual. Inclusive, Sua Santidade, nas portas do céu, discute virulentamente com o apóstolo Pedro, chamando-o pejorativamente de “judeu”, de “pescador’. Os elementos religiosos são envolvidos numa piada. Será que alguém veria algum tipo de manifestação cultural desse tipo no mundo islâmico? Difícil.

396618

Prefiro morrer de pé do que viver ajoelhado‘, disse diretor do Charlie Hebdo.

Uma questão que qualquer membro de outra religião jamais vai entender (e incluo entre eles, os islâmicos) é que a história do Cristianismo é uma tensão entre o sagrado e o profano, entre o temporal e o espiritual, entre a liberdade mundana e a ordem espiritual. Esse detalhe particular é incompreendido até mesmo pelos meus amigos católicos “tradicionalistas”, que idealizam uma Idade Média hermética, fictícia e inexistente.

Essa relação entre o espiritual e o profano expõe os seguintes dilemas, não somente da defesa da religião e de princípios, como também da sua atuação na vida mundana. Se por um lado defender os valores da religião cristã é um fator legítimo, isso não isenta a importância do profano, dos homens reais do dia a dia, dos seus dramas e de suas dissidências. Essa briga e esse universo dividido que faz do ocidente um ambiente de liberdades inexistente no mundo oriental e no mundo islâmico.

Essa ignorância da divisão entre o humano e o sobrenatural faz com que os islâmicos transformem o crime, o terror e a violência mais brutal, imoral e gratuita num elemento sacralizado, divinizado. O terrorismo islâmico é, na prática, uma idolatria perversa e divinizada da ação humana.

Ao contrário da modinha do momento, “Je suis charlie”, sou completamente “je nes suis charlie”. O humor daqueles cartunistas me parecia grosseiro, apelativo, desrespeitoso. Eis o mal do humor moderno: ele não tem, como na Idade Média e até na Renascença, a finalidade de educar, de rir, de denunciar objetivamente o ridículo, mas de ofender por ofender. Justamente porque o sentido moral do humor se perdeu. Numa sociedade onde as noções do bem, do belo, da verdade e da decência foram obscurecidas pelo relativismo, resta inverter a ordem natural das coisas. Faz-se piada sobre o que é bom, o que é decente e valoriza-se o que é ridículo como se fosse algum tipo de bem.

O folhetim Charlie Hebdo, como aqui no Brasil o sonolento grupelho de youtube “Porta dos Fundos”, não fazia humor, caluniava e agredia pura e simplesmente. Vou mais além: era humor “politicamente correto”. Atacar a religião pode. Agora experimente satirizar os grupinhos do momento protegidos pela histeria politicamente correta? Pode dar cadeia. Os cartunistas do Charlie Hebdo foram mortos porque atentaram contra um grupo que era, paradoxalmente, protegido pelos seus amiguinhos de esquerda, os muçulmanos, esses adeptos da “religião da paz”. Se a histeria politicamente correta no ocidente atacasse tão virulentamente os islâmicos como ataca os cristãos, era até possível que os terroristas fossem um pouquinho mais cautelosos. Se algum cristão desajustado e maluco praticasse o mesmo crime, a imprensa ocidental seria muito mais impiedosa e não teria tantos escrúpulos em atacar a Igreja Católica.

Mas o terrorismo islâmico é incensado, aprovado e acobertado pelas esquerdas do ocidente. Charlie Hebdo quebrou a regra e perdeu. Ou melhor, como os cartunistas faziam parte dos que ditavam as regras, ignoraram que terroristas, em geral, não obedecem regras. Mesmo assim, apesar do atentado e da ameaça que o islamismo representa para a Europa e o ocidente, há muito esquerdista aí que está mais preocupado com o crescimento da “extrema-direita” nas próximas eleições!

É surpreendente agora afirmar que a “liberdade de expressão” foi atacada na França. O que o ocidente não percebe, por cegueira, é que, como antes, a liberdade de expressão é muito seletiva. E pior, invertida no âmbito dos valores. A cultura politicamente correta criminaliza ofensas ou jocosidades contra “minorias sexuais”. É pior, a despeito de vários crimes envolvendo muçulmanos na Europa e da franca hostilidade dessas comunidades alienígenas encravada no continente, a imprensa fez o mais obsequioso silêncio. Tenta ainda resgatar o mito do islamismo bonzinho. Preocupa-se com a tal “islamofobia”. Revelar a verdade se tornou de consciência.

Porém ninguém reconhece o direito de se proteger valores familiares ou religiosos cristãos, que são a base de nossa sociedade. Ou melhor, as bases espirituais da civilização européia já estão destruídas pelo secularismo. Criticar ou contar piadas de gays não pode, mas zombar de Jesus Cristo pode.  As feministas da FEMEN podem invadir a Catedral de Notre-Dame, mostrar os peitos ou mesmo simular aborto no altar da Igreja. Isso é “liberdade de expressão”. Agora ninguém pode denunciar o islamismo como “religião da violência”, porque você será considerado “preconceituoso”, “racista” e “fascista”. E repito, mesmo que os coleguinhas de esquerda tenham sido executados com fuzis kalashnikov nas ruas de Paris, transformando a bela cidade numa extensão da Síria, a vigilância continua como dantes. Todo mundo nas ruas é “Je Suis Charlie”, o islamismo é a “religião da paz” e tudo fica por isso mesmo!

O massacre dos cartunistas será o pretexto que os socialistas europeus, aqueles que promoveram durante anos o radicalismo islâmico, ataquem todas as religiões e radicalizem o processo secularista do continente. Resta saber quem ganhará a disputa sobre a alma dos europeus: a União Européia ou o islam.

Escrito por Conde Loppeux de la Villanueva. Blog pessoal.

Comentários

20 Comentários

  1. Ruskin disse:

    Muito bom! Corrija apenas o francês: o correcto é “je ne suis pas Charlie”. Abraços!

  2. Jorge Carreiro disse:

    Muito bom você poder se expressar e não ser fuzilado por isso!

    • Kirk disse:

      Existe uma diferença entre criticar uma religião, e desrespeitá-la da forma mais grotesca possível, como fazem os ditos cartunistas que satirizavam truísmos sem a devida imparcialidade. Isso que estes cartunistas arrogantes fazem, é nada mais que escárnio, ou, mais eloquentemente, schadenfreude. Eu posso defender vossa liberdade de expressão, mas não me peça que defenda esta, uma vez que é feita de maneira tão grotesca e desrespeitosa como no escárnio.

      • fernando disse:

        Concordo plenamente

      • Xavi Esteves disse:

        Você tem apenas que respeitar esta como todas as outras revistas, faz parte dos deveres humanos. Quem não respeita deveres é um animal. É tão simples quanto isto. Temos o exemplo dos cartons de futebol. Eu sou do Sporting e quando sai um cartoon a gozar com o Sporting eu não tenho o direito de mal tratar ninguém, tenho apenas de respeitar. Custa me ler coisas que mal dizem do meu clube mas temos liberdade de expressão, e ainda bem!

  3. Márcia de Alencar disse:

    Eu estava esperando uma análise assim, pois eu também não pertenço a esse espírito (de porco) de alma coletiva que chora por uns mortos e por outros não.

  4. Izaias disse:

    Defendem a liberdade de expressão, então porquê não vão zoar negro, gay, travesti essas coisas?

    • ... disse:

      Se estivessem ridicularizando os negros e os homossexuais, facilmente seriam repudiados, mas como se trata de religião, estavam apenas exercendo o direito de liberdade de expressão, e portanto, são “inocentes”.

      • renato disse:

        Mas por que seria necessário zoar negros? Ao que me cosnta o que o autor do texto diz, não é o direito de “zoar”, mas o de criticar. E não entendo como “zoar” negros se encaixa nessa análise!

  5. Hed disse:

    Tudo o que é dito no texto eu concordo, porém, acredito que a frase da modinha “je suis charlie” não foi inventada para enaltecer Hebdo, seus desenhos de péssimo gosto e sua ideologia idiota. Entendo a tal frase como uma resposta de repúdio ao ataque terrorista. Não havia outro recado a ser dado. Se fosse pura simpatia por Hebdo e seu lixo, a modinha teria pego depois da ameaça, antes do ataque…

  6. Ernane disse:

    Essa superficialidade que consome a grande maioria de brasileiros chegar ser ridícula. Até que ponto, os ditos, continuaram na caverna…..?

  7. Paulo disse:

    Quais são esses “grupinhos do momento”?
    Que texto confuso.

    Outro trecho sobre o qual tentei refletir:
    “Revelar a verdade se tornou de consciência.”
    Reli e continuo sem entender. E não sou tão ignorante. Na minha opinião é o autor que não sabe transmitir muito as ideias.

    • Lis disse:

      Não sou autora do texto, Paulo, mas tomei a liberdade de lhe explicar o que ele quis dizer:
      Por “‘grupinhos do momento’ protegidos pela histeria politicamente correta”, isto é, a militância esquerdista, entenda-se: gayzistas, feministas, abortistas, racialistas, ambientalistas, defensores dos direitos dos criminosos, defensores de quaisquer religiões, ideologias e condutas que não sejam pautadas pela ética, moral e doutrina judaico-cristãs, como é o caso, no Brasil, das religiões afro-brasileiras, e na Europa, do islamismo, e todo e qualquer grupo que tente justificar seus pensamentos e atitudes, por mais estranhos, insanos, bárbaros e até mesmo criminosos que sejam, com um simples: “fazemos e exigimos tal e tal coisa porque somos ‘vítimas’ desta ‘sociedade opressora'”.
      Neste sentido, o autor argumenta que o erro do “Charlie Hebdo” (embora faça um trabalho que, de forma geral, é aplaudido pela esquerda) foi mexer com um dos grupos protegidos pela esquerda, mas não qualquer grupo e sim um dos que apenas sabem responder a críticas, sejam elas de qualquer intensidade forem, com ataques violentos e letais. Em outras palavras, o “Charlie” abusou demais do seu direito e deveria saber o seu lugar e entender que pode até ter caído nas graças da esquerda, mas sua “liberdade de expressão” só é válida e útil para criticar e zombar dos cristão, dos judeus, dos conservadores, da direita, e de tudo mais que contrarie os anseios da esquerda.
      Quanto ao trecho “Revelar a verdade se tornou de consciência”, acredito que está claro: no que diz respeito à divulgação da informação pela mídia, que é a que o autor se refere, dizer a verdade deveria ser um dever básico de cada jornalista que se preze, no entanto, com a grande mídia aparelhada pela esquerda, até a verdade passou a ser relativizada, atacada e aviltada em favor da grande mentira do “politicamente correto” (e de toda a disputa de poder que abrange). Desta forma, a divulgação da verdade, que deveria ser um dever geral pautado pelo compromisso irrestrito de um grupo com sua ética profissional, é agora comandada apenas pela ética e consciência individuais.
      Espero ter ajudado.

  8. Aldo disse:

    Respeito sempre é muito bom, temos que aceitar as diferenças sem Ridicularizar qualquer crença, os cartunistas e seus leitores riam do que faziam, agora quem é que ri?

  9. João disse:

    Eles podem matar cristãos, mas esse tonto não pode fazer uma chargezinha??
    A bíblia condena o fanatismo!!!
    A bíblia prega o amor!
    Que DEUS e esse deles que prega a morte??

  10. Marli Souza disse:

    Também não sou Charlie, pelo contrário, sou totalmente avessa a esse tipo de humor, que ofende e ridiculariza pessoas e crenças, seja contra Maomé (que para os islâmicos é sagrado, como Cristo é para os cristãos), contra Cristo, Deus, ou mesmo contra gays e outros grupos. A liberdade é um valor importante, mas quando perde os limites oferecidos por outros valores, como o respeito, a empatia e a responsabilidade, por exemplo, se desvirtua e transforma em outra coisa, que pode ser qualquer coisa, mas não liberdade. Parabéns pela matéria!

  11. Nicolau disse:

    Charlie Hebdo, cambada de porcos esquerdistas, marxistas-trotsquistas que não tem coragem de fazer caricaturas contra os judeus!

  12. isneir disse:

    O problema não está nas religiões e sim nos homens de mente radical e que anseiam em dominar seus semelhantes usando a fé como instrumentos. É um mal da natureza humana: o desejo pelo poder.

  13. Nuno Fernades disse:

    Estava prestes a concordar…
    Mas tem um ponto importante a corrigir, na sociedade ocidental um atendado efetuado por um Cristão é expurgado do seu sentido religioso. Veja-se de OSLO 2011, cristão de olho azul com motivações religiosas e racistas, em noticiário nenhum foi referido que o autor do atentado se considerava um Cruzado medieval.
    Quanto ao humor, humor é humor. Tem mal gosto e bom gosto, devemos limitar-nos a não comprar, não ler e não ver e acima de tudo evitar comentar, se o “Charlie” não fosse lido, nenhum fundamentalista iria perder seu tempo em ir lá.
    Curioso é que num aspecto vc e “Charlie” concordam, o Islão tem que ser “ridicularizado”, (ou Criticado, que na prática tem o mesmo efeito) ao nível do cristianismo, é uma forma eficaz na minha opinião de combater os fundamentalistas. Mas eu não o faria, principalmente quando o post tem um viés cristão nítido. Sempre se diz por aí.. quem tem telhados de vidro…
    De resto, acho bem ouvir uma voz destoante no meio da manada. Também não sou charlie, sou Nuno.

Escreva um comentário





*